Olá, gente boa
Muitas vezes me perguntam qual foi o melhor governo para a música ou para a cultura. Todos tiveram alguma ação que contribuiu, afinal, a cultura faz parte da vida humana. Poderia citar as realizações de João Alves, como o Centro de Criatividade e a criação da Fundação Estadual de Cultura; o Teatro Tobias Barreto, junto com Albano Franco; o Museu da Gente Sergipana, de Marcelo Déda; a Funcaju, o Forrocaju e a Lei de Incentivo à Cultura, de Jackson Barreto; o Clube do Povo, de Heráclito Rollemberg; o Encontro Cultural de Laranjeiras, de José Sobral. Ficaria aqui por muito tempo enumerando obras e ações. Hoje, porém, quero falar do governador músico, apaixonado por música, que toca violão e flauta e foi um grande nome no crescimento do mercado musical sergipano, promovendo a nossa própria música: Antônio Carlos Valadares, além de construir o Complexo Cultural Gonzagão.
Antônio Carlos Valadares foi um dos mais atuantes congressistas que Sergipe já teve, com três mandatos consecutivos no Senado Federal. Valadares, natural de Simão Dias, é filho de Pedro Almeida Valadares e Josefa Matos Valadares. Ele construiu uma carreira brilhante na política sergipana, sendo eleito prefeito de Simão Dias, deputado estadual (presidindo a Assembleia Legislativa), deputado federal, senador da República, vice-governador e governador de Sergipe. Além disso, deixou como herança política seu filho, Valadares Filho.
Conheci pessoalmente Valadares quando ele era Secretário de Educação, mas nos aproximamos quando ele já era governador. Em um show-comício na Praça Dom José Thomaz, no Siqueira Campos, o público demorava a chegar. Eu estava lá com minha banda, esperando o término do comício. Chegávamos cedo para conferir palco, som, espaço e público, pois isso influenciava a estratégia do show. Uma banda tocava para atrair pessoas antes do início do evento, mas, por algum motivo, a praça continuava quase vazia.
Com os discursos de vereadores ocorrendo para um público que não chegava a 30 pessoas, o governador chegou com sua comitiva e percebeu a situação. Ele chamou a coordenação e, ao ser informado sobre o contexto, sugeriu que eu iniciasse o show. O caos era evidente: o palco estava lotado de candidatos, e minha banda, composta por jovens músicos sem experiência de palco, estava extremamente nervosa. Pedi ajuda ao produtor José Américo (Sucupira) para liberar espaço no palco e conectar os instrumentos.
Peguei meu violão e comecei a tocar sozinho. Aos poucos, os instrumentos foram se somando, e, apesar das dificuldades, seguimos com o show. Para minha surpresa, as pessoas começaram a se aproximar, cantando comigo, até que a praça se encheu de vida com mais de cinco mil pessoas. Brinco até hoje que a novela deve ter terminado mais tarde ou os ônibus atrasaram. Prefiro acreditar que o público ouviu minhas músicas e não resistiu (risos).
No dia seguinte, ao ir ao comitê receber o pagamento, fui informado de que o Dr. Sérvulo Sampaio, coordenador da campanha, queria falar comigo. Quando o encontrei, ele me mostrou um bilhete escrito em papel de cigarro: “Sérvulo, em todos os shows e comícios em que eu estiver, quero o show de Neu Fontes.” Assinado: Valadares. Assim, dos quatro shows inicialmente contratados, eu e a Banda Exceção realizamos 40 shows em dois meses de campanha.
Durante esse período, estreitei laços com Valadares, que me apresentou a dois secretários importantes: Léo Filho e a querida amiga de juventude, Susana Azevedo. A ordem do governador era clara: contratar artistas sergipanos para todos os eventos e festas apoiados pelo governo, tanto na capital quanto no interior. Graças a essa diretriz, nomes como Roberto Alves, Rogério, Amorosa, Virgínia Fontes, Banda Água de Cheiro, Adalvenon, Estação da Luz, Cabeça de Frade e Jorge Duccy tiveram espaço para mostrar seus trabalhos em todo o estado.
Eu toquei nos 75 municípios sergipanos, chegando a fazer mais de 90 shows por ano. Esses contratos com o governo nos ajudavam a manter nosso nome vivo no meio musical, abrindo portas para convites de municípios e empresários locais e de estados vizinhos. Além disso, Valadares patrocinou a gravação de vários discos através de Léo Filho e Susana Azevedo, revolucionando o mercado musical sergipano.
Nossas músicas começaram a tocar nas rádios ao mesmo nível que os artistas nacionais, especialmente os baianos. Dividíamos palcos com nomes como Banda Mel, Sarajane, Luiz Caldas, Fagner e Chiclete com Banana, o que nos incentivava a melhorar nossos shows, arranjos, visuais e performances. Foi emocionante ver o público cantando nossas canções com a mesma intensidade das músicas dos artistas nacionais.
Certa vez, após um show, peguei carona com Valadares. Ele costumava esperar nossos shows terminarem e, durante as viagens, tocávamos violão juntos. Ele perguntou por que eu nunca havia solicitado patrocínio para gravar um disco. Respondi que ele já fazia muito ao valorizar nossa música e nossos artistas, e que os shows contratados me permitiam investir em minha carreira. Ele sorriu e disse: “Fico satisfeito que você saiba aproveitar minhas ações.”
Essa foi a essência do governo de Valadares: incentivar, valorizar e promover a música sergipana, garantindo que nossos artistas fossem protagonistas em sua própria terra.
