Olá, gente boa,
Tem coisa nessa vida que não tem preço. Em uma das minhas caminhadas pela Cidade Luz — e claro, de óculos novos, com os graus já ajustados à idade — algo me chamou a atenção. Lá, à margem do Rio Sena, em um espaço chamado Nix Nox, em meio àquela paisagem clássica e bela, ao lado dos barcos do Sena, encontrei uma imagem que parecia já fazer parte da minha memória.
Atravessei o rio, coração batendo forte, e fui olhar de perto. Não deu outra: reconheci de imediato a marca de um traço que já conheço há muitos anos. E a felicidade virou euforia quando percebi que estava diante da arte do sergipano Feyk Johny — ou simplesmente Johny Carlos, como o conheci.
Era uma imagem poderosa: um homem nordestino, marcado pelo tempo e pelo sol, segurando o galo, um dos símbolos da França. No meio de Paris, um pedaço da nossa Sergipanidade pulsando, Luiz Antônio Barreto ficaria feliz. O menino de Aracaju, criado na periferia, deixando sua marca no mundo com talento, sensibilidade e coragem. Trilhando o caminho dos seus conterrâneos Horácio Hora e Candido Aragonez, inebriando os franceses.
Não foi apenas Johny que tive a alegria de conhecer. Ao lado dele, outro gênio do grafite sergipano e brasileiro: Korea. Tive contato com os dois quando fui Secretário Adjunto de Cultura no Governo de Jackson Barreto. E tanto me encantaram que, em 2023, registrei suas histórias no artigo Dom e Talento, do meu livro Som da História. Escrevi ali:
“Atualmente, tenho encontrado uma nova safra de gente talentosa e cheia de dons. Dois deles localizei pelas paredes da cidade. Um é Egnaldo Correa, popularmente conhecido como ‘Korea’. Aracajuano, nascido em 1991, começou a desenhar na escola e, incentivado por amigos, mergulhou na cena urbana. Por meio de Craz, descobriu o grafite e não parou mais. Ele e Johny se tornaram as maiores referências do nosso estado.”
E não tenho dúvida disso. Jonny Carlos — ou Fack, como também é chamado — é outro garoto da periferia que fez do grafite sua bandeira. Suas obras já percorrem o Brasil, colorindo as grandes cidades, e agora começam a ocupar também as paredes das galerias. Arte profunda, visionária, carregada de crítica social e poesia visual. Ele é estudante de Teologia, ativista cultural, organizador de encontros estaduais e nacionais de grafite. Um representante legítimo da nova cena artística sergipana.
Sou fã dos dois. Meninos criados em bairros simples, que com apoio da família e fé em seus dons, transformaram a vida em arte e resistência. Lembro com alegria do período em que conseguimos trazê-los para perto da gestão cultural. Apoiei a realização do Festival Internacional de Grafite e organizamos a primeira exposição de artistas grafiteiros no Corredor Cultural Irmão, dentro da Secretaria de Estado da Cultura. Ali, além da dupla, revelamos muitos outros talentos.
Johny sempre contou que começou no movimento Hip Hop, entre skates e rimas de rap. Ele mesmo disse à repórter Aline Aragão:
“Foi quando comecei a participar das reuniões do movimento e a entender mais sobre política e os problemas da sociedade. Passei a ver de outra forma a opressão e a repressão sofrida pelos jovens da periferia, e tive consciência do genocídio de jovens negros que existe.”
Essa consciência social atravessa sua obra e dá ainda mais força ao traço. A certeza que os meninos estão de asas abertas e ganhando o mundo e fortalecendo outros grandes artistas como: Dext , Lello Araújo, Mariana Feitosa, Diego Carozo, Márjorie Garrido, Andreza Cíntia, Rafael Rocha, Fernanda Kolming, Punhos de Ouros, Caruzo, Tocha, Buga, Juba, Chucky, Fosco entre tantos outros jovens sergipanos.
Por isso, quando fiquei diante da arte de Johny nas margens do Sena, observando os parisienses passarem e olharem com atenção aquela imagem marcante, senti um orgulho que transbordava. Dentro de mim, eu vibrava e repetia em silêncio: É sergipano. É nosso. É do menino Johny Carlos.
