Olá, gente boa,

O melhor de estar vivo é poder testemunhar e participar de momentos de ressurreição da memória, daqueles que nos enchem de esperança de que o tempo ainda pode ser justo. Ontem, 31 de outubro de 2025, Aracaju viveu um desses momentos históricos: o poder público finalmente começou a pagar uma dívida com um dos maiores intelectuais que Sergipe e o Brasil já tiveram — Luiz Antônio Barreto, homem da educação, da cultura e da política, senhor absoluto da sergipanidade.

A Prefeitura de Aracaju, através da Secretaria Municipal da Cultura e do secretário Paulo Corrêa, realizou o que muitos desejaram, mas poucos conseguiram concretizar: batizar o antigo Centro Cultural de Aracaju com o nome do nosso mestre. Agora, o espaço passa a se chamar Centro Cultural Palácio-Museu Luiz Antônio Barreto, conforme o Projeto de Lei nº 362/2025, aprovado pela Câmara Municipal e sancionado pela prefeita.

Curioso — e simbólico — é lembrar que essa mesma Câmara, ainda que com outros nomes e rostos, em tempos passados rejeitou o nome de Luiz Antônio Barreto para uma simples praça da cidade.O tempo, sábio e justo, tratou de corrigir o erro: hoje, seu nome se ergue com a grandeza que sempre teve, cravado nas paredes da cultura aracajuana.

A homenagem se completa com a belíssima estátua do intelectual, instalada na entrada principal — obra do extraordinário artista sergipano Elias Santos.

Meu tio, José Calasans Brandão da Silva, já havia me mostrado quem era Luiz Antônio muito antes de eu conhecê-lo pessoalmente. Calasans o considerava um filho na intelectualidade, e Luiz via nele uma figura paterna. Eu, sobrinho, acabei sendo o elo entre esses dois gigantes da cultura — privilégio que carrego com honra e gratidão.

Em 1995, no primeiro governo de Albano Franco, Luiz me convidou para integrar a equipe da recém-criada Secretaria de Estado da Cultura. Ele idealizou uma estrutura ousada, moderna, com o peso e a importância de uma pasta estratégica. Era um visionário — falava de cultura como política de Estado, anos antes de Gilberto Gil popularizar a ideia no Ministério da Cultura. Costumava repetir com seu sorriso sereno: “A cultura tem que ser forte e permanente.” E completava, firme: “Quero ver agora quem terá coragem de acabar com essa estrutura.”

Luiz dividiu a cultura em institutos — de memória, fomento, arte-educação, comunicação e edição —, revolucionando a gestão cultural sergipana. Trabalhei em muitos desses espaços: fui diretor de eventos, do Gonzagão, do Teatro Atheneu, coordenador de edições, criador e executor de projetos. Em tudo que fiz, levei comigo os ensinamentos de Luiz: ética, compromisso e amor pela cultura.

Com o tempo, a relação profissional virou amizade. Ele foi meu mestre e meu amigo — e eu, seu eterno aprendiz.

Luiz Antônio Barreto nasceu em Lagarto, em 10 de fevereiro de 1944, filho de João Muniz Barreto e Josefa Alves Barreto. Jornalista, historiador e sociólogo, estudou Direito em Aracaju e no Rio de Janeiro, onde também cursou a Escola Nacional de Música. Atuou com brilho em educação, cultura, história, comunicação e literatura — um verdadeiro homem enciclopédico.

Ocupou cargos fundamentais: foi chefe da Assessoria Cultural da Secretaria de Educação e Cultura de Sergipe, Secretário de Educação e Cultura, superintendente da Fundação Joaquim Nabuco, diretor da Fundação Augusto Franco, assessor da Confederação Nacional da Indústria e diretor do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em Portugal. Presidiu a Academia Sergipana de Letras, ocupando a cadeira nº 28, e foi orador do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

De sua mente e sensibilidade nasceram o Encontro Cultural de Laranjeiras, o Encontro Medieval e o Colóquio Antero de Quental. Na área museológica, ajudou a implantar o Palácio Museu Olímpio Campos, o Museu Afro-Brasileiro de Sergipe, o Memorial do Judiciário e o Museu da Gente Sergipana.

Escreveu, organizou e editou obras fundamentais: Tobias Barreto, Graccho Cardoso, Silvio Romero, Vida e Política, Apologia de Deus, Críticas de Religião, Cultura: Um Roteiro de Alusões, Folclore, Invenção e Comunicação, Personalidades Sergipanas, Dicionário de Nomes e Denominações de Aracaju, entre tantas outras.

Luiz era um homem de pensamento forte e palavra doce. Um intelectual elegante, mas de coragem bruta. Tinha o dom de convencer sem gritar, ensinar sem humilhar e criticar sem ofender. Não se deixava seduzir pelo poder — o seu maior prazer era ver ideias virarem políticas públicas.

Quando alguém sugeria que ele fosse candidato, respondia com ironia poética:

“Isso é para os gaviões… eu sou apenas um bem-te-vi.”

Mal sabia ele que os gaviões de então eram, na verdade, abutres — e queriam acabar com o voo livre e luminoso daquele bem-te-vi que cantava a Sergipanidade.

Luiz transformava a história do povo sergipano em narrativa viva. Para ele, o folclore não era passado, era presença. Via nos reisados, nos sambas de pareia, nos aboios, nos batuques e nas rezadeiras a expressão mais pura da nossa identidade.

Ele compreendia que cultura popular é sabedoria coletiva, e que valorizar o povo é o primeiro passo para construir uma nação justa. Por isso, dizia que a Sergipanidade é o que nos torna únicos, o conjunto de gestos, sons e memórias que fazem o sergipano ser quem é.

Luiz Antônio Barreto deixou um legado que ainda ecoa em cada sala de aula, em cada museu e em cada artista que carrega a Sergipanidade no peito. Foi, é e será sempre o maior guardião da cultura sergipana.

Por tudo isso, deixo aqui um pedido que é também um apelo: a Universidade Federal de Sergipe deve conceder a Luiz Antônio Barreto o título de Doutor Honoris Causa — não como favor, mas como justiça histórica.

E deixo também minha gratidão pessoal. Muito do que sou — gestor, artista e homem da cultura — devo ao exemplo e aos ensinamentos desse amigo que se tornou eterno.

Parabéns à Prefeitura de Aracaju, ao secretário Paulo Corrêa e a todos que compreenderam que homenagear Luiz Antônio Barreto é, acima de tudo, reconhecer Sergipe em sua própria alma.