Olá, gente boa!

A noite de véspera de São João sempre chega carregada de lembranças, saudades e uma nostalgia que bate no peito feito zabumba. É uma noite de reafirmação daquilo que aprendi com a vida, com minha mãe Susete e com todos os que, antes de mim, construíram essa história bonita chamada cultura nordestina.

Na minha casa, São João nunca foi apenas uma data no calendário. Foi – e ainda é – um ato de respeito. Um ritual de amor à terra, à memória e à identidade. Nunca troquei e jamais trocarei minha pamonha, meu pé de moleque ou meu milho verde por hambúrguer ou chucrute. E olha que o poder econômico tenta, viu? Tentam transformar a festa em vitrine de modismos, enfiando goela abaixo o que não tem cheiro de fumaça de fogueira nem gosto de milho assado.

Na casa de Dona Susete, o País do Forró sempre foi realidade. Junho chegava e o clima mudava: as tardes eram de cortar papel colorido e revista velha para fazer bandeirolas, enquanto minhas tias Margarete e Ielda confeccionavam os balões. O nosso “Arraiá da Susete” era um espetáculo particular: eu e minhas irmãs, vestidos de caipiras da cidade, com calças remendadas, camisas xadrez, chapéus de palha e as meninas com vestidos rodados de chita e sandálias de couro – as famosas priquitinhas.

Na radiola Empire, o som era só um: baião, xote, xaxado, galope e marchas juninas. Jackson do Pandeiro, Gordurinha, Sivuca, Carmélia Alves e a nossa Rainha Clemilda reinavam. Das vozes de Gonzagão a Gerson Filho, de Dominguinhos a Marinês, do Trio Nordestino ao som dos Oito Baixos de Gerson Filho. Era forró de verdade, com poesia, com história, com alma.

De Asa Branca ao Baiano Burro nasce morto, de Sebastiana passando pelo forro do ABC, a gente cantava e dançava embalado com o melhor da música nordestina o nosso Forró.

Foi assim que fui forjado: dançando quadrilha, cantando alto as músicas que nos representam e comendo os melhores pratos da nossa cozinha tradicional. Minha mãe sempre me ensinou: “Respeite e defenda o que é nosso.” E foi com essa base que escolhi minha profissão: ser músico, artista, compositor e cantor. Ficar do lado certo sempre foi natural. O lado da poesia, da melodia, do bom gosto e da mensagem que chega no peito como flecha certeira.

Hoje, com o coração meio apertado, olho para certos palcos e vejo mais pirotecnia do que tradição, mais playback do que sanfona, mais batidão eletrônico do que baião. Um São João gourmetizado, plastificado, embalado a vácuo, longe da nossa essência. Mas seguimos resistindo.

E quando a noite cai, lá estou eu, em volta da fogueira, ensinando às minhas filhas – e agora aos meus netos – o verdadeiro significado dos festejos juninos. O legado da minha mãe Susete, que aos 85 anos ainda acende a chama da tradição, segue vivo.

Fiz uma prece na beira da fogueira:

“Volta, meu São João! Bate as asas, vem no compasso do xote, do xaxado e do baião. Mostra para o nosso povo que forró não é batidão. Que nossa festa é raiz, é chão, é cultura, é emoção!”

Porque como já cantava Luiz Gonzaga:

“Ai que saudades que eu sinto, das noites de São João… das noites tão brasileiras, nas fogueiras, sob o luar do sertão…”

E que assim continue, por nós e pelos que virão.