Olá gente boa,
Depois de tantos anos trabalhando com música e cultura em Sergipe, navegando pelos intermináveis corredores de gabinetes, palcos, coxias, estúdios, emissoras de rádio e TV, cantando para plateias que variam entre duas pessoas e trezentos mil em praça pública, dividindo palco com inúmeros artistas, compondo trilhas para teatro, filmes, campanhas publicitárias e políticas, gravando minhas canções com parceiros de todas as cores, criando e executando projetos culturais, gestando secretarias, fundações, instituições… Eis que, aos meus 64 anos de idade e 43 de vida profissional, me deparo com a pergunta mais profunda que já me fizeram.
Minha neta de 9 anos, ao me ver saindo para trabalhar, disse: “Vovô, fica em casa, vem brincar comigo e com Luan (seu primo, de 5 anos).” Respondi: “Não posso, minha linda, vou trabalhar para a cultura.” Ela me olhou com aquela sabedoria que só as crianças têm e soltou a joia: “Vovô, o senhor fez isso a vida toda… não vai hoje não. Respondi que é a minha obrigação. Ela me olhou com aqueles olhos verdes e indagou. E vale a pena?”
Ah, a pergunta que ecoa! Vale a pena? Bom, depende. Se for pelo reconhecimento, é claro que não vale. Não vale se você espera ser reconhecido pelos gestores, pelos políticos e, principalmente, pelos próprios fazedores de cultura. Ser subestimado, não valorizado e, pior, não ser levado a sério… Ah, isso vem no pacote. Já passei por momentos decisivos, alguns perrengues daqueles de dar nó no estômago, mas também vivi outros momentos de alegria e satisfação, tanto artística quanto financeiramente (cheguei a fazer 90 shows por ano, acredite se quiser). Mas, ano após ano, vi a cultura ser relegada ao último plano, os fazedores de cultura sendo trocados por uma “cultura de massa”, aquela descartável, com data de validade estampada: começo, meio e fim. E quantas vezes não fui chamado de “chato”, “antipático”, “desorganizado”, ou simplesmente mais um “Artista da Terra”?
Artista da Terra, claro! Não sou de Marte, nem tenho plano de fugir para lá! Somos talentosos, criativos, mas esquecidos, e muitos sem preparo nenhum para a vida artística, para a luta diária que é sobreviver de arte. Ah, se não bastasse o abandono, ainda somos atormentados por uma política cultural que não forma, não qualifica. Somos jogados aos leões, sem um manual de instruções.
Também vi de perto aquele tipo de gente que aparece na cultura só para se firmar no poder. Gente rasa, que não sabe o que é cultura nem com legenda. Chegam de paraquedas, sem entender nada do setor, mas aproveitam da fragilidade dos artistas, que só querem mostrar seu trabalho. Para esses, os artistas viram biscoitos de festa de bacana, prontos para ser moldados ao gosto do freguês.
Olhei para minha neta e respondi: “Vale, meu amor, porque sou um homem feliz. Foi essa vida que escolhi, nela cresci, me desenvolvi, criei minha família e agora tenho vocês, meus netos lindos, inteligentes e saudáveis, que aprenderam comigo a respeitar nossa cultura e a saber reconhecer aqueles que defendem o que não sabem, movidos apenas pelos próprios umbigos e egos, sem pensar no coletivo.”
Acredito numa cultura organizada, planejada, que olha para o futuro e para o crescimento humano. Acredito no artista que sabe o seu verdadeiro valor na sociedade e, principalmente, no desenvolvimento da sua própria vida. Que sabe o que quer, onde quer chegar, que luta pelos seus direitos, mas conhece também seus deveres. Utopia? Todos nós temos. Mas, se ficarmos só na utopia, nada acontece. A realização precisa sair do campo dos sonhos e virar ação, ação concreta que beneficie a todos.
Agora, vou te dizer, do fundo do coração: vale a pena sim! E continuarei até o fim das minhas forças, lutando por mim e pela cultura da minha Aracaju, com ou sem o entendimento dos meus pares. Tenho um lado da cultura. Porque eu sei quem sou, sei da minha essência e conheço minha caminhada e as minhas verdades. O resto… bom, o resto é só consequência das escolhas e dos momentos da vida. E como diria minha bisavó Noemi Brandão: “Quem não gostar, que pegue uma senha e vá para a fila das reclamações!”
