Olá, gente boa,
Nesse domingo de chuva acordei cedo, com uma vontade danada de ouvir uns discos de vinil. Queria matar a saudade do som verdadeiro, sem filtros nem digitalização. Antes que todo mundo acordasse em casa, fui à minha discoteca, com mais de 400 LPs. Infelizmente, a vitrola não funcionou — deve ser a agulha, vou ter que providenciar outra.
Foi aí que me toquei: sou do tempo do LP, o velho e bom bolachão. Aquele disco de 12 polegadas e 33 ⅓ rotações por minuto que a Columbia Records lançou em 1948, capaz de registrar até 23 minutos de música por lado. Uma revolução que deixou para trás os discos de 78 RPM, com suas gravações curtas e de um só lado.
Na infância tive meu primeiro contato com essas belezas sonoras nas radiolas da Empire, ouvindo Bob Dylan, Roberto Carlos, Sílvio Caldas, Vanderleia, Elis Regina, Ivan Lins e tantos outros. Dali nasceu a paixão pelo LP, pelo som analógico com todas as suas frequências, inclusive os “ruídos” e aquele chiadinho mágico da agulha no início. O disco era mais que música: era ritual. A capa criativa, o encarte revelando sentidos, e a agulha dançando no sulco eram parte da experiência. Um portal para emoção, vida e canção.
Foi esse amor que me fez escolher a música como profissão. Eu queria um disco com a minha voz, com as minhas composições. Em 1981 realizei parte desse sonho ao gravar minha primeira canção no Festival FSMPB, registrada em LP junto ao grupo Entre Amigos. Logo depois veio o primeiro disco coletivo de Sergipe, Cajueiro dos Papagaios, produzido por Sucupira e Luciano Nascimento, onde eu, Lula Ribeiro e Paulo Lobo cantávamos nossas canções e prestávamos homenagem a Alcides Melo. Um marco na produção fonográfica sergipana, ao lado do Viagem Cigana, do “Cataluzes”.
Vieram outros trabalhos: Chifra de Cinderela, Rara Beleza, Trilhos da Lua. Fui juntando também LPs internacionais, nacionais e locais. Curioso que naquela época não existiam editais ou apoios do Estado, mas produzíamos mais — e com qualidade. A luta era grande, mas o resultado está aí: uma cultura viva, com centenas de artistas sergipanos ocupando o mercado musical.
Hoje não consegui ouvir meus discos, mas viajei na memória. Lembrei de tantos companheiros que gravaram seus sonhos no vinil: o grupo Xadrez com Daniel Diau ainda garoto, Edgar do Acordeon com seus 30 anos de forró, Luiz Paulo — forrozeiro nato, Roberto Alves com Meus Traumas, Chico Queiroga com Cor de Laranja, Lula Ribeiro com Janeiros, Rogério com Água do Azul, Virginia Fontes com Cigana, Lourival Mendes com Sou Mais Eu, o Bando de Mulheres com Mariano, Amorosa, Joesia Ramos, Mingo Santana, Tonho Baixinho, Jorge Duccy, Bolo de Feira… uma constelação de artistas que batalharam para eternizar sua voz em LP.
A modernidade mudou tudo. Hoje quase não temos o disco físico, só arquivos digitais. Mas eu, como tantos outros saudosos, continuo a querer sentir o peso do vinil, o cheiro da capa, o tato que confirma o dever cumprido. Saudade boa de uma vida de batalhas, vitórias e alegrias. Porque as derrotas e tristezas ficam para os que não souberam valorizar a arte e a cultura.
Em breve vou comprar novas agulhas — ou até outra vitrola — para voltar a ouvir meus amigos e a mim mesmo. Quero mostrar aos meus netos a magia do acetato, a vibração da agulha, e ver a alegria deles quando ouvirem a voz do avô ecoando das caixas de som. Tenho certeza que vão vibrar junto comigo.
E quem quiser, está convidado para essa audição de memórias, sonhos e certezas gravadas em vinil.
