Olá gente boa,

Era uma vez em Laranjeiras, uma cidade onde cada esquina tinha uma história, e cada rua era um capítulo de talento e diversidade. Nessa terra abençoada, nasceram Horácio Hora, Bittencourt Sampaio, Candido Aragonez, Zizinha Guimarães, João Ribeiro, Quintina Diniz de Oliveira Ribeiro, Cônego Filadelfo de Oliveira, Antônio Militão de Bragança, José Sobral, Augusto Franco, Fernando Faro, João Mulungu.  Mestres como João Sapateiro, Seu Oscar, Seu Sales, Deca, Raminho, Bilina, Lourdes, Ranulfo, Nivalda, Efigênia, João Mulungu, Raminho entre tantos outros. Cada um deles trazia um dom especial, como se a cidade fosse um celeiro mágico de talentos.

No coração de Laranjeiras, erguia-se o Encontro Cultural, uma celebração anual onde todos os espíritos dessas figuras incríveis se reuniam com seus descendentes e conterrâneos vivos para compartilhar suas artes e saberes para todos que chegasse. Era uma festa colorida, onde o Simpósio sério dançava e cantava com os brincantes animados, e a cultura pulsava como o coração da cidade. O mundo vinha em busca dessa história.

Um dia, porém, uma sombra pairou sobre Laranjeiras. O gestor da cidade, em sua torre de decisões, decidiu ameaçar o Encontro Cultural, colocando em risco o Simpósio e a festa do folclore que unia a todos. Ele achava que cortando algumas coisas, poderia resolver todos os seus problemas.

Os moradores ficaram preocupados. O Encontro Cultural estava em perigo, e a cidade começou a perder o brilho que a tornava especial. Os artistas, mestres, brincantes, e toda a comunidade estavam apreensivos, sem saber se a mágica da cultura seria suficiente para vencer as trevas da falta de compreensão do gestor.

Na mesa das decisões, diziam que o Simpósio já estava cansado e ninguém queria participar por isso vamos decretar o fim dele. Como a realização do Simpósio não dependia dele e sim do Conselho Estadual de Cultura, ele mudaria o resto da programação. Mas algo precisava ser feito para convencer o gestor de que cortar o Encontro Cultural é sua pior decisão. Para o Laranjeirense é como cortar a própria alma do cidadão. No meio da confusão uma voz surge no alto da Igreja Matriz e brada o Cântico (Aos Laranjeirenses) de João Sapateiro:

  • Minha terna Laranjeiras/ Terra das lindas palmeiras/ Adoro tudo que é teu/ Admiro os belos prados/ E adoro os lindos trinados/ Das aves que Deus te deu.
  • O teu passado eu bendigo/ E adoro o “Bom gosto” amigo/ Aonde vou me banhar/ Adoro a meiga corrente/ Que canta canção dolente/ Andando em busca do mar.
  • Adoro a tua Matriz/ A onde a velhinha feliz/ Vai rezar o seu rosário/Amo o teu belo Cruzeiro/ Que lá no cimo do outeiro/ Nos lembra o Monte Calvário.
  • Amo a tua marujada/ E adoro a Pedra Furada/ Que nos encanta e fascina! Gosto da policromia/ E da coreografia/ Da Taieira de “Bilina”.
  • Amo os sinos maviosos/ E os teus jardins olorosos/ Que te dão tanta beleza! Amo as igrejas dos montes/ Amo as tuas velhas pontes/ Que fazem lembrar Veneza.
  • Admiro o candomblé/ E o zabumba do José/ Torrentes de poesia! Amo a face angustiada/ Da imagem cobiçada/ Do Senhor da Pedra Fria.
  • Admiro a Matriana/ Aonde em fins de semana/ O povo vai repousar; E adoro o Barro Vermelho/ Que fez do rio um espelho/ Onde vive a se mirar.
  • Eu gosto dos Penitentes/ Que contritos, reverentes/ Rezam por todos do além. –  E é com orgulho que falo/ Na dança de São Gonçalo/ Que nos encanta e faz bem.
  • Eu adoro as procissões/ Que povos de outros rincões/ Não deixam de acompanhar; E os teus velórios cantados/ Que nos deixam encantados/ Esquecidos de chorar.
  • Amo ao Samba de Tropelo, Coco, Forró e Martelo, Bacamarte e Batalhão;
  • E as tuas garotas belas/ Cantando trovas singelas/ Nas rodas de São João.
  • Amo a vista deslumbrante/ E a brisa acariciante/ Do morro de Bom Jesus; O Serra-Velho, dioso/ E o mês de doloroso/ Que aos namorados seduz.
  • Adoro o teu céu de anil/ Amo o teu povo gentil/ Amo tudo que é de ti; Eu amo os tamarindeiros/ Eu amo os velhos coqueiros/ Onde canta o bem-te-vi.
  • Admiro os Caboclinhos/ E os Negros do Rei  Raminho/ Lamentando o cativeiro; E a cantoria bonita/ Da turma de João de Pita/ No dia seis de janeiro.
  • Adoro os velhos sobrados/ Aonde em tempos passados
    Se cultivava o lirismo; E os bancos da Conceição/ Onde sentou-se a paixão/ No tempo do romantismo.
  • Adoro a rua Direita/ Porque quanto mais se ajeita/ Fica bem mais sinuosa; E o Alto do Xavier/ Que mostra pra quem quiser/ O quanto és majestosa!
  • Minh’alma também é louca, Por ti, cidade barroca/ Residência do saber; Terra de João Ribeiro/ Meu amor é verdadeiro/ E te adoro até morrer!

Inspirado em tudo isso e com coragem e determinação, a cidade falou em uma só voz. – Não deixaremos o Encontro Cultural se perder. A festa não era apenas diversão; era a identidade de Laranjeiras, uma herança que precisava ser preservada. E assim, com a união do povo, o gestor, finalmente, compreendeu que sua resposta estaria nas urnas nas próximas eleições. Ele até deu discurso dizendo: – A festa não é apenas festa, mas a sustentação da cultura, da economia e da alma da cidade, Danadinho o Vossa Excelência.

O Encontro Cultural de Laranjeiras foi salvo, e a cidade voltou a brilhar com suas cores e talentos. A lição era clara: quando uma comunidade se une para preservar sua cultura, até mesmo as sombras mais escuras podem ser dissipadas pela luz da compreensão e da celebração. E assim, Laranjeiras continuou a ser a cidade dos talentos, onde a festa era séria, mas a alegria era maior ainda.

A minha esperança é que a cidade posso sempre se reconhecer, se defender e determinar seu destino, e não deixar sua história na mão de ninguém, as eleições vem aí.