Olá, gente boa,

Alguns anos atrás, na porta do Estúdio Capitania do Som — estúdio profissional que mantive durante 11 anos, nos anos 2000 —, estavam reunidos alguns dos grandes forrozeiros de Sergipe. Entre eles, Valtinho do Acordeon, Erivaldo de Carira, João da Passarada e outros companheiros.

A conversa girava em torno da falta de espaço para os artistas sergipanos nos festejos juninos.

Além dos nomes nacionais já consagrados, que haviam chegado nos anos anteriores para dividir — e muitas vezes ocupar — os espaços dos nossos artistas, agora eram as grandes bandas de forró eletrônico que dominavam a cena. Com estruturas enormes, repertórios recheados de versões de músicas internacionais e apresentações que chegavam a durar quatro horas seguidas, tocavam, como dizia meu avô, “sem tirar de dentro”, numa respirada só.

Depois de ouvir aquela conversa, brinquei:

— Vocês estão perdendo espaço não porque não têm qualidade, mas porque são baratos.

Alguns me olharam atravessado. Outros balançaram a cabeça. E houve quem nem entendesse direito o que eu estava querendo dizer.

A verdade é que, historicamente, os artistas locais — sejam eles ligados às tradições juninas ou a qualquer outra expressão artística — raramente foram devidamente valorados e valorizados pela mídia, pelo mercado e pelo poder público.

E isso não acontece apenas em Sergipe.

Só se valoriza aquilo que se conhece. Se a produção artística local não aparece na televisão, não toca nas rádios, não ocupa os melhores palcos e horários e não recebe uma divulgação compatível com sua importância, como poderá conquistar o reconhecimento do grande público?

Durante muito tempo, o artista local foi tratado apenas pela perspectiva lúdica da arte:

— Ele é tão bonzinho… Vamos colocá-lo na programação. Além disso, cobra barato.

Ou, então, era chamado simplesmente para preencher um espaço ocioso:

— Coloque o pessoal da terra nos horários mais fracos.

Já presenciei emissoras de televisão anunciarem que fariam uma entrada ao vivo em rede nacional e, imediatamente, a pedido da emissora os organizadores mudarem a programação porque, naquele horário, estaria no palco um artista sergipano. Justamente quando surgia a oportunidade de mostrar nossos talentos para o Brasil, manifestava-se o velho complexo de vira-lata: retirava-se o que era nosso para exibir uma atração de fora.

E o mais grave é que aquela atração nacional, depois do espetáculo, levava seu cachê para movimentar a economia do lugar onde vivia. Enquanto isso, o artista sergipano, que mora aqui, emprega músicos daqui, contrata técnicos locais, compra no comércio local e faz o dinheiro circular dentro do estado, continuava sendo colocado de lado.

Esses problemas foram se acumulando. Hoje, mais uma vez, nossas festas populares se transformaram em assunto nacional, com denúncias frequentes de cachês milionários, possíveis superfaturamentos e municípios pequenos comprometendo valores desproporcionais às suas realidades financeiras.

Não se trata de condenar a festa. Festa é importante. Gera trabalho, renda, turismo, pertencimento, convivência e alegria. Mas dinheiro público exige responsabilidade, transparência e compromisso com a população.

Antes, nossos forrozeiros disputavam espaço com os grandes nomes nacionais e com as bandas de forró eletrônico, que, bem ou mal, ainda mantinham alguma ligação com o gênero. Depois chegaram, em grande escala, o sertanejo, o arrocha, o pop e outras expressões musicais que pouco ou nada dialogam com a tradição dos festejos juninos.

E quero deixar algo muito claro: não sou contra nenhum gênero musical.

Toda expressão artística merece respeito e pode encontrar seu público. Mas cada manifestação precisa ter espaço, contexto e coerência. O sertanejo pode estar em Barretos, nos rodeios, nas festas privadas e nos eventos próprios do gênero. O arrocha e o piseiro também têm seus circuitos e públicos. O que não faz sentido é utilizar milhões de reais dos festejos juninos para transformar o São João em um grande festival genérico, no qual o forró aparece apenas como decoração.

As bandeirolas são de São João. As quadrilhas são de São João. A fogueira, o milho, a sanfona, a zabumba e o triângulo são de São João.

Mas, quando chega a hora de dividir o orçamento e ocupar os principais palcos, muitas vezes o forrozeiro é tratado como convidado dentro da própria casa.

Também considero um erro criminalizar automaticamente os artistas contratados. Muitos estão apenas exercendo seu trabalho e cobrando o valor que o mercado aceita pagar. Qual artista não gostaria de ter reconhecimento, grandes públicos e bons cachês?

A questão muda quando artistas e empresários passam a integrar sistemas pouco transparentes de negociação, intermediação e concentração de contratos. Nesses casos, é necessário investigar responsabilidades individualmente, sem transformar acusações em espetáculo e sem condenar antecipadamente quem apenas subiu ao palco para trabalhar.

O problema é maior do que um artista ou um gênero musical. O que está sendo destruído é o mercado privado da música.

Hoje, dificilmente um produtor independente se arrisca a contratar determinadas atrações milionárias, porque sabe que a bilheteria provavelmente não cobrirá os custos. Criou-se, então, um mercado quase exclusivamente institucional, sustentado pelas prefeituras, pelos governos e pelos recursos públicos.

Nesse ambiente aparecem empresários, intermediários, financiadores, representantes, produtores, gestores e terceiros que passaram a ditar as regras das contratações. Quando não existem critérios públicos, transparência e fiscalização, abrem-se caminhos para comissões indevidas, favorecimentos, exclusividade artificial, superfaturamento e concentração dos recursos em poucas empresas e atrações.

Por isso, a investigação não pode parar no nome de quem está no palco.

É preciso perguntar:

Quem definiu aquele cachê?

Qual foi o critério utilizado?

Por que determinadas empresas concentram tantas contratações?

Existem propostas comerciais comparáveis?

O valor pago é compatível com os preços praticados no mercado privado?

Quem são os intermediários?

Quanto do recurso público permanece na economia local?

Quantos artistas, técnicos, produtores e trabalhadores da cultura daquela cidade foram contratados?

Fazer festa é bom e necessário. Mas o poder público tem a responsabilidade de proteger a tradição, fortalecer a cultura local e usar os recursos públicos para gerar desenvolvimento cultural, social e econômico.

E isso não pode existir apenas nos discursos oficiais.

Não adianta falar em tradição, decorar a cidade com bandeirolas, mostrar quadrilhas nas propagandas e publicar mensagens bonitas nas redes sociais, enquanto milhões de reais são destinados a atrações que não possuem qualquer relação com a cultura celebrada.

Tradição não pode ser cenário de propaganda.

Precisa ser o centro da política pública.

Há anos venho defendendo a criação de uma política permanente de valorização dos artistas sergipanos e nordestinos, especialmente daqueles ligados ao forró e às tradições juninas. Essa política deve estabelecer compromissos concretos.

Entre eles, a reserva de um percentual mínimo dos recursos e dos horários principais para artistas locais; a definição de critérios justos de cachê, considerando trajetória, público, formação artística e estrutura do espetáculo; a publicação antecipada dos valores, empresas e condições das contratações; e a garantia de que os artistas da terra também ocupem os melhores palcos e horários.

Defendo ainda programações equilibradas, nas quais o forró tradicional seja protagonista; incentivos para que produtores privados voltem a realizar shows e circuitos; circulação de artistas durante todo o ano; formação de novas plateias; presença da música regional nas escolas, rádios e televisões públicas; apoio aos trios de forró, compositores, sanfoneiros, zabumbeiros, triangulistas, quadrilhas, mestres e grupos da cultura popular.

Também precisamos criar mecanismos de acompanhamento que permitam saber quanto do orçamento das festas permanece no município e no estado. Investir na cultura local não significa fechar as portas para artistas nacionais. Significa construir equilíbrio, reciprocidade e responsabilidade.

Uma atração nacional pode enriquecer uma programação. O que não pode é consumir quase todo o orçamento e transformar dezenas de artistas locais em meros figurantes.

O Nordeste precisa acordar.

Conseguimos registrar as Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil. Agora trabalhamos para que o forró também seja reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Mas faço uma pergunta necessária: Para quê?

Para colocar o forró numa moldura, guardar num arquivo e mostrar às futuras gerações como uma tradição que um dia existiu?

Para esperar que alguém diga, daqui a alguns anos: “No meu tempo ainda tinha forró no São João”?

Patrimônio não é lembrança de algo que morreu. Patrimônio precisa estar vivo, presente, respeitado, praticado e transmitido. Precisa gerar trabalho digno para seus artistas, espaço para seus mestres e oportunidades para as novas gerações.

Não podemos permitir que o forró, depois de reconhecido como patrimônio imaterial, seja tratado na prática como um “patrimônio imemorial”: algo de que todos se lembram, mas que já não encontram nos palcos.

O forró não precisa apenas de homenagem. Precisa de palco. Não precisa apenas de título. Precisa de investimento. Não precisa apenas de aplausos. Precisa de respeito, planejamento e continuidade. Precisamos decidir se queremos o forró apenas como uma bela lembrança do passado ou como uma força viva do presente e do futuro.

Eu já fiz a minha escolha. E continuarei escrevendo, cantando, compondo, propondo e lutando para que o forrozeiro nunca mais seja tratado como um convidado barato dentro da festa que ele mesmo ajudou a construir.