Olá, gente boa!
Sempre gostei de comer bem — herança direta das mãos mágicas da minha mãe, dona Susete, e da minha avó Marocas, duas exímias guardiãs da nossa gastronomia sergipana. Minha avó Marocas, estanciana de alta estirpe, fazia uma maniçoba dos deuses. Passava dias preparando o prato, e o cheiro tomava conta da vizinhança, avisando aos mais atentos a hora exata de aparecer com seus potinhos em mãos para levar um pouco daquele encanto saboroso.
Minha mãe, por sua vez, era mestra no cozido, na buchada, na tripa assada, na moqueca de peixe, no sarapatel… tantas delícias que marcaram a minha infância e adolescência. Já minha outra avó, América, não era muito afeita à cozinha — preferia o piano e o canto. Mas, quando resolvia se aventurar nas panelas, fazia um malassado de carne que deixava todos de água na boca. Além de minha esposa Cassia que aprendeu e é o melhor cozido e feijoada da família.
Assim cresci: entre a música e os sabores da nossa sergipanidade. E se gastronomia é arte — e é — então ela também é cultura, é identidade, é resistência. Hoje é gratificante ver como esse tema tem ganhado mais espaço, sendo valorizado nos nossos festejos juninos, nos mercados, nas mesas e na construção da nossa autoestima cultural. Comer bem é também afirmar quem somos.
A cozinha sergipana, reconhecida como Patrimônio Imaterial do Estado, é um universo de sabores com fortes influências indígenas, africanas e portuguesas. Brilham nos pratos os pescados, frutos do mar e ingredientes como o milho, presente em receitas como cuscuz, pamonha e mungunzá. O caranguejo — com destaque para a tradicional caranguejada, feita com leite de coco — é símbolo e paixão do nosso povo. O amendoim, outro tesouro do nosso cardápio, também é Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe, assim como a carne de sol, que completa a nossa paleta de sabores.
Entre os que levam essa culinária ao mais alto nível estão chefs de talento e criatividade que transformam ingredientes simples em experiências memoráveis.
Timóteo Domingos, por exemplo, o nosso “Rei do Cacto”, alagoano de nascimento, mas sergipano por paixão, é um nome nacional ao criar a gastrotinga — uma gastronomia inspirada na caatinga. Com pratos como coxinha de cacto com recheio de quiabo, pizza de palma, lasanha de quiabo e cocada de cactos, Timóteo transforma o que é da terra em orgulho e inovação.
Seichele Barboza, atriz que virou chef, é outro nome de peso. À frente do restaurante Seu Sergipe, ela ecoa aos quatro cantos: “Meus pratos têm sabor de música, de poesia, da cultura sergipana raiz, do litoral à caatinga”. Criativa e irreverente, leva a cozinha sergipana para o mundo com receitas como ceviche de cacto, cuscuz de mainha, carpaccio de caju, brulée de mangaba e a mariscada que canta no prato.
Assim como temos grandes nomes na música — João Melo, José Augusto, Pedrinho Rodrigues, Balthazar, Los Guaranis, Calcinha Preta, Mestrinho, The Baggios, Pedro Lua, Amorosa, Ismar Barreto, Chico Queiroga e Antonio Rogério, João Ventura, entre outros — também não faltam talentos na gastronomia.
Claudinha Ramos, primeira sergipana no MasterChef Profissionais e proprietária do bistrô Café Passado, alia tradição e sofisticação com uma trajetória internacional admirável.
Camila, representante das regiões Sul e Centro-Sul do estado.
Andreza Machado, idealizadora do Menu das Chefs, com uma década de dedicação à culinária.
Dan Duarte, com mais de 20 anos de atuação, também é administradora e consultora gastronômica.
Fabrício Lemos e Lisiane Arouca, sergipanos que comandam o restaurante Origem, em Salvador, e brilham entre os melhores do Brasil.
E claro, com o coração transbordando de orgulho, não posso deixar de mencionar minha filha mais nova, Tássia Fontes, fundadora da Nutrimia. Nutricionista e gastrônoma, Tassia criou um empreendimento que alia saúde e sabor, oferecendo delícias sem glúten, lactose ou açúcar refinado — com destaque para o “melhor brigadeiro do mundo é aqui”, como ela mesma diz. Com atuação em alimentação funcional, dietas inclusivas e gastronomia afetiva, a Nutrimia é um exemplo do potencial transformador da sergipanidade no universo contemporâneo da nutrição.
Minha sergipanidade vai muito além da música. Ela nasce da minha vivência familiar, do meu amor por essa terra, das memórias construídas à mesa e do trabalho que escolhi abraçar com paixão e responsabilidade. É por isso que me entristece quando vejo que, na hora de valorizar o que é nosso, muitos ainda preferem importar referências externas, ignorando as riquezas que temos em abundância.
Está mais do que na hora de reconhecermos nossa força, valorizarmos nossos talentos e assumirmos com orgulho o que somos. A sergipanidade é uma riqueza que precisa ser cultivada, vivida e respeitada — no prato, na canção, nos palcos, nas rodas de capoeira, de slams, nas ruas, na vida.
