Olá, gente boa!
Hoje, estou entusiasmado para compartilhar um tema que me enche de orgulho e que me deu a oportunidade de contribuir para o rico patrimônio cultural de Sergipe. Em 1995, Albano Franco assumiu o governo do Estado. Ele era uma figura política tradicional em Sergipe, com seu pai, Augusto Franco, tendo sido governador e deputado federal, seu irmão, Antônio Carlos Franco, atuando como prefeito de Laranjeiras e deputado federal, e seu outro irmão, Walter Franco, ocupando o cargo de deputado estadual. Albano já tinha um mandato como senador quando assumiu o governo e, logo em seguida, nomeou Luiz Antonio Barreto para liderar a Secretaria de Estado da Cultura, incumbindo-o também da Educação. Fui convidado a trabalhar diretamente com Luiz Antonio, e ele me deu uma missão clara: “Quero deixar um legado cultural em forma de CD, abrangendo o maior número possível de grupos da cultura popular de nosso estado.” E assim começou nossa jornada.
No primeiro ano, produzimos os CDs da Ópera do Milho, um espetáculo concebido por Luiz Antonio, no qual eu e Rubens Lisboa colaboramos com letras e músicas. Em seguida, gravamos e lançamos o CD do Reisado de Lalinha de Laranjeiras, que conta com 13 faixas desse grupo autêntico, liderado por Lalinha e seu cavaquinho, uma figura icônica na cultura de Laranjeiras e de Sergipe. A história por trás desse registro é fascinante: Luís Antonio me solicitou que gravássemos quatro músicas de cada um dos seguintes grupos: Reisado de Lalinha, Taieira de Dona Lourdes, Reisado de Sabau e os índios Xocos. Este foi apenas o início de nossa missão, que logo se expandiu para incluir outros setores culturais.
Ao levar Lalinha e seu grupo para o estúdio, enfrentamos o desafio de capturar a essência do grupo com qualidade, testamos algumas formas, enfim conseguimos. Durante a gravação, enquanto Lalinha improvisava uma estrofe, ela mencionou meu nome de forma engraçada, mudando minha vogal inicial, ela cantava: Ô Erineu…, Ela ria demais quando eu perguntei se era para mim? Ela falou: – Claro e tem mais algum Erineu por aqui, gerando risos no estúdio. Fiquei surpreso e emocionado, pois conhecia Lalinha desde os meus 15 anos, quando a vi pela primeira vez no Encontro Cultural de Laranjeiras com meu tio José Calazans, que a admirava profundamente.
Eu no outro lado do aquário do estúdio, fiquei observando ela, já tão abatida pela vida, e institivamente perguntei a Lalinha se ela poderia gravar mais músicas do Reisado, não queria perder aquela oportunidade, ao que ela respondeu com um sorriso radiante: “É para isso que estou aqui, meu filho!” E assim gravamos 13 músicas do seu Reisado, testemunhando sua energia e vitalidade aos mais de 80 anos de idade. Alguns meses depois Lalinha faleceu.
Assim seguimos, gravando grupo após grupo. Logo depois, chegou Dona Lurdes com sua Taieira de Laranjeiras, um grupo associado ao Nagô, composto por meninas e um menino que toca o tambor. Com seu ganzá na mão e uma voz forte e confiante, Dona Lourdes, acompanhada pelo toque do tambor, entoava seus versos em canções belas, sempre reverenciando seus santos e guias. Registramos mais 12 canções desse grupo, cada uma carregando consigo uma história que irei compartilhar aos poucos.
Em seguida, nos dedicamos ao Reisado de Sabau de Pirambu do Povoado Marimbondo, aos 14 cantos da Tribo Xokó, aos “Vinte Poemas” de Tobias Barreto e à “Antologia Poética” de Santos Souza. Também gravamos “A Voz, O Poema”, com 35 poetas sergipanos, e “Violeiros & Cantadores”, abrangendo todas as formas de cantoria, desde as sextilhas até o Galope em decassílabo. Não podemos esquecer da cantadeira de Romançe, Maria José, ou Tia Beta, como é conhecida, que contribuiu para a riqueza cultural com sua voz. Lançamos ainda “Forró e Arte” em dois volumes, com diversos forrozeiros sergipanos e as quadrilhas juninas. Outros destaques incluem “Matamba – Raízes das Minhas Águas” com Mãe Marizete, e “Axé Ile Obá Araça Odé Bamiré” com Zé do Obacoussou, João Mello, Banda Los Guaranis, e “Sergipe é o País do Forró”, apresentando 24 forrozeiros do estado. Por fim, celebramos “Nossa Gente” com os grupos folclóricos de São Cristóvão. Cada um desses registros contribuiu para preservar e celebrar a riqueza cultural de Sergipe, oferecendo uma variedade de expressões artísticas que refletem a identidade e a tradição do nosso povo.
Esse período foi incrivelmente produtivo para nossa cultura, deixando um legado sonoro que preserva nossas tradições culturais e suas diversas vertentes. Foi um período de aprendizado mútuo, no qual tanto ensinei quanto aprendi, uma troca valiosa que enriqueceu minha vida e me fez sentir que contribuí significativamente para nossa cultura e arte. Sou grato pela oportunidade dada pelo querido amigo que nos deixou saudades, Luiz Antônio Barreto. A história continua…
