Olá, gente boa,

 

Saudade é uma palavra que só existe no vocabulário do nosso país, dizem os brasileiros. Mas ela é reivindicada também pelos portugueses, espanhóis e por todos os povos de sangue latino e quente. No entanto, garanto: a palavra pode não ser genuinamente brasileira, mas o sentimento contido nela é.

 

Minha bisavó Noemi, antes de falecer aos 96 anos, me disse: “Meu neto, a dor da perda só pode e deve ser o começo da saudade, e saudade boa”. Assim tento viver minha passagem por esse plano, guardando a saudade boa, saudade das pessoas que já se foram, mas que passaram na minha vida deixando marcas profundas, como minha tia Margareth, minha avó América e Marocas, Tio Moacir,  Gena Carla, Lu Spinelli, Luiz Antônio Barreto, Hélvio Dórea, João Melo, Gilson Batata, Nery, Seu Milson, Rogério.

 

E também a saudade de amigos que gostaria de ver sempre, pois ainda estão por aqui, cada um vivendo seu mundo, como Denys Leão, Milton Goulart, Alexi Pinheiro, Jorge Lins, Markus Trolleis, Família Milson Barreto, Raimundinho Oliveira, Elber Batalha, Ione Sobral, Monica Sobral, Roberto Bispo, Sergio, Augusto, José Americo, Juju, e Avany, Valdo França, Ellen, Grazi, Tati, Jacy, Tiara, Alisson, Silvana, Ângelo, Manuel, Tonho, Genival, Ronivon. Alguns consigo matar a saudade vez ou outra, mas sempre estou ligado em todos. Sou um sujeito feito de saudade e lembrança—saudade de ver, todas as manhãs, minhas filhas, hoje adultas e donas de si; saudade até de quem já não gosta mais de mim. Porque a vida é isso: um emaranhado de afetos, uns que ficam, outros que partem, mas todos deixando suas marcas.

 

Saudades de momentos e situações vividas e compartilhadas com tanta gente boa em Laranjeiras, na Secretaria da Cultura e na Funcaju, nos palcos, nos shows, nos estúdios, nos corredores e nos bares da vida.

 

São muitas saudades que, felizmente, aprendi a transformar em energia e combustível para prosseguir. Dos que foram, saudades eternas e boas dos momentos e aprendizados. Dos que estão, saudades da companhia, das conversas e, claro, das preocupações naturais de quem gosta.

 

Tenho saudade de coisas, do meu estúdio Capitania do Som, da captação de uma bateria ou de um violão, do cheiro das salas, das conversas, das piadas e até das broncas. Do Bando de Mulheres, das queridas Madrinha, Mirá, Luana, Sandra, Sônia, Elisa, Luciana e Marilda. Da minha casa de infância; passo sempre pela porta para relembrar amigos e momentos e o tempo feliz com meu pai.

 

Uma das minhas saudades mais antigas é do meu violão “Di Giorgio” estudante, que ganhei da minha mãe em 1968. Foi nele que dei meus primeiros acordes com o ensinamento do professor João Pires Argolo. Foi nele que fiz minha primeira composição, minhas paqueras e namoros com Dona Cássia. Foi nele que compus as músicas das minhas filhas e que fiz meu primeiro show profissional.

 

Um belo dia, minhas filhas, brincando em casa, derrubaram meu estudante, e com a queda, ele quebrou a mão. Tive que aposentá-lo em seu estojo por um tempo, até que conseguisse consertá-lo. Fazia esses reparos com Carvalhão, um músico e luthier muito conhecido da época. Infelizmente, tive que esperar, pois ele andava adoentado, e assim, precisei comprar outro violão.

 

Passou o tempo, e um dos músicos que tocava no Bando de Mulheres a meu convite, pois sempre o admirei pelo talento, pelo bom caráter, pela tranquilidade e pela educação com todos e tudo, foi à minha casa. Ronaldo Heitor, baiano que fixou residência em Aracaju, músico de muito bom gosto. Nessa visita, ele viu meu violão no canto da parede e perguntou que violão era aquele. Respondi que era meu primeiro violão e que, infelizmente, estava com a mão quebrada. Ele retirou-o do estojo e disse: “Só isso? Eu conserto. Sou luthier e farei com o maior prazer”. Me surpreendi, mas disse: “Tudo bem, pode levar, mas veja o orçamento antes e me passe”.

 

Perguntei a alguns músicos sobre o luthier Ronaldo, e todos me garantiram sua qualidade e profissionalismo. Assim, fiquei tranquilo, pois o valor do meu estudante não tem preço. Gostaria de guardá-lo para meu filho ou neto.

 

Assim, já se passaram mais de 25 anos longe do meu primeiro violão. Ronaldo teve muitos problemas, mudou de endereço, teve questões de saúde na família e também desencontros comigo. Hoje, tenho nove violões, já tenho neto, pois só filhas tive, e ainda sinto muita saudade do meu violão “Di Giorgio” estudante, que ganhei da minha mãe em 1968.

 

E a saudade, essa eu transformo em memória e afeto.