Olá, gente boa,
Assisti recentemente ao documentário “FOLHA DA PRAIA – Um Pasquim Sob o Sol de Aracaju”, dirigido por Alex Nascimento. Com 73 minutos de duração, o filme recupera a trajetória do jornal alternativo fundado por Amaral Cavalcante nos anos 1980.
O projeto nasceu para ser um curta-metragem, contemplado pela Lei Paulo Gustavo, mas foi crescendo à medida que a pesquisa avançava. Meses de investigação, arquivos históricos e cerca de 15 horas de entrevistas acabaram transformando a ideia inicial em um longa documental.
Mas o filme não fala apenas de um jornal. Ele abre uma janela para uma Aracaju que ainda vive na memória de muita gente.
E foi por essa janela que viajei no tempo.
Voltei aos anos 1980, à efervescência cultural da cidade, à redemocratização do país, aos artistas, jornalistas, músicos, poetas, personagens da noite, às novas ideias e àquela juventude que parecia acreditar que podia reinventar o mundo.
E, claro, voltei à Praia de Atalaia. A praia dos artistas, os shows, as músicas, o surfe, os encontros e desencontros, os bares e as meninas e meninos bronzeados pelo sol quente da nossa capital.
No meio daquela turma, havia uma figura que volta e meia também pintava nas páginas da Folha da Praia.
Uma morena linda.
Uma verdadeira deusa daqueles verões aracajuanos. Musa inspiradora de surfistas, salva-vidas, compositores, artistas e, certamente, de muitos apaixonados anônimos.
Tanit Bezerra.
Tanit parecia ter sido escolhida pelo próprio verão.
Com seu corpo escultural, seu sorriso enorme e aquela maneira de estar sempre de bem com a vida, circulava com a mesma naturalidade entre a turma das artes, a galera do surfe e os ambientes da sociedade aracajuana. Muitas vezes estava ao lado da irmã, Thais Bezerra, que começava sua trajetória como jornalista e colunista social.
E nós, pobres mortais? Restava admirar. E, com alguma sorte, receber um sorriso quando ela passasse.
Nossas namoradas, evidentemente, permaneciam atentas. Algumas, compreensivelmente, ciumentas. Mas havia uma constatação que encerrava qualquer possibilidade de aventura.
Como dizia aquele velho ditado popular:
“Era muita areia para o nosso caminhãozinho.”
O tempo passou.
E ainda bem que passou, porque me permitiu reencontrar Tanit e descobrir que por trás daquela musa dos verões havia muito mais do que beleza.
Havia — e há — uma mulher inquieta, talentosa, trabalhadora e profundamente ligada à cultura, à comunicação, à fotografia e ao turismo de Sergipe.
A musa construiu sua própria história.
Tanit tornou-se atriz, fotógrafa, radialista, jornalista, produtora cultural e gestora pública de turismo. No cinema, participou de “Lampião – A Última Semana”, de Ilma Fontes. Na gestão pública, foi diretora de Turismo da Funcaju e ajudou a colocar Aracaju em feiras, encontros e grandes eventos estratégicos voltados à promoção e ao desenvolvimento turístico da capital.
Mas existe uma paixão que atravessou boa parte dessa caminhada: a fotografia. Incentivada pelo pai, Álvaro Bezerra, Tanit ganhou sua primeira câmera em 1987. Foi amor ao primeiro clique.
Em 1991, participou do Salão dos Novos, apresentando três fotografias em preto e branco. Dali em diante, nunca mais deixou de fotografar.
Vieram exposições coletivas e individuais, entre elas “Aracaju de Outrora”, “Terra de Mulheres”, “Luz” e “Fluxo de Memórias”. Com sensibilidade, experiência e um olhar muito próprio, Tanit foi construindo seu lugar na fotografia sergipana. E talvez aí esteja uma das coisas mais bonitas de sua trajetória.
Aquela mulher que um dia foi fotografada, admirada e transformada em imagem por tantos olhares passou a ser ela própria a dona do olhar. De musa diante das lentes, tornou-se autora das imagens.
A vida tem dessas poesias.
Com o passar dos anos, Tanit também se tornou uma amiga querida. Compartilhamos muitos momentos ligados à cultura e ao turismo. Trabalhamos em festivais e produções. Guardo especialmente as lembranças da época da Emsetur, quando ela, ao lado de outras duas guerreiras, Kim Moura e Léa Duarte, transformava nossos estandes nas grandes feiras nacionais em verdadeiras festas sergipanas.
Não eram simplesmente espaços de divulgação turística. Ali havia identidade. Havia alegria, acolhimento, música, cultura e aquele jeito sergipano de receber quem chegava querendo conhecer esta nossa terra de cajueiros e papagaios.
Na cultura, sua contribuição também se espalhou por diferentes linguagens. Tanit assina trabalhos de produção e fotocenário em espetáculos e projetos da multiartista e cantora Tatiana Cobbett, além de colaborar em projetos audiovisuais e artísticos da cantora e compositora Táia.
Seu olhar fotográfico também se encontrou com a obra de Joubert Moraes. Tanit realizou trabalhos visuais e exposições fotocenográficas em homenagem ao artista plástico, músico e poeta, entre elas ações ligadas ao “Sarau dos Afetos – Sergipanidade”, além de importantes registros de sua vida, de sua obra e de exposições como “Joubert 70”.
Nesses trabalhos, contou também com a participação de Tatiana Cobbett e com a colaboração de sua filha, Julia Bezerra, nas edições.
E aqui volto ao começo desta conversa.
Talvez assistir à história da Folha da Praia tenha me feito perceber, mais uma vez, como precisamos cuidar das nossas memórias.
Um jornal alternativo pode contar a história de uma cidade.
Uma fotografia pode guardar uma época inteira. Um filme pode devolver pessoas, lugares, sentimentos e sonhos que imaginávamos esquecidos.
E uma mulher que um dia foi símbolo da beleza de uma geração pode, com o tempo, revelar que sua maior beleza estava também na capacidade de criar, trabalhar, produzir, registrar e preservar a memória de sua terra.
Tanit continua com aquele sorriso.
Mas hoje, quando olho para ela, não vejo apenas a musa daqueles verões. Vejo a fotógrafa. A atriz. A produtora. A comunicadora. A gestora e principalmente a amiga.
A mulher que atravessou diferentes momentos da nossa cultura sem perder a alegria, a curiosidade e a capacidade de se reinventar.
Tanit Bezerra é como o sol: ilumina caminhos e embeleza a paisagem por onde passa. Fez do sorriso uma forma de acolher. Do olhar, uma maneira de preservar. Do trabalho, uma forma de construir.
E das muitas batalhas da vida, encontrou força para continuar vivendo, criando e espalhando luz.
A musa daqueles verões cresceu.
Virou artista. Virou memória. Virou parte da história cultural de Sergipe.
Viva Tanit.
Viva sua arte.
Viva sua história.
Viva a vida de Tanit!
