Olá, gente boa.

Ontem fui convidado pelo pré-candidato ao Senado e meu candidato, Edvaldo Nogueira, para uma conversa sobre uma pergunta simples, mas de enorme importância: afinal, o que um senador da República pode fazer, de forma concreta e verdadeira, em favor da cultura brasileira?

Na sala estavam artistas, produtores, gestores e pessoas que dedicaram boa parte da vida à cultura. Ouvi muito. Também falei um pouco. Mas, quando a reunião terminou, saí de lá com uma inquietação ainda maior do que quando entrei.

Na verdade, saí com uma responsabilidade que coloquei sobre mim mesmo. A responsabilidade de ajudar a construir uma proposta que possa mudar definitivamente a forma como o Brasil enxerga a cultura.

Durante muitos anos discutimos editais. Discutimos leis de incentivo. Discutimos cachês. Discutimos eventos. Tudo isso é importante. Mas talvez ainda não tenhamos feito a pergunta mais importante de todas.

O que falta para que a cultura seja, de fato, uma política de Estado? A resposta começou a surgir enquanto voltava para casa.

O Brasil já construiu um dos mais modernos sistemas de gestão cultural do mundo. Criou o Sistema Nacional de Cultura. Criou Conselhos. Criou Planos. Criou Fundos. Realizou Conferências. Fortaleceu a participação social.

Nos últimos anos, programas como a Lei Aldir Blanc e a Política Nacional Aldir Blanc mostraram que, quando existem recursos, o Sistema funciona.

Mas ainda falta concluir essa construção. Falta aquilo que sustenta qualquer política pública permanente: um financiamento estável e contínuo.

Foi então que percebi que talvez estejamos discutindo a cultura da maneira errada. Durante décadas aprendemos a enxergá-la como despesa. Como entretenimento. Como um setor que beneficia apenas artistas. Nada está mais distante da realidade.

A cultura é, talvez, a única política pública capaz de atuar simultaneamente na educação, no turismo, na economia, na inclusão social, na inovação, na preservação do patrimônio, na construção da identidade de um povo e na geração de emprego e renda.

Nenhuma outra política pública consegue dialogar com tantas áreas ao mesmo tempo.

Imagine um prefeito que tenha um milhão de reais para investir. Se ele pavimenta uma rua, realiza uma obra importante. Com o tempo, porém, o asfalto se desgasta e precisará de novos investimentos.

Se constrói uma praça, entrega um equipamento público fundamental. Mas a praça envelhece e exigirá manutenção constante.

Agora imagine que esse mesmo milhão seja investido em cultura. O recurso começa a circular imediatamente. O músico recebe. O técnico de som trabalha. O iluminador é contratado. O cenógrafo cria. O marceneiro produz. A costureira confecciona figurinos. A gráfica imprime. O restaurante vende mais. O hotel hospeda visitantes. O motorista transporta. O artesão comercializa suas peças. O fotógrafo registra. O jovem aprende um ofício. O turista permanece mais tempo na cidade. O comércio vende mais. Os impostos retornam aos cofres públicos.

Enquanto isso, algo ainda mais importante acontece. As pessoas ocupam os espaços públicos. Se reconhece naquela cultura. As crianças descobrem talentos. Os idosos convivem. A comunidade fortalece sua identidade. O patrimônio ganha novos significados. A autoestima coletiva cresce. A cidade passa a ser reconhecida não apenas pelo que produz, mas pelo que representa.

A cultura é o único investimento público que começa a devolver riqueza antes mesmo de terminar o projeto. Por isso, talvez tenha chegado a hora de uma nova luta nacional. Não por mais um edital. Não por mais um programa temporário. Mas pela consolidação definitiva da cultura como política de Estado.

Assim como o Brasil construiu o SUS para garantir o direito à saúde e estruturou políticas permanentes para a educação, talvez tenha chegado o momento de concluir a construção do Sistema Nacional de Cultura, garantindo-lhe um financiamento permanente, estável e federativo.

Não para atender artistas. Mas para desenvolver pessoas, cidades e o Brasil. Essa não é uma pauta de um governo. Nem de um partido. É uma pauta do país. Foi essa reflexão que trouxe daquela reunião.

E, a partir de hoje, assumo comigo mesmo o compromisso de estudar, ouvir especialistas, dialogar com gestores, economistas, juristas, artistas e parlamentares para ajudar a construir uma proposta séria, tecnicamente responsável e capaz de mobilizar o Brasil.

Porque acredito, cada vez mais, que a cultura não é consequência do desenvolvimento. Ela é uma de suas principais causas.