Talento X Caráter

Olá gente boa!

Durante os meus mais de 40 anos convivendo com artistas, aprendi a separar a arte do artista. Caráter, ética, educação, egoísmo, bondade – esses aspectos não têm nada em comum com o talento, mais se estiverem juntos, ótimo.

Para mim, a arte transcende o artista. Mesmo figuras como Leonardo, que foram acusadas de comportamento inaceitável e enfrentaram processos judiciais arquivados pela igreja, ou Caravaggio, que cometeu atos violentos, incluindo assassinato, e Picasso, conhecido por seus relacionamentos tumultuados que causaram sofrimento a suas parceiras, incluindo casos de suicídio – esses indivíduos ainda são considerados gênios, e suas obras são apreciadas.

No entanto, reconhecendo que esse assunto é complexo e problemático, prefiro focar em pessoas boas, na verdade, pessoas muito boas. Assim, construí minha vida apostando no talento, muitas vezes me apaixonando por essa capacidade artística. Isso me aproxima da arte e me afasta do artista. Acredito que essa abordagem me tornou um bom gestor, pois entendo que o papel primordial de um gestor público da cultura é criar oportunidades para que a arte e a cultura se desenvolvam, sem personalizar, mas sempre enfatizando a importância da formação e qualificação para que a arte seja acessível e compreendida. Por isso, me preocupo com a arte e com o processo criativo dos artistas.

Gosto daquilo que agrada a todos os meus sentidos. Para mim, um cantor deve ser afinado e capaz de transmitir a mensagem da letra de forma impactante ao público. Um ator, por sua vez, deve ser capaz de me transportar no tempo por meio de sua interpretação. Desde o lirismo da poesia até a autenticidade do cordel, desde o cheiro de terra do xote até as rimas do coco, passando pela embolada e pelo rap. Um gestor tem que me fazer acreditar nele, sem discursos ou purpurinas. Valorizo aquilo que me faz refletir, que desperta emoções, que me faz seguir de cabeça erguida. O que me faz viver, com muito talento e bom caráter.