Olá, gente boa,
Meu caminho na gestão cultural começou muito antes de eu assumir meu primeiro cargo público, como diretor técnico de Cultura da Fundesc. Afinal, eu já administrava minha própria carreira de cantor e compositor, coordenava projetos, produzia espetáculos e participava de iniciativas como o Circo Amoras e Amores, uma das grandes ideias de Jorge Lins.
Nunca imaginei que, algum dia, estaria à frente da gestão pública. Como alguns sabem, não sou político nem filho de político. Não tenho votos, a não ser o meu, e nunca fui votado. Sempre fui convidado pela força do meu trabalho e pela experiência construída na prática.
Quando a professora Eugênia Teixeira me convidou para assumir a Diretoria Técnica da Fundesc, eu tinha acabado de produzir e coordenar o Novo Canto — Festival Estudantil da Canção, criado pela equipe anterior, formada por Jorge Lins, Antônio Amaral, Sucupira e Acássia Barreto. Conseguimos realizar aquela edição sem nenhum custo para a Fundesc, graças à experiência adquirida no setor privado. Depois, criamos o Gonzagão Forró e Arte e o Festival Nosso Canto de Música Junina. Acredito que foi por esse trabalho que se lembraram do meu nome para ocupar a cadeira de diretor.
Na gestão pública, fui aprendendo, na labuta diária, a enfrentar o trabalho administrativo e burocrático — às vezes chato, mas necessário para que as coisas aconteçam. Também aprendi a encontrar caminhos para não ficar batendo de frente com a parede da arrogância do poder e da má vontade com o fazer artístico e cultural.
Não podemos fazer tudo. Mas tudo o que pudermos fazer, faremos.
Foi esse pensamento que me trouxe até aqui.
Entretanto, um dos meus maiores aprendizados foi saber reconhecer quem é quem. Nunca cheguei a lugar algum levando pessoas ou equipes prontas, nem para os teatros, nem para os setores administrativos e muito menos para os cargos de maior responsabilidade. Sempre reservei um tempo para conhecer e compreender a equipe que já estava no lugar.
Foi assim na Fundesc, nos teatros Atheneu, Tobias Barreto e Gonzagão, na Alese e, principalmente, na Secretaria Municipal de Cultura de Laranjeiras, na Secretaria de Estado da Cultura e na Funcaju, onde exerci as funções de secretário e presidente.
Foi nessas chegadas que descobri verdadeiras joias, muitas vezes escondidas nas portarias das escolas de arte, nos setores administrativos ou trabalhando diretamente nas ações culturais. Entre essas pessoas estão Hildênia Oliveira, hoje diretora do Museu Théo Brandão, em Maceió; Silvana Sodré, Nildete Santos, Silene Lazarito, Lucas Passos, Mercinha Barreto, Cristiane, as Cristinas, Noel, Jacy Rosa Cruz, Jane Junqueira , Icaro, Ewerton Santos, Stella Maris, Carlos Alberto, Egla Aquino, Silvinha, e tantas outras pessoas dedicadas, criativas, ávidas por aprender e dispostas a construir.
Quando fui convidado por Elber Batalha para retornar à Secretaria de Estado da Cultura, no cargo de secretário adjunto, minha principal função era formar uma equipe técnica capaz de apoiar o trabalho e transformar em realidade as ideias do secretário.
Comecei, então, a conhecer melhor a equipe. Encontrei um grupo enxuto e competente. Entre aquelas pessoas estavam duas que eu já conhecia: Alisson Couto, de outros trabalhos, e uma menina chamada Thiara Câmara, que havia feito comigo a pós-graduação em Gestão Cultural pela Universidade Federal da Bahia.
Essa formação foi fruto de uma articulação que fizemos quando eu era secretário municipal de Cultura de Laranjeiras e vice-presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Municipais de Cultura. Ao lado de Eloísa Galdino, conseguimos vagas para capacitar gestores de Laranjeiras, Aracaju e do Governo do Estado. Tiara foi a escolhida para representar o Estado e concluiu o curso com maestria. Ali, eu já havia me tornado admirador do seu desempenho.
Durante as conversas com Elber, enquanto ajustávamos os cargos e a composição da equipe, decidimos trazer Lindolfo Amaral de volta, contar com o apoio de Mário Britto nas artes visuais e manter toda a equipe da gestão anterior — principalmente Alisson e aquela menina de olhar atento.
Elber me disse:
— Quem escolhe é você.
E foi um dos maiores acertos que fizemos.
Thiara tornou-se meu braço direito, meu braço esquerdo e, muitas vezes, o equilíbrio de que eu precisava para tomar decisões.
Thiara Câmara — ou simplesmente Thiarinha, como sempre a tratei — é especialista em Gestão Cultural pela Universidade Federal da Bahia, bacharela em Secretariado Executivo pela Universidade Federal de Sergipe e graduanda em Comunicação Social, com habilitação em Audiovisual, também pela UFS.
Foi coordenadora do projeto de elaboração do Plano Estadual de Cultura de Sergipe, desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina em parceria com o Ministério da Cultura. Possui uma ampla experiência profissional na gestão pública cultural. Na Secult, coordenou eventos, relações institucionais, projetos e ações de audiovisual. Na Funcaju, foi chefe de Planejamento e também atuou como conselheira de Cultura.
Hoje, trabalha na direção e na gestão de projetos culturais do Instituto Banese e se consolidou como uma das maiores e melhores gestoras culturais do nosso estado.
Thiara sempre me apresentava alguma novidade: uma cantora, uma atriz, um espetáculo, uma comunidade, uma servidora talentosa ou uma boa ideia. Eu observava e fazia meus comentários. Algumas vezes, principalmente quando o assunto era música, dizia:
— Vamos esperar um pouco mais. Precisa amadurecer, ganhar técnica, afinar melhor. Tem futuro e apresenta ótimas ideias, mas ainda precisa se firmar.
Até que, certo dia, ela me olhou com aquele seu jeito questionador e disse:
— Neu, na música você quase nunca aprova as minhas indicações.
Em seguida, perguntou se eu gostava de determinado artista. Dei uma risada, respondi que sim e devolvi a pergunta:
— Mas quando foi que eu indiquei ou contratei esse artista?
Ela me abraçou e respondeu:
— Entendi, chefinho!
E assim seguimos, ensinando e aprendendo um com o outro todos os dias.
Para mim, Thiarinha representa não apenas a criatividade, a competência e a modernidade de uma profissional da gestão cultural. Ela é uma alma querida, uma mulher forte, determinada e apaixonante, cheia de talento, sensibilidade e visão de futuro.
Uma baiana sergipana que honra sua história e sua linhagem, com um olhar sempre cheio de boa vontade, atenção e acolhimento.
Estudiosa e dedicada, Thiara vem conquistando seu lugar sem desejar o lugar de ninguém. Constrói a própria estrada sem fechar os caminhos dos outros. Ensina, aprende, compartilha e coloca amor em tudo o que faz.
Thiara Câmara é motivo de orgulho para sua mãe, sua família, seus amigos e todos aqueles que acompanham sua caminhada.
E é, principalmente para mim, um grande orgulho.
Thiarinha, agradeço de coração por sua existência e por tudo o que você representa em minha vida. Obrigado pela parceria, pelos aprendizados, pelo cuidado, pela lealdade e por todos os caminhos que construímos juntos.
Você não foi apenas uma pessoa que encontrei na gestão cultural.
Foi um dos mais belos presentes que a cultura me deu.
