Olá, gente boa,

Como já disse outras vezes por aqui, tenho poucos amigos e muitos conhecidos. Pessoas de quem gosto — muitas delas, inclusive, sem nem gostarem de mim — e isso nunca teve grande importância. O que importa é ter amigos de verdade. Daqueles que, quando a gente precisa de um ombro ou de uma palavra, estão ali. Sempre.

Conheci esse sujeito de quem vou falar agora por meio de dois grandes amigos: Antônio Rolemberg e Helvio Dórea. O Helvio, por sua vez, conheci através de Raimundinho Oliveira — outro irmão que a vida me deu. Todos mais novos do que eu, é verdade, mas com uma idade mental parecida, interesses comuns e uma afinidade que o tempo só confirmou.

Naquela época, Manuel Vasconcelos era o diretor financeiro da Agência Conceito. E, como bom diretor financeiro, era pão-duro, ranzinza e fazia de tudo para não gastar um centavo além do estritamente necessário. Para se ter uma ideia: Helvinho adorava biscoito Negresco. Na hora da compra, Manuel só trazia Escureto — porque era mais barato — e ainda justificava com a maior naturalidade:

— Os dois são recheados.

Mas Manuel tinha outra face: a boemia e o samba. Gostava de roda, gostava de cantar — atrapalhava mais do que ajudava, diga-se. Um grande boêmio, Clínio, vivia provocando:

— Mané, você é ruim demais! É capaz de não andar direito. Não tem ritmo, imagine afinar ou tocar qualquer instrumento. Vá comprar o biscoito de Helvinho!

Todo mundo ria. Manuel também — e devolvia a provocação com uma piada ou uma pilhéria daquelas bem atravessadas. Ao contrário de Manuel, Clínio engolia seco e ficava chateado.

A vida, que adora aprontar, tratou de mudar tudo. Dos três sócios da agência, só restou Manuel. Helvio faleceu num acidente, deixando uma tristeza imensa em todos nós. Antônio seguiu outros caminhos. E o economista e contador se viu sozinho à frente de uma agência de comunicação criativa, vendendo ideias, imagens, campanhas comerciais, institucionais e políticas.

Manuel teve que se reinventar. E se reinventou. Transformou-se no dono de uma grande agência, com clientes importantes, respeito no mercado e reconhecimento na cidade e no estado. Triplicou os negócios, discutia criação, enfrentava cliente, vendia conceito — e mudou de vida.

Mas, com novos ares, veio uma velha vontade: ser artista. Manuel sempre achou que tinha ritmo, que cantava bem. Achava que a implicância era pura birra dos amigos — principalmente de Clínio.

Numa viagem para a Copa do Mundo, comprou um violão logo na chegada. E levou o instrumento para todos os cantos: Rússia, Croácia, seja onde fosse. Sempre havia uma foto de Manuel com seu violão novo, completamente desafinado. Nota nenhuma saía, mas a pose… a pose era de cantor de fado português.

Na volta, me procurou pedindo aula de violão. Recusei, claro — não sou professor, nem tenho didática. Mas indiquei quem podia enfrentar aquela árdua missão: Alberto Silveira. Alguém com talento, paciência e sensibilidade suficientes para transformar, como dizia Clínio, “um ogro” em alguém capaz de tirar uma nota afinada.

E assim começou a saga.

Alberto não só ensinou violão — ensinou confiança. Porque o desafio maior não era técnico, era convencer Manuel de que ele era capaz. Manuel vive tirando onda de tudo e de todos — quase sempre como fuga. Virou um homem de sucesso contra todos os prognósticos, mas ainda sente que precisa provar algo o tempo inteiro. Tem humor afiado, cara de zangado e uma necessidade permanente de aprontar com os amigos mais próximos.

Alberto insistia. Manuel reclamava dos dedos, odiava ser cobrado, mas adorava a possibilidade de, um dia, mexer com quem nunca acreditou nele.

— Só me ensine umas músicas pra eu tirar onda com Clínio — dizia.

Mas Alberto não parou aí. E o danado do Manuel começou a tocar. Não uma, nem duas músicas.

Daí veio a banda. Criada, claro, para provocar. Chamou-se Los Fulgencios — uma referência a Fulgencio Batista, só para infernizar Luiz, um grande amigo e esquerdista de carteirinha, dono do bar onde a turma se encontrava. Depois descobriram que já existia uma banda argentina com o mesmo nome, e ficou só Banda Fulgencios.

Manuel descreve assim:

— Nosso repertório contempla diversos ritmos. O som do Fulgencios promete aquecer qualquer corazón latino.

A banda começou com Alberto Silveira, Bruno Pineyro, Fabian Pineyro, Manuel Vasconcelos, Marcus Resende e Odilio Saminez.

Hoje, com três anos de estrada, o tripé da banda é sólido: Alberto Silveira, músico, compositor e arranjador; Fabian Pineyro, redator, publicitário e cantor; e Manuel Vasconcelos — produtor, instrumentista, amigo e tirador de onda profissional.

O som mistura influências caribenhas com música nordestina, arranjos dançantes, uma banda afiada de cordas e ritmo. Forró, salsa, cúmbia e pop se encontram numa mistura que adoça a alma e movimenta o corpo.

E, de quebra, Manuel cala e tira sarro de todos os desafetos-amigos — o que ele faz com absoluta maestria.

Vale a pena assistir a pelo menos um show da Banda Fulgencios. Conhecer os meninos. E, principalmente, conhecer melhor Manuel Vasconcelos — prova viva de que amizade, persistência e teimosia, quando andam juntas, também fazem música. Arte de não desistir de si mesmo.