Olá, gente boa,
Sou cria de Estância no meu Sergipe, a Capital do Barco de Fogo, do buscapé, terra de Raimunda Andrelina, Jorge Maravilha, Fabio de Estancia, Felix Mendes e Rogério, entre tantos outros. Terra com uma identidade forte, que resiste ao tempo e às ideias mirabolantes de gestores que, vez por outra, teimam em querer mudar o que já nasceu pronto na alma do seu povo. Terra fértil da tradição, da cultura e das comemorações juninas.
Foi de minha mãe, Susete, que herdei esse gosto pelo que nos pertence.
Foi com meu avô, Dedé Sombrinha, que aprendi a soltar buscapé.
E foi com minha avó, Marocas, que conheci a maniçoba… e o forró.
E é em nome deles que tento dar minha contribuição à continuidade dessa tradição.
Porque tradição não é coisa do passado.
Tradição é raiz que sustenta o presente.
Vivemos em um Nordeste que construiu, ao longo do tempo, símbolos culturais que não são apenas nomes bonitos — são marcas de identidade:
Sergipe, o País do Forró.
Paraíba, o Melhor São João do Brasil.
Campina Grande, o Maior São João do Mundo.
Caruaru, a Capital do Forró.
Maranhão, a Capital do Bumba Meu Boi.
Bahia, com seu São João que toma conta do interior inteiro.
Mossoró, com sua Cidade Junina.
Aracaju, com o nosso Forró Caju.
O Mastro de Capela,
E Estância, a Capital do Barco de Fogo.
Isso não é marketing. Isso é identidade construída com o povo.
E quando falamos de forró, estamos falando de uma verdadeira realeza cultural.
Temos Luiz Gonzaga, que ensinou o Brasil a ouvir o Nordeste.
Temos Jackson do Pandeiro, que deu cadência à nossa alma.
Temos Marinês, que levou a força da mulher nordestina para o palco.
E uma corte de reis e rainhas que sustentam essa história: Carmélia Alves, Clemilda, Gerson Filho, Pinto do Acordeon, Anastacia, e tantos outros como Jósa, o Vaqueiro do Sertão.
E vieram também aqueles que deram continuidade a esse legado com maestria:
Dominguinhos, Jorge de Altinho, Alcymar Monteiro, Nando Cordel, Petrúcio Amorim, Maciel Melo, Aldemario Coelho, Flávio José, Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, Santana, Assissão, Erivaldo de Carira, João da Passarada, Amorosa, Virginia Fontes.
E hoje vemos uma nova geração bebendo dessa fonte:
Deusa do Forro, Thais Nogueira, Mestrinho, João Gomes, Trio Virgulino, Pedro Lua, Os três Molekes e tantos outros que mostram que o forró continua vivo.
Mas aqui cabe uma pergunta que não quer calar:
Estamos cuidando dessa herança como ela merece?
O que vemos hoje, em muitos casos, é o forró sendo empurrado para segundo plano dentro da própria festa que nasceu para celebrá-lo.
Outros ritmos ocupando os palcos principais. O trio pé-de-serra sendo deslocado.
E os artistas que sustentam essa tradição lutando por espaço.
E é preciso deixar algo muito claro:
O problema não é a diversidade musical. O problema é quando o forró deixa de ser protagonista dentro da própria casa.
Foi a partir dessa inquietação — que carrego como artista, como gestor e como filho dessa terra — que comecei a estudar, ao longo dos últimos anos, uma forma de transformar esse sentimento em ação concreta.
E assim nasce uma proposta:
Criar uma política de valorização do forró tradicional, com critérios claros, reconhecimento de trajetórias e organização das contratações públicas.
Porque o forró já é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
Mas talvez esteja na hora de darmos um passo maior: Já propomos e entregamos a Unesco, Iphan, gestores, o Balaio Nordeste, Dona Joana, artistas e fazedores, a proposta de reconhecer o forró, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade e precisamos nos mobilizar e provar que merecemos o registro. Porque o mundo já dança forró. Só falta o mundo reconhecer oficialmente aquilo que o povo já sabe.
O que defendemos é simples:
Valorizar o artista local.
Fortalecer a base do forró.
Organizar o sistema.
E garantir que o São João continue sendo o que sempre foi: uma celebração da nossa identidade.
Porque sem forró, o São João perde sua alma.
E identidade, minha gente boa, não se negocia.
