Olá, gente boa!
A nossa cultura popular, o nosso velho e sempre necessário Folclore, é riquíssimo, abundante e vibrante. Não é à toa que Sergipe abriga o maior Encontro Cultural do País, criado justamente para dar vez, voz e valorização aos nossos grupos, suas histórias, influências e misturas. Estou falando do Encontro Cultural de Laranjeiras, que, infelizmente, a cada ano sofre tentativas de ser esvaziado — transformado por gestões municipais em mero evento de palco, festa de largo ou até micareta. Uma visão rasa e perigosa, que ignora o sentido profundo desse encontro.
Já tivemos mais de 170 grupos atuantes em Sergipe, dos mais variados estilos e territórios: Cavalhadas Ribeirinhas, Pisa-Pólvoras de Estância, Samba de Roda de Simão Dias, Sarandaia de São Cristóvão, Bacamarteiros, Samba de Aboio, Batalhões, Parafusos, Reisados, Guerreiros, Zabumba, Pífanos, Cangaceiros, Samba de Coco, Xaxado, Ilário, Maculelê, Caceteira, Pastoril, Dança Portuguesa, Aurélio Bandolim e os Chorões, Zabumbadores, Lavadeiras, Batucadas, Cheganças, Lambe Sujos, Caboclinhos, São Gonçalo, Samba de Pareia, Taieiras, e claro, os nossos Cacumbis.
Tive a honra de conhecer muitos desses grupos de perto. Como já contei aqui outras vezes, fui ao primeiro Encontro Cultural de Laranjeiras com meu tio, o historiador José Calazans. Foi lá que me envolvi, de corpo e alma, com os grupos da cultura popular, até chegar a ser Secretário de Cultura de Laranjeiras, essa cidade mágica onde o tempo dança com o sagrado e com o popular. Conheci cada Mestre, cada brincante, cada história. Quando deixei a Secretaria, tivemos a alegria de manter mais de 22 grupos em plena atividade, em um trabalho feito com a prefeita Ione Sobral que até hoje considero o maior e mais respeitoso que a cultura de Laranjeiras já recebeu.
Entre esses grupos, está o grande e tradicional Cacumbi de Laranjeiras, nascido na confraria de São Benedito, formado exclusivamente por homens — “verdadeiros artesãos da simétrica dos gestos”, como bem escreveu Dantas (2013). Liderado por Mestre, Contra-Mestre e dançarinos que cantam, dançam e tocam seus instrumentos com alma, os brincantes têm idades que variam dos 17 aos 86 anos. Todos são filhos e moradores de Laranjeiras.
Hoje, o grupo é conhecido como Cacumbi Mestre Deca, nome que honra sua maior referência: o Mestre Deca, nascido em 13 de julho de 1936, na Fazenda Boa Luz. Filho de Cândido Ramos dos Santos e Maria São Pedro dos Santos, começou a brincar o Cacumbi ainda menino. Em 1985, contou à professora Beatriz Gois:
“Eu brincava com os falcões, com os chefes. Meu mestre e amigo Zezinho morreu, fiquei para não deixar a tradição morrer. O mestre antigo era o Zé de Pita. Mas eles não ensinavam a ninguém. O Mestre é minha cabeça mesmo.”
Em 2009, produzi com Milton Goulart um documentário sobre o XXXV Encontro Cultural de Laranjeiras, a pedido da então prefeita Ione Sobral. Reencontrei velhos amigos e mestres. Mas senti a ausência de Mestre Deca na liderança do seu grupo. Vi o Cacumbi quase desmanchado, sem norte, e encontrei o Mestre no domingo, durante a coroação das Taieiras, abatido, apoiado pelo filho Antônio Carlos.
Pouco depois, assumi a missão de assessorar as áreas de cultura, turismo e comunicação do município. Fui direto atrás de Antônio Carlos para saber mais. Ele me contou que o pai estava acamado, com dores fortes e sem esperança de seguir. Com apoio da prefeita e da dedicação incansável de Antônio Carlos, conseguimos levar o Mestre ao hospital — onde foi constatada uma fratura na bacia, ocorrida três anos antes! Um descaso vergonhoso. Nenhuma gestão anterior cuidou, nenhuma autoridade perguntou, nenhuma entidade civil percebeu. Um silêncio que dói.
A partir dali, tudo começou a mudar. Antônio Carlos aprendeu a cuidar do grupo que o pai amava. Mestre Deca voltou a sorrir, voltou a viver. Ainda em 2009, participou da inauguração do Campus da UFS em Laranjeiras ao lado do presidente Lula e recebeu, das mãos do governador Marcelo Déda, a Medalha Tobias Barreto.
Inspirados por uma fala antiga do Mestre — “Por que ninguém olha pro lado da gente? Só lembram da gente no tempo da brincadeira… Eu e todos os chefes merecíamos ter um cachêzinho mensal ou semanal” —, pela luta de Zé Rolinha e pelo o amor da prefeita pela cultura, criamos a Lei dos Mestres da Cultura Popular, a primeira Lei municipal no Brasil de valorização do Folclore, garantindo aos mestres dois salários mínimos mensais vitalícios. Isso é respeito. Isso é justiça cultural.
O Cacumbi se reergueu. Criou associação. Tornou-se exemplo de gestão. Não quis mais depender apenas de verba pública. Seguiu em frente com dignidade.
Outra fala marcante do Mestre, lembrada por Antônio Carlos, escancara a realidade:
“Lá fora pagam. Aqui, em 33 anos, só recebi dinheiro duas vezes. Teve uma vez, chamaram a gente pra uma filmagem na porta da matriz, ensaiei tudo direitinho. Sabe o que vieram me dar? Duas garrafas de Pitu. Eu me conformei. Mas guardei isso no peito.”
Esse tipo de humilhação não pode mais ser naturalizada. Conformismo não cabe na cultura popular. E Antônio Carlos sabia disso. Mesmo pressionado por quem teme um grupo independente, ele seguiu firme.
Em 2013, o grupo criou o Festival Mestre Deca – Encontro Nacional dos Cacumbis, com o dia 13 de julho oficialmente instituído como Dia Municipal da Dança do Cacumbi. Mais adiante, tentaram diminuir o nome e o espírito do evento, rebatizando-o de “Encontro dos Cacumbis e Convidados”. Coisa de ciúmes e disputa de vaidade. Antônio Carlos cedeu, mas não se rendeu. O trabalho seguiu forte.
De um grupo com cinco idosos, hoje temos uma formação completa, com jovens e veteranos dançando juntos. O futuro está garantido. O presente está vivo.
E neste dia 13 de Junho de 2025, no 12º Encontro dos Cacumbis em Laranjeiras, o grupo dá mais um passo gigantesco rumo à preservação: com apoio do artista Elias Santos e uma emenda da deputada Linda Brasil, será inaugurada uma estátua em tamanho natural de Mestre Deca, no Largo das Esculturas — projeto aprovado ainda na gestão de Ione Sobral.
Essa homenagem eterniza não apenas a figura do Mestre, mas a força da cultura popular que alimenta gerações com o que temos de mais verdadeiro. Antônio Carlos, esse amigo pescador de saberes, com sua vara e anzol, segue lançando redes de tradição, colhendo memórias, ensinando resistência.
Viva Mestre Deca! Viva o Cacumbi! Viva o Folclore de Laranjeiras e de todo o povo sergipano! Viva a cultura que resiste!
