Olá, gente boa,

Minha terra é Sergipe, meu papagaio. Terra boa, onde acontecem coisas que só por aqui acontecem. Quando falo “meu papagaio”, é preciso explicar: o nosso papagaio não tem asa nem bico. Estranho? Pois é. Mas é justamente aí que mora o sentido.

Lembro da minha bisavó Noemi, com sua sabedoria de mulher forte, me perguntando:
— Meu neto, então pra que serve esse papagaio, se não voa nem fala?

Hoje eu tenho a resposta: é pra nos lembrar que quem deve voar e falar somos nós, sergipanos. Muitas vezes somos cobrados justamente por não defender a nossa sergipanidade, por sermos vistos como um povo pacato demais. Já ouvi antropólogos dizerem que nossa passividade vem do fato de “nunca termos lutado por nada”. Mas isso não é verdade.

A história está aí para provar. Desde a chamada “Guerra Justa”, em 1590, quando cerca de 20 mil indígenas defenderam suas terras — entre eles os Caciques Japaratuba, Pacatuba e Serigi — e foram massacrados pelos portugueses, até as lutas pela emancipação de Sergipe em relação à Bahia, sempre houve resistência. Perdemos territórios, mas jamais a dignidade. Ainda assim, ficamos com o rótulo da passividade.

É preciso, no entanto, lembrar dos homens e mulheres que enfrentaram o seu tempo, moldaram a identidade nacional e também a nossa sergipanidade. Do grande poeta Francisco Camerino ao saudoso Marcelo Déda, temos heróis em todas as áreas. Na cultura, então, surgem muitos: filhos e filhas dessa terra que, com coragem e resiliência, construíram pontes para que outros pudessem caminhar.

Eu sou um filho desses heróis, assim como tantos outros que nascem e renascem a cada momento. E é sobre um desses meninos, que hoje é um homem vencedor, que quero falar para vocês.

Era uma bela tarde, nos anos 90. Entrei no G. Barbosa, acompanhado de minha esposa, Dona Cássia, para fazer compras. De repente, me deparei com uma multidão incomum para um supermercado. Fiquei curioso: o que estaria acontecendo? Descobri logo em seguida: era uma tarde de autógrafos da banda sergipana do momento, Os Humildes, que estavam lançando seu primeiro disco, Los Gatos.

O grupo, formado por jovens como Léozinho, Alan Rocha, Alex Lira, Vinícius Nejaim, Écleberton Oliveira, Mirandinha, Fabrício e Ninho, brincava de tocar pagode, estilo em alta naquele tempo. A música O Pulo do Gato já estava há duas semanas em primeiro lugar na FM Sergipe.

O que vi me surpreendeu: só naquela tarde, todo o estoque de CDs do supermercado se esgotou, batendo recordes de vendas. Era um fenômeno!

Lembrei, ali mesmo, do que tinha vivido alguns anos antes, quando minhas canções Chifre de Cinderela e Lua de Gozo estouraram nas rádios e caíram na boca do povo sergipano. Mas confesso: a cena diante de mim me deixou impressionado.

Os meninos ainda abriram um bar que virou ponto de encontro da juventude sergipana. Era sucesso em tudo o que faziam. Nessa época, tive uma conversa com Fabiano Oliveira. Disse a ele:
— Cabeça, está na hora de você detonar com um artista de Sergipe. Use seu prestígio: fale com todos os artistas que vêm para o Pré-Caju e peça que cantem o maior sucesso do verão, O Pulo do Gato.

Fabiano ficou de pensar… mas o tempo passou, e a banda acabou se dividindo.

Foi então que me aproximei mais de Vinícius Nejaim, um dos integrantes e o compositor do sucesso. Acompanhei, ainda que de longe, sua caminhada. Paralelamente à música, ele seguiu sua carreira acadêmica: é professor efetivo e coordenador do Curso Superior de Tecnologia em Logística no Instituto Federal de Sergipe (IFS), administrador de empresas, mestre e doutor. Mas nunca abandonou a música — e, mais importante, nunca deixou que a música o abandonasse.

Compositor inspirado, Vinícius criou vários projetos musicais, como a banda Travessura, mas foi com o Xote Baião que alcançou sua maior realização. O grupo, que em breve completará 25 anos de estrada, carrega a bandeira do forró pé-de-serra, enraizado nas tradições nordestinas de Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro e tantos outros mestres.

A banda já lançou 7 CDs e 2 DVDs autorais, com inúmeros sucessos que ecoam nas festas, rádios e corações do povo. O time é formado por Vinícius (voz e composição), Taci (zabumba e percussão), Jeferson (sax), Tom (baixo), Dal (bateria), Carol (violão e back vocal), Juan (sanfona), Edice e Herval (dançarinos), com a produção firme de Solange.

A coragem e a determinação de Vinícius o fizeram não apenas um artista, mas também um homem de valores. Sempre prezou pelo coletivo, sempre olhou para o retrovisor da tradição e para o para-brisa do futuro, carregando no coração o som do Nordeste.

Paraibano de nascimento, mas sergipano de alma, ele é hoje um exemplo de artista digno, íntegro, criativo e talentoso. Um cantor e compositor sensível que honra a nossa cultura e que, sem dúvida, ele e o Xote Baião fazem parte da história do País do Forró.