Olá gente boa!

A cidade de Laranjeiras, Sergipe, testemunha atualmente um cenário de violência sem precedentes contra a rica cultura popular que a tornou um Patrimônio Nacional. A administração pública, insatisfeita em quase aniquilar seu patrimônio material e imaterial mais valioso, ao longo dos anos, agora ultrapassou todos os limites. Em uma audiência pública, questionou-se sobre o poder da prefeitura sobre os grupos, mestres e participantes dessas tradições, um ato de autoritarismo e arrogância sem precedentes.

A cultura popular é um conjunto de costumes, tradições e manifestações sociais específicas de uma região ou país. Também conhecida como cultura tradicional, engloba elementos como música, dança, festas populares, lendas, contos, artesanato e outras formas de expressão cultural típicas de um povo ou lugar. Geralmente, é transmitida oralmente, de geração em geração, refletindo a identidade e o modo de vida de uma comunidade.

A manifestação dos Lambe Sujos e Caboclinhos em nossa cidade tem mais de 150 anos de história. Ela representa a resistência e a coragem dos negros que lutaram pela liberdade. São eles os verdadeiros heróis dessa tradição, enquanto os Caboclinhos, desempenham um papel quase anti-heróico. O combate e a esperança desses grupos são celebrados a cada ano, sem interferência do poder público. No entanto, o governo local deve estar presente para apoiar essas manifestações nas ruas da cidade, garantindo limpeza, sonorização e segurança para os participantes e visitantes, pois eventos como esse atraem turistas e recursos para o município.

É importante ressaltar que nem a prefeitura nem o sistema judicial têm o direito de determinar o funcionamento dessas tradições, a menos que participem como personagens da celebração, como Rei Africano, Princesa, Embaixadores, Mãe Suzana, Pai Juá, Feitor e Tocadores no caso dos Lambe Sujos, ou como Cacique, Princesa e índios guerreiros no caso dos Caboclinhos. Portanto, eles não têm poder de decisão sobre os festejos.

O jornal El País, da Espanha, descreveu o evento: “O encontro dos moradores de Laranjeiras, vestidos como negros e índios, ocorre uma vez por ano em um desfile teatralizado em homenagem à história dos escravos da região, que lutaram por sua liberdade. Os Lambe Sujos, pintados com uma tinta negra escura, são liderados pelo rei do quilombo. Atrás deles estão os Caboclinhos, com cocares na cabeça e a pele pintada de vermelho”. Além disso, o Mestre Zé Rolinha, que lidera os Lambe Sujos há 30 anos é considerado por todos como o “DONO” da festa. O Rei diz: “Estamos retratando a história da cultura brasileira, de um povo humilde do Brasil. Você não encontra isso nas universidades. As universidades vêm aqui beber na fonte do mestre e da nossa gente.”

Essa celebração é mais do que apenas uma festa; é um testemunho vivo da rica história cultural e da resistência de um povo. É importante que as autoridades locais entendam e respeitem essa tradição única e valiosa, em vez de tentar controlá-la de maneira arbitrária. É fundamental destacar que o simples investimento do poder público na compra de flanelas, penas e tinta xadrez não concede à administração o controle ou a propriedade sobre esses grupos folclóricos.

A tradição do Lambe Sujo e Caboclinho em Laranjeiras é um patrimônio cultural inestimável, além disso, todo o pertencente a esta cidade Patrimônio Nacional também está devidamente registrado e preservado. O Conselho Estadual de Cultura reconheceu e aprovou a inclusão do Folguedo como Patrimônio Imaterial da Cultura do Estado de Sergipe, e a Câmara dos Deputados, com a relatoria da deputada Federal Katarina Feitosa e aprovação do presidente da comissão, Deputado Federal Marcelo Queiroz, reconheceu essa manifestação como parte integrante da cultura nacional.

Laranjeiras foi pioneira ao criar a Lei dos Mestres, demonstrando um compromisso profundo com a preservação dessa rica herança cultural. Agora, é o momento para que o poder público reconheça a importância dos grupos folclóricos e trabalhe em conjunto com eles para garantir a transmissão das tradições culturais às futuras gerações.

O exemplo da prefeita Ione Sobral, que durante sua gestão investiu, valorizou e apoiou a cultura de Laranjeiras, demonstrou como a cultura pode estar no centro do desenvolvimento cultural, social e econômico de um município. A cultura de Laranjeiras merece ocupar seu lugar de destaque no topo da pirâmide em todos esses aspectos.

A Lei Mestres dos Mestres, que reconhece o trabalho valioso dos Mestres, é um estímulo sem igual para a continuidade, preservação e transmissão dessa tradição. É importante enfatizar que esse prêmio representa um reconhecimento, não um salário que obrigue os Mestres a atender aos desejos de gestores temporários. Como declarado no artigo 8°, é um dever dos reconhecidos como “Mestres dos Mestres” manter e desenvolver as atividades que levaram ao reconhecimento, sobretudo a transmissão de seus conhecimentos.

No entanto, a Lei que prevê esses prêmios nos últimos 12 anos não foi devidamente cumprida pela gestão pública. Ela obriga a gestão a realizar editais anuais, o que não ocorreu, e isso exige a atenção do Ministério Público e do Tribunal para sua devida fiscalização.

Por fim, é compreensível que haja divergências de opinião, mas é importante lembrar que a cultura desempenha um papel fundamental na coesão social e no enriquecimento da sociedade. Em Laranjeiras, todos participam das brincadeiras e folguedos, e a tradição de se pintar de negro demonstra respeito e solidariedade à história da cultura local. Em um dia como esse, todos se tornam negros na capital da cultura popular deste país. Samba Nego!

* Texto da Coluna Som da História no Cinform 02/10/2023