Olá, gente boa,

Nos idos dos anos noventa, com uma carreira musical já consolidada, realizando em média 80 shows por ano, com quatro discos gravados e mais de 500 músicas compostas, fui convidado por Eugênia Teixeira para assumir a Diretoria Técnica da Fundação Estadual de Cultura de Sergipe – Fundesc. Uma instituição na qual já trabalhava desde os anos 80 como técnico de iluminação e sonoplastia. Ao assumir a Fundesc, o cargo de Diretor Técnico foi ocupado pelo Professor Alvino Argolo, um renomado violonista e concertista com reconhecimento nacional. Alvino me convidou para assessorá-lo e juntos criamos diversos projetos, como o Gonzagão Forró e Arte, o Festival Nosso Canto de música Junina, e realizamos mais uma edição do Novo Canto – Festival Estudantil da Canção. Antes de ser o artista de palco, precisei aprender a produzir para poder subir ao palco com tranquilidade, desempenhando esse papel de auxílio no trabalho de Alvino.

Com a saída de Alvino, alegando questões pessoais, a Professora Eugênia tentou outro nome para substituí-lo, mas eventualmente decidiu me convidar. Fiquei chocado, pois nunca havia imaginado assumir qualquer cargo público de liderança, muito menos possuía experiência administrativa para tal. Mesmo assim, após conversar com amigos, aceitei com algumas condições. Solicitei um curso de formação, mesmo que fosse breve, em administração pública, que fiz em Brasília, além do apoio de técnicos experientes para me auxiliar.

Assim foi feito, porém posso garantir a vocês que sofri muito, pois o que me aguardava não era nada fácil. Sempre havia trabalhado para minha carreira musical e tinha em mente que o governo não deveria ser meu principal investidor, já que minha vida artística era uma escolha minha. No entanto, compreendia que a gestão pública tinha muitas responsabilidades com a cultura e seus praticantes. Essa visão, porém, faltava na cultura; não entendia por que os artistas nos projetos não eram tratados com mais atenção, não tinham à disposição o melhor para realizar seus trabalhos: um bom palco, excelente iluminação e sonorização, camarins adequados, divulgação eficaz, e um olhar mais respeitoso e profissional. Por que a cultura popular, com toda sua tradição e valor, era muitas vezes recompensada com uma simples garrafa de cachaça, sem qualquer apoio ou valorização? Assim, prometi a mim mesmo que mudaria isso.

No entanto, ao assumir, logo percebi que minha vontade e minhas ideias não seriam suficientes para provocar mudanças significativas. A vontade de desistir era constante, mas optei por continuar e aprender a lidar com o poder. Foi um período de muita tristeza e dor, mas também de aprendizado. Naquela época, a política cultural era muito diferente da atual e menos competitiva; o foco estava no fomento das artes, com a criação de diversos festivais e encontros culturais. A Fundesc começou a revitalizar projetos vencedores dos anos 80 e promoveu mais de 150 oficinas de arte em todo o estado. Construímos memórias, demos vida aos espaços da Fundesc, apoiamos tanto o erudito quanto o popular em igual medida, e conseguimos fortalecer uma instituição respeitada, em grande parte devido ao trabalho da Gestora Eugenia Teixeira, que utilizava sua força política a nosso favor. Isso foi mais um aprendizado: a importância da força política para garantir os recursos necessários e a liberdade para trabalhar. Outro aspecto crucial foi a escuta da democracia e a paciência para lidar com os anseios e ideias dos praticantes da cultura.

Com essa experiência satisfatória em resultados e na minha visão de gestão, fui convidado a assumir diversos cargos na gestão da cultura, como Diretor dos espaços Teatro Atheneu e Tobias Barreto, Gonzagão, Coordenador de Eventos, Coordenador de edições, Assessor técnico, entre outros. Certa vez, um artista me perguntou por que eu assumia tantos cargos, e respondi sem hesitar: “Porque sou muito bom no que faço. Não sou filho de político, não sou político, não tenho voto e nunca fui votado. Será que isso não é competência?”

Dessa forma, cheguei à Secretaria Municipal de Cultura da cidade de Laranjeiras, com uma bagagem e experiência que não possuía quando assumi meu primeiro cargo. Porém, eram outros tempos e outras responsabilidades. Tive muita sorte; a cidade, por si só, é um patrimônio cultural e possuía uma prefeita que reconhecia e valorizava todo esse potencial. Aprendi muito, entendi muito mais, convivi com mestres, brincantes, artistas e um povo ávido por mostrar sua tradição secular e orgulhar-se de seus antepassados. Foi a maior escola que jamais poderia pagar, uma dívida eterna à cidade e à sua cultura.

Foi essa passagem por Laranjeiras que permitiu que o Técnico de Iluminação e Sonoplastia da então Secretaria de Estado da Cultura fosse recebido pela porta da frente como Secretário de Estado da Cultura, tornando-se o primeiro funcionário de carreira da instituição a ocupar tal posição. Com experiência, já sem sofrimento, respeitado em todo o Brasil, compreendendo todas as nuances da gestão e antenado com as novas práticas da gestão cultural. Pós-graduado em gestão da cultura, vice-presidente e presidente do Fórum Nacional de Cultura, criador do Fórum Estadual de Cultura, única cidade de Sergipe a ter o CPF da Cultura e criou a Lei dos Mestres dos Mestres, a primeira lei de um município no país a conceder o maior prêmio vitalício e mensal aos Mestres. Ser Secretário do meu Estado, uma façanha e um orgulho. Acredito na cultura e em seus praticantes. Sou incisivo quando falo sobre cultura, pois devo tudo a ela. Construí, respeitei, lutei, confrontei, guerreei, apanhei e aprendi.

Foi uma jornada dolorosa, porém gratificante. Não subscrevo a visão do copo meio cheio ou meio vazio, pois não acredito na falta ou na desventura; creio nas oportunidades e nos resultados. Lamentar a escassez é coisa da hiena Hardy de Hanna Barbera, que só sabe resmungar “Ó vida, ó azar…”. O lamento é para aqueles que encarnam o estereótipo dessa hiena, que diante da carência, só sabem murmurar: “Ó vida, ó azar…”. Pensar, desejar, buscar, criar, potencializar e trabalhar. Se o copo está meio vazio, é porque ainda há espaço para colocar mais algo nele.

Apontar o dedo ou criticar os gestores que partem não mudará a face da cultura ou de qualquer outra coisa, pois quem mais aponta o dedo jamais fez algo para transformar o copo de meio vazio em totalmente cheio. Nem um gestor que assumi uma pasta quer errar. Tudo começa com o respeito ao ser humano; a gestão de uma pasta não depende apenas dele. É claro que quanto mais preparado estiver para assumir um determinado trabalho, melhor. Quando um artista sai de casa para assumir uma tarefa dessas, ele precisa deixar sua arte em casa e levar apenas seu sentimento e o sonho de realizar, embasados no conhecimento de gestão e no terreno em que irá pisar. No entanto, a gestão maior precisa oferecer a esse gestor as condições de trabalho e a interação com os pares do poder. A gestão não é feita isoladamente. Portanto, precisamos desenvolver a política cultural do estado, fortalecendo a formação e qualificação de gestores e praticantes da cultura, para que possamos ter um diálogo em prol dessa cultura e não apenas em benefício de alguns. Assim, poderemos criticar e cobrar eficiência coletiva. Dessa forma, não precisaremos elogiar quem assume cargos para garantir espaços, e quando não conseguimos, criticamos e desdenhamos. Respeitar a história de cada um e respeitar o ser humano é essencial para o crescimento de todos e principalmente da cultural de Sergipe.