Olá, gente boa!
Minha mãe, Susete, estanciana da gema, filha de um baiano português, José Alves e de uma cabocla de traços e sobrenome indígena, Marrocas Japiassu, sempre foi e é minha bússola, minha orientadora e o maior exemplo do que significa ser humano.
Nasci em Aracaju, loirinho, de olhos azuis e pele muito branca, herança da mistura dos meus avós e bisavós portugueses e holandeses. Certa vez, o jornalista Ipojuca Pontes, ironicamente, me chamou de “príncipe holandês” no programa Sem Censura, quando mencionei que era sergipano. Foi ali que precisei falar sobre colonização e exploração, temas que marcam a história do nosso país. Um cearense que sempre negou suas próprias origens…
Minha mãe sempre me alertou sobre essa condição, dizendo: “Meu filho, você não é maior nem melhor do que ninguém por ser branco. Todos nós somos irmãos e devemos respeitar, aceitar e valorizar o ser humano, pois somos iguais, independentemente da cor da pele. Mas também não devemos ter vergonha de quem somos.” Essas palavras me ensinaram a conviver com todos, respeitar cada indivíduo e jamais carregar a chamada “doença de branco”, uma metáfora para a internalização de padrões de beleza que desvalorizam as características africanas em detrimento das europeias.
Na infância, convivi com as diferenças e, às vezes, via crianças excluírem outras por causa da cor da pele ou da classe social. Eu não entendia o porquê. Mas os ensinamentos de minha mãe eram mais fortes: nunca enxerguei cor ou classe social, apenas outras crianças iguais a mim.
Com o tempo, compreendi melhor os preconceitos e as maldades do mundo. Percebi que não eram apenas os outros que sofriam discriminação, mas também eu, por ter amigos de todas as origens. Mas isso nunca me influenciou. Com meu violão nas mãos, fui conhecendo pessoas incríveis, como Irmão – artista e gestor cultural –, Black Malé, parceiro da juventude e da música, e Tonho Baixinho, músico, compositor, arranjador e cantor talentoso. Todos do Morro da Caixa D’Água, hoje Centro de Criatividade, uma comunidade aracajuana repleta de cultura e criatividade. Também tive a honra de conviver com Nego Beto, grande compositor e agitador cultural, que, junto com Irmão e Tonho Baixinho, influenciou até Gilberto Gil em músicas como “Sarará Miolo”. Beto nos deixou recentemente, mas sua obra permanece viva.
Do Alto do Morro, vieram também o Bloco Quilombo, Irivan, Tom Toy e tantos outros artistas que marcaram minha trajetória. Na caminhada, tive o privilégio de aprender com gigantes como Mestre Severo D’Acelino, figura central do movimento negro sergipano; Antônio Pitanga, bailarino e coreógrafo; Virgínia Lúcia, atriz e grande agente cultural; e Cleanys, bailarina imponente e ativista incansável, Vera Vilar. Sem falar em Antônio dos Santos, Erê, Nadir da Mussuca, Maria da Conceição, Mestre Deca, Demar, Ranulfo, Dió, Sales, Zé Rolinha e Juarez, Mariano Antônio, Izabel Santos, Maurelina, Dona Josefa, Batinga, Marilene, Jorge, Carlos Trindade… A lista de pessoas inspiradoras é interminável.
Na música, a força dos nossos artistas é insuperável. Cito Chico Queiroga e Antônio Rogério, Antônio Carlos du Aracaju, Jorge Dissonância, Valtinho do Acordeon, Cris Emmel, Marilda Silva, Sandra Moreno, Saulinho Ferreira, Hot Black, Isis Broken, Heloa e meu afilhado querido, Claudio Caducha – compositor e cantor de altíssimo nível, além de uma grande pessoa.
Eu poderia passar o resto do ano nomeando nossa gente talentosa, mas encerro com aqueles que abriram caminhos para todos nós: Tobias Barreto, Horácio Hora, Beatriz Nascimento, José de Dome, Zizinha Guimarães, Arthur Bispo do Rosário, Seu Oscar, Marizete, Bilina, Dona Lourdes, Lê. Que onde estiverem, iluminem nosso povo e nos guiem para um futuro de igualdade e respeito.
Que sejamos eternamente livres de amarras e preconceitos.
