Olá gente boa,
Sempre que subo ao palco para cantar a Ópera do Milho, sinto um misto de felicidade e uma certeza inabalável em minha capacidade, criatividade, responsabilidade e, acima de tudo, orgulho de ter nascido e sido criado no meu querido estado de Sergipe. Assim como Ariano Suassuna e Gilberto Freyre, rejeito o “Complexo de Vira-Lata”. Sempre acreditei na minha capacidade, sem medo de enfrentar qualquer desafio, porque sei que posso construir e criar. Esse ensinamento veio da minha mãe e da minha avó Marocas, duas estâncianas arretadas: seremos fortes se respeitarmos e entendermos a união entre diferentes povos e culturas; somos todos iguais e capazes.
O termo “Complexo de Vira-Lata” foi cunhado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues após a Copa de 1950. Ele afirmava que o brasileiro não atingia seu potencial máximo devido a uma crença inconsciente de inferioridade em relação a outras “etnias”, especialmente em comparação aos europeus. Minha mãe, Susete, nos fazia ler Monteiro Lobato, cujas teorias “racialistas” afirmavam que os brasileiros miscigenados eram inferiores às raças ditas puras. Um trecho de Lobato ilustra bem isso: “O Brasil, filho de pais inferiores — destituídos desses caracteres fortíssimos que imprimem um cunho inconfundível em certos indivíduos, como acontece com o alemão e o inglês, cresceu tristemente — dando como resultado um tipo imprestável, incapaz de continuar a se desenvolver sem o concurso vivificador do sangue de alguma raça original” (Literatura do Minarete, Monteiro Lobato, 1904). Minha mãe combatia essa ideia: “Temos que tratar os vira-latas como tratamos um pastor alemão. Todos têm potencial e inteligência, então nunca se rebaixe, meu filho”, dizia minha avó. “Quem muito se abaixa mostra os fundilhos.”
O sentimento do “Complexo de Vira-Lata” impede as pessoas de enxergar as virtudes do passado e acreditar em sua própria cultura, tradições e povo. Graças aos ensinamentos de minha família, construí minha vida valorizando minha história, meus antepassados, minhas tradições, minha gente e minha cultura, sempre acreditando na minha capacidade e na de todos ao meu redor.
Com essa certeza de vida, muitas vezes fui chamado de arrogante, de alguém que queria ser melhor que os outros, que não sabia o meu lugar. Eles não entendiam que quem faz o nosso lugar somos nós mesmos. Em um belo dia de 1996, Luiz Antônio Barreto, um dos maiores intelectuais de Sergipe e do Brasil, e meu mentor, me fez um pedido: “Irineu, por favor, vá até o Centro de Criatividade e veja como você pode ajudar na produção do espetáculo que estamos montando.” Luiz Antônio havia convidado professores, dramaturgos portugueses e espanhóis, junto com a professora Aglaé, para montar um espetáculo sobre as festividades de São João. Fui ao Centro de Criatividade e conversei com a Professora Aglaé. Ela explicou que a ideia inicial era criar uma grandiosa montagem teatral junina, adaptada a partir do texto da renomada dramaturga paraibana Lourdes Ramalho. No início, estranhei a escolha de um texto de uma escritora paraibana, pois queríamos ressaltar nossa sergipanidade. No entanto, essa escolha não invalidava a ideia do espetáculo ou do projeto.
Depois de nossa conversa, conheci os dramaturgos Moncho Rodriguez e Cristina Cunha, do grupo da Espanha e Portugal, contratados para montar o espetáculo. Eles estavam trabalhando com vários atores-alunos inscritos para as oficinas da apresentação. Me pediram para esperar, pois estavam conduzindo um exercício da oficina com os atores, que seria uma cena do espetáculo. Enquanto observava a movimentação, tentava compreender o enredo e como o público receberia a história, especialmente considerando que todos estariam usando máscaras. Fiquei observando. A história era conhecida: tratava-se de uma jovem que engravidou do namorado, que, sendo namorador, não queria se casar. A jovem buscou ajuda dos amigos da vila, da família e até mesmo dos três santos juninos: Santo Antônio, São João e São Pedro.
Havia um violão na sala e comecei a acompanhar o ritmo dos movimentos dos atores, resultando na criação da melodia e letra da primeira canção do espetáculo, um xote cujo refrão dizia: “Desde menina que ela é namoradeira, moleca sem vergonha, passava o tempo todo se agarrando, se esfregando, para ela lavou tá boa”. Completei o diálogo entre os personagens e, em pouco tempo, a cena estava criada. Moncho gostou muito e, como um homem inteligente e sagaz, sugeriu que eu trabalhasse todas as canções. Ele disse: “Vai ser uma ópera, a Ópera do Milho.” Completei: “Uma ópera popular.” E, sem hesitar, aceitei o trabalho. Convidei meu parceiro, o querido amigo Rubens Lisboa e, em três dias, compusemos todas as canções do espetáculo, juntando a capacidade dramatúrgica dos europeus com o talento, criatividade e ousadia dos sergipanos. Assim, passei da produção para a criação do maior espetáculo junino do Brasil, a Ópera do Milho.
A Ópera do Milho tem muita sergipanidade, das mãos e ideias de Luiz Antônio Barreto e Aglaé Fontes, idealizadores do projeto, de uma equipe europeia comandada por Moncho Rodriguez e Cristina Cunha, da atual direção de Lindolfo Amaral, da coragem e talento dos compositores e autores Neu Fontes e Rubens Lisboa, atores, bailarinos, quadrilheiros, bonequeiros, cantores, técnicos, produtores, contra-regras, bombeiros e apoiadores. São mais de 80 pessoas para levar ao palco esse grande espetáculo, hoje montado e produzido pelo grupo Imbuaça.
Toda criação tem seus criadores e executores, e todos precisam saber quem são, para se orgulhar e bater no peito dizendo: “Isso me pertence, nós somos capazes, respeite a nossa cultura.” Um espetáculo sergipano feito por sergipanos, para sergipanos e todos que chegarem. Quando o público, em êxtase, não para de aplaudir, deve lembrar que está aplaudindo a si mesmo, pois o espetáculo é feito das nossas histórias e tradições. Orgulho de ser sergipano não pode se limitar a postagens, placas ou propagandas. Não somos inferiores, somos bons, somos grandes, somos sergipanos.
Esse ano teremos dez apresentações patrocinados pela Funcap/Governo de Sergipe, Você é nosso convidado a participar desse seu espetáculo. Datas já confirmadas
Dia 31/5 – Centro de Criatividade
Dia 12/6 – Pirambu
Dia14/6 – Capela
Dia 17/6 – Rua São João
Dia 18/6 – ENCCO – TCE
Dia 22/6 – Arraiá do Povo
Dia 26/6 – Estância
