Olá, gente boa,

Como os festivais são importantes para a música!

Em 1982, participei do II FSMPB — Festival Sergipano de Música Popular Brasileira, realizado pela TV Sergipe. Estávamos lá com o Entre Amigos, defendendo “Gênese”, uma composição minha em parceria com Alexi Pinheiro.

Lembro também de um menino magrinho que apareceu cantando uma canção chamada “Madrugada”. Sua interpretação tinha um jeito meio mineiro, uma voz afinada, cheia de melodia, e ele abusava — no melhor sentido — dos falsetes, alcançando notas agudas com uma leveza muito bonita.

Foi ali que ouvi, pela primeira vez, Francisco Queiroga.

Passou o festival e não tive mais notícias daquele menino.

Dois anos depois, em 1984, fui convidado por Jorge Lins para participar da final da primeira edição do Festival Novo Canto, criado por Jorge Lins, Sucupira, Antônio Amaral e Acássia Barreto, com realização da FUNDESC — Fundação Estadual de Cultura. O festival aconteceria no Teatro Lourival Batista.

Eu e Paulo Lobo faríamos o show de encerramento e também participaríamos do júri. Fiquei impressionado com a qualidade das músicas e dos intérpretes. Foi quando Sucupira — apelido de José Américo Leite, um dos coordenadores do festival

— me disse:— Você não viu nada. Espere para escutar “Fim de Primavera”, com Chico Queiroga. O cabra canta bonito!

Quando o menino apareceu no palco, reconheci imediatamente aquele jovem do FSMPB. E Sucupira tinha razão. Chico era melhor entre os melhores.

Sua interpretação foi perfeita. E “Fim de Primavera” era daquelas músicas que, de tão boas, parecem já morar dentro da gente antes mesmo de serem ouvidas pela primeira vez. Uma letra pequena, mas cheia de poesia:

Aqui no fim do tempo

Passa uma ventania, pra levar toda alegria

Aqui não passa bonde nem passa trem

Mas passa uma ventania

E amanhã pra te ver florir, pra te ver florar

E amanhã pra te ver e sorrir

Vou te ver e chorar

Ai, quanta saudade, quanta espera do beija-flor

Nas flores, flora.

A canção ficou em segundo lugar, e Chico Queiroga recebeu o prêmio de melhor intérprete. Foi também sua primeira experiência em disco: o compacto duplo do festival reuniu as quatro músicas vencedoras.

No ano seguinte, Chico voltou ao Novo Canto e colocou outra canção no disco do festival: “Trem do Destino”.

“Lá vem o trem do tempo trazendo o destino…”

E o destino começava mesmo a chegar.

“Trem do Destino” ajudou a consagrar Chico Queiroga como uma das grandes revelações do Novo Canto.

No ano seguinte, a convite da Funarte, fui ao Rio de Janeiro participar de alguns cursos e tive a oportunidade de acompanhar os artistas sergipanos que participavam de uma seletiva nacional ligada ao Projeto Pixinguinha, importante iniciativa criada pela Funarte para fazer circular a música popular brasileira pelo país, reunindo artistas consagrados e novos talentos.

Imagine o que aquilo significava para mim: acompanhar, durante o curso, a direção de Maurício Tapajós, a iluminação de Jorginho de Carvalho e, ao mesmo tempo, ver meus conterrâneos Chico Queiroga, Joésia Ramos e Amorosa no palco da Sala Funarte Sidney Miller, no Rio de Janeiro.

Era um privilégio.

Os três se saíram muito bem, mas Chico Queiroga encantou a equipe da Funarte e foi escolhido para participar do Projeto Pixinguinha ao lado do cantor Biafra. Vieram apresentações no Teatro Nélson Rodrigues, no Rio de Janeiro, e uma turnê por outras cidades brasileiras.

Aquela experiência deu a Chico estrada, amadurecimento e, principalmente, a certeza de sua capacidade artística.

De volta a Aracaju, passou a ocupar cada vez mais os nossos palcos, bares e casas de shows. Cantava suas próprias composições, misturadas a pérolas da MPB, e aos poucos se tornou um dos artistas mais conhecidos e queridos de Sergipe.

Até que chegou 1990.

Por intermédio do produtor Sucupira, Chico entrou em estúdio para gravar seu primeiro LP, “Cor de Laranja”.

Ali estavam canções como “Transbrasileiro”, “A Mestiça”, “Noite Morena”, “Cor de Laranja”, “Rio em Cores de Cinema”, “Fim de Primavera”, “Desculpe o Modo”, “Chuva de Verão” e “Trem do Destino”, entre outras.

Canções que o público já conhecia dos shows e queria levar para casa.

Produzido por Sucupira, o disco foi lançado pela Polydisc, com distribuição nacional pela CBS, e tornou-se um fenômeno no mercado sergipano: foram mais de 15 mil cópias vendidas.

Para se ter uma ideia do tamanho daquele feito, discos de artistas nacionais de enorme popularidade, como Xuxa e Roberto Carlos, vendiam naquele período, em Sergipe, números muito inferiores.

O público queria ter em casa as músicas que já cantava com Chico nos shows.

E aqui, olhando tantos anos depois, penso que talvez tenhamos perdido uma grande oportunidade. Um artista sergipano vender mais de 15 mil discos em seu próprio estado, num mercado em que gigantes nacionais não alcançavam números semelhantes, era uma informação que precisava ter chegado com muito mais força à indústria fonográfica brasileira.

Talvez a história pudesse ter tomado outro rumo.

O lançamento aconteceu na casa de shows Augustu’s e contou ainda com a participação de Xangai.

“Cor de Laranja” deu régua e compasso a Queiroga.

Em 1992, ele se mudou para Salvador e, em pouco tempo, passou a disputar espaço entre nomes importantes da música baiana. Foi indicado ao Troféu Caymmi, então uma das mais importantes premiações da música produzida na Bahia, em diferentes categorias relacionadas ao seu trabalho.

E Chico fez história: conquistou o prêmio de melhor intérprete, destacando-se ainda mais no cenário musical.

A repercussão o levou novamente ao Rio de Janeiro, onde realizou temporadas e apresentações em espaços como o Jazzmania, o Teatro do Sesc da Tijuca e outras casas de espetáculo.

Depois veio o segundo disco, “Pálpebras”, gravado em São Paulo e contando com a participação de músicos reconhecidos nacionalmente, entre eles Sizão Machado, Luiz Meira e Roberto Lazzarini.

A partir de 1998, Chico se juntou ao amigo e extraordinário músico Antônio Rogério. Nascia a dupla Chiko Queiroga & Antônio Rogério — agora Chiko com K.

Vieram novos discos, shows, projetos e muitas canções.

Entre elas, “Pecado de Pássaro”, composição minha com Jorge Lins e recetemente Chiko lançou mais um disco solo “Sob o Sol.

Mas isso são outras histórias…

Francisco da Cruz Queiroga nasceu no Rio de Janeiro, mas chegou ainda pequeno a Aracaju. Foi aqui que cresceu, viveu e desenvolveu grande parte do talento que o transformaria em um artista singular.

Chiko Queiroga é, para mim, um compositor refinado e dono de uma das vozes mais bonitas e afinadas do país.

Terno, gentil, elegante.

E quando volto àquele menino magrinho que vi pela primeira vez em 1982, penso como os festivais são importantes. Eles revelam, provocam encontros, abrem portas, registram épocas e, algumas vezes, nos dão o privilégio de assistir ao começo de uma história.

Eu tive esse privilégio.

Vi aquele menino cantar “Madrugada”.

Depois o vi chegar ao “Fim de Primavera”.

Mas, para Chiko Queiroga, aquele fim de primavera estava longe de ser um fim.

Era apenas o começo do sucesso.

E ele continua fazendo da sua música, da sua voz e do seu cantar aquela mesma esperança que um dia ouvi nos versos de “Fim de Primavera”:

A espera do beija-flor, nas flores, a florar.