Olá, gente boa,

Sempre tive um posicionamento aguerrido em defesa da cultura e das artes do meu Sergipe. Desde muito cedo, cobro respeito e investimentos para todos os setores da nossa cultura e tradição. Seja na música, nas artes visuais, no teatro ou na cultura popular, sempre fui um defensor intransigente.

Essa postura, claro, incomoda. Por isso, alguns “defensores” — e muitas vezes, usurpadores — da cultura e da arte alheia, tentam me ridicularizar com perguntas capciosas. Comparações descabidas entre os cachês de artistas midiáticos e os dos nossos artistas locais são frequentes. Outros, com ironia, me perguntam se gosto de determinados segmentos da cultura de massa, como se estivessem desafiando minhas convicções.

Essa semana, por exemplo, alguém me perguntou se eu gostava de arrocha — ritmo que nasceu da fusão entre o bolero e a música romântica brega, e que tem ganhado enorme espaço em Sergipe, com artistas surgindo e fazendo sucesso rapidamente. Logo em seguida, veio a pergunta: “Você acha que o artista Natanzinho Lima tem talento?”. Sem esperar minha resposta, o próprio já disparou: “Eu acho que não. Hoje em dia, pra fazer sucesso, não precisa ter talento, basta ter um bom empresário.”

Respirei fundo e respondi: disse que, pessoalmente, o arrocha não faz parte da minha playlist afetiva, mas que compreendo o gênero infinitamente mais do que ele, que apenas tentava “lacrar” com sua frase de efeito. O arrocha é um produto de mercado poderoso, que gera emprego, renda e movimenta a economia. E mais: se Sergipe não agir rápido, vai perder a paternidade desse gênero. Assim como a Bahia consolidou o axé, Goiás o sertanejo, Pernambuco o frevo e o Rio de Janeiro o samba, Sergipe precisa bradar aos quatro cantos: O Arrocha é nosso! E temos artistas de sobra para sustentar essa afirmação: Nadson Ferinha, Heitor Costa, Unha Pintada, Devinho Novaes, Rafinha O Big Love, Iguinho & Lulinha, Kaelzinho Ferraz, Adalgisa, entre outros.

Sou, sim, a favor de transformar o arrocha em um produto cultural genuinamente sergipano — capaz de refletir a vontade popular e transformar Sergipe em referência nacional. Claro, estamos falando de cultura de massa, de mercado, de produto midiático. E, como sempre acontece, a partir daí surgirão novos cantores, músicos, compositores, produtores e empresários. Foi assim também com o forró eletrônico: muitos de nós contestávamos, mas não há como negar que ele gerou um aumento expressivo no número de sanfoneiros, músicos e cantores. Mas que não pensem apenas na lógica do lucro. Que pensem também na arte, no ser artista, na preservação da cultura e da tradição como valor simbólico e humano. Afinal, somos também o País do Forró — e que isso ecoe em cada canto.

Agora, sobre “talento”, a questão é mais complexa. Talento é a capacidade natural ou desenvolvida de realizar algo com excelência. Um artista precisa de criatividade, expressividade, mas também de habilidades de comunicação, marketing e autopromoção. O mercado valoriza tanto a autenticidade quanto o domínio técnico.

Sobre Natanzinho Lima, afirmo sem hesitar: ele é talentoso. Carismático, comunicativo, autêntico, conhece e valoriza sua própria história. Seu chapéu, seu estilo matuto — como diria minha neta, “viralizou” — virou marca registrada. Seus empresários também são talentosos: souberam posicioná-lo com inteligência, combinando razão e intuição para explorar sua personalidade e sua vibe. No sucesso, há sempre uma mistura de talento, trabalho, estratégia e oportunidade. É estar no lugar certo, na hora certa, com a energia certa.

Mas… e os outros talentos que resistem em tempos de arte superficial? Vivemos um período em que as pessoas não querem mais pensar. O imediatismo das plataformas de streaming, o Instagram, o TikTok e a lógica do fast content produzem sucessos relâmpagos, digeríveis como fast food. O público canta e consome refrões como: “Ô Rita, volta desgramada! Volta, Rita, que eu perdoo a facada.” Ou ainda: “Solta a carta, caralho, tigrinho filha da pta; Pra eu pegar o meu dinheiro e comer umas quatro ptas.”

E, para enfrentar isso, vou de Petrúcio Amorim e Ismar Barreto, com versos como: “E a Lua malandrinha, pela brechinha da telha, fotografando o meu cenário de amor.” Ou ainda: “Meu travesseiro tem teu cheiro que eu guardei, pra quando a saudade de você chegar, eu adormecer.”

Mesmo assim, há quem resista. Artistas sergipanos que continuam produzindo com profundidade, com trabalho autoral, com identidade. Que lutam para chegar às novas gerações ou, pelo menos, às gerações que aprenderam a valorizar mais o que vem de fora do que o que nasce aqui.

Cito, por exemplo: Pedro Lua, cantor, compositor e músico atento, estudioso, criativo e inovador. João Ventura, artista completo, preocupado não só com o palco, mas com a formação do público e de novos músicos. Saulinho Ferreira, Ricardo Vieira, Alberto Silveira — músicos, compositores, produtores, professores, mestres e doutores em suas escolhas. Patrícia Polayne, The Baggios, Reação, Lucas Campelo, entre tantos outros talentos da terra.

E, claro, destaco aquele que considero hoje o artista sergipano de maior projeção: Mestrinho. Reconhecido pela crítica, pelo público e por seus pares, premiado no Prêmio da Música Brasileira e indicado ao Grammy Awards. Assim como Natanzinho, Mestrinho também é filho de Itabaiana — terra da cebola e do primeiro milagre de Irmã Dulce. É dele o verso que diz: “Eu e você somos um só; Sorrindo, chorando, cantando no amanhecer; Eu e você somos um só; Dormindo, abraçados, jogados num mar de querer; Eu e você somos um só; Fazendo acontecer.”

Sem talento, é difícil alcançar um nível de excelência duradouro. A autenticidade é fundamental: obras genuínas têm valor, resistem ao tempo, encantam pelo que são. Mas o sucesso nas artes é um processo multifatorial: requer talento, sim, mas também dedicação, estudo, estratégia, visão de mercado, responsabilidade, networking, carisma, investimento — e uma boa dose de sorte.

Já me perguntaram se eu fiz sucesso. Respondi sem hesitar: claro que sim! Construí minha vida com escolhas conscientes, como profissional da música, da cultura e das artes. Aos 65 anos, sou reconhecido. E mais importante: sou respeitado.

Em resumo, o sucesso está na interseção de vários fatores: talento, identidade, perseverança, estudo constante, estratégia, equilíbrio emocional e sensibilidade para entender o tempo e o contexto.

Vivemos num país capitalista, onde a cultura de massa dita tendências e comportamentos. Como enfrentá-la? Como usá-la a nosso favor? A relação entre talento artístico e cultura de massa é complexa, dinâmica e desafiadora. O mais importante é garantir a liberdade de criação dos artistas e o acesso do público à diversidade estética — incluindo as expressões que rompem com o padrão dominante e buscam a autenticidade.

O sucesso, por fim, caminha sobre uma linha tênue entre a soberba e o real. Que os artistas tenham discernimento, saibam girar as chaves nos momentos certos — e que o talento continue sendo o motor de suas escolhas e caminhos.