Olá, gente boa!
Hoje é o Dia da Sergipanidade, data que celebra o que temos de mais profundo: nossa identidade cultural, construída com luta, fé, poesia, música e pertencimento.
Desde muito jovem, acompanho a jornada de pessoas apaixonadas que dedicaram suas vidas ao estudo e à compreensão dessa identidade. Sou sobrinho-neto e afilhado de José Calazans Brandão da Silva, historiador e pesquisador incansável da cultura popular. Sempre que ele vinha a Sergipe, eu o acompanhava em eventos, encontros e celebrações da nossa cultura. Aprendi muito ao seu lado — e também com o povo que faz da tradição um modo de existir.
Foi Sílvio Romero, sergipano de Lagarto, quem primeiro chamou a atenção, ainda no século XIX, para a riqueza dos folguedos populares de Sergipe. No século XX, Carvalho Déda registrou em Brefaias e Burundangas do Folclore Sergipano as expressões mais genuínas do nosso povo. Vieram depois Beatriz Góis Dantas, guardiã da memória e da alma sergipana, Aglaé D’Ávila Fontes, nossa diva da cultura e figura essencial, e Luiz Antônio Barreto, meu amigo e mestre, a quem devemos grande parte da construção do conceito de Sergipanidade.
Tudo que aprendi nos livros e com os mestres da academia foi valioso, mas nada se compara à riqueza da convivência direta com os brincantes, artistas, poetas e mestres populares. Conheci de perto essa gente que transforma o cotidiano em arte: Mestre Sales do São Gonçalo da Mussuca, Deca do Cacumbi, o cabra sabido, Antônio Carlos, o bom aluno, Zé Rolinha, Dona Maria da Conceição, Efigênia, Dona Ana, Bárbara, Ciza, Duda, Ranulfo, Zefinha, Dió, Dona Madá, Sabau, Nivalda, Tiquinho, Jorge, Cosme, as meninas da renda irlandesa e tantos outros que me ensinaram, com simplicidade, o verdadeiro sentido de ser sergipano.
Em 1870, Tobias Barreto fez uma indagação ao Brasil que ainda ecoa em nós:
“Por que não te ergues, ó Brasil fecundo,
Por vastas ambições, por fortes brios?
Que glória é esta de mostrar ao mundo,
Em vez de grandes homens, grandes rios?”
Essa pergunta atravessa o tempo e encontra eco em nossa própria reflexão:
Por que mostrar ao mundo apenas o nosso caranguejo e não a nossa cultura, nossa tradição?
A cultura é o que temos de mais autêntico. Ela nos pertence e pode — e deve — ser também um instrumento de sustentabilidade e desenvolvimento da nossa gente. Ainda há desafios e conceitos a amadurecer, e nem sempre é fácil dimensionar o tamanho dessa transformação. Mas uma coisa é certa: a economia da cultura, criativa e lúdica, é a maior vocação de Sergipe.
Luiz Antônio Barreto escreveu, com a sabedoria de quem compreendia profundamente a alma do nosso povo: “Sergipanidade é o conjunto de traços típicos, a manifestação que distingue a identidade dos sergipanos, tornando-o diferente dos demais brasileiros, embora preservando as raízes da história comum. A Sergipanidade inspira condutas e renova compromissos, na representação simbólica da relação dos sergipanos com a terra, especialmente com a cultura e tudo o que ela representa como mostruário da experiência e da sensibilidade.”
Guardo comigo duas frases que marcaram minha trajetória.
Luiz Antônio Barreto me disse um dia: “Nossa cultura popular fará você entender a alma do povo sergipano.”
E Aglaé D’Ávila Fontes, anos depois, completou: “Você tem a alma desse povo.”
Essas palavras me acompanham até hoje, como guia e missão.
Não sou nenhum intelectual acadêmico, tampouco academicista.
Sou apenas um apaixonado por minha terra e por tudo que ela contém.
Respeitar e defender a Sergipanidade é honrar a luta de homens e mulheres que dedicaram a vida ao estudo, à pesquisa e à determinação na defesa da cultura sergipana.
É manter viva a chama daquilo que somos — um povo pequeno em território, mas imenso em alma, criatividade e amor pela sua terra. Que esse Dia da Sergipanidade nos lembre sempre: somos o que cantamos, o que dançamos, o que preservamos e o que amamos.
