Olá gente boa,

Quando jovem, me filiei ao Partido dos Trabalhadores através de alguns amigos como Walter Farofa, Milsinho Barreto, Agnaldo e Ari, vizinhos e colegas de escola e de vida. Todos os domingos, nos reuníamos para jogar basquete na quadra do Colégio Tobias Barreto. Antes disso, aos sábados, jogávamos futebol no campinho e, em seguida, na quadra do Colégio Graccho Cardoso, onde seu José e seu filho Neto organizavam os jogos em frente à minha casa, na Rua Zaqueu Brandão.

Era nessa tradicional “baba” de basquete que se encontravam Diomedes, Joel, Chico Buxinho, Chico Bonfim, Bira e tantos outros, alunos do Atheneu e do Tobias, alguns já na universidade. Entre arremessos e dribles, a juventude pulsava com inquietação e desejo de mudança. Foi nesse ambiente que surgiu a vontade de lutar contra a ditadura e a repressão. Assim, nasce o Partido dos Trabalhadores, inspirado por figuras como Marcelio Bonfim, e Milton Coelho, que foram perseguidos e presos nos anos 60. Acreditávamos na essência do PT e na ideia de um socialismo onde todos são tratados igualitariamente, confiávamos na esperança de um novo dia e na força da nossa juventude.

Já tocava meu violão e jogava handebol, sem ter plena noção da ditadura em que vivíamos. No entanto, bastou compor minha primeira canção para sentir na pele a censura. Pressionaram-me para explicar a letra, exigindo justificativas para cada palavra. Ali, compreendi o que era não ter liberdade de expressão. De repente, com 16 anos, fui taxado de comunista, acusado de querer derrubar o governo militar. Mas minha mãe me ensinou que somos seres únicos, vivendo em comunidade, e que o que é bom para um deve ser bom para todos. Assim, minha militância nunca foi estritamente partidária, mas sim musical e cultural. Cantava no DCE, nos movimentos estudantis e em campanhas políticas do PT, MDB e PDT, muitas vezes de graça. Fui filiado ao PT por muitos anos, até me desfiliar por discordar de algumas posturas. Mas nunca deixei de acreditar na essência que motivou sua criação.

Nos anos 80, já casado e com filhos, sempre que possível me reunia com amigos no Bar do China, no Barbudos e, vez ou outra, no Manequito. Foi quando Marelinho Barreto me chamou: “Neu, tem um barzinho perto de casa que está movimentando a juventude, vamos lá!”. Assim conheci o Gosto Gostoso, um bar com música ao vivo, cerveja gelada da Antarctica e uma diversidade humana impressionante. Lá, estudantes, jornalistas, políticos, vereadores, prefeitos, deputados, senadores, trabalhadores, empresários, anarquistas, comunistas, socialistas, burgueses e plebeus compartilhavam ideias e utopias. Como diria Albano Franco, “todos se conheciam, e muitos eram parentes”.

O Gosto Gostoso, comandado por Fernandinho e Valfredo, tornou-se um espaço de liberdade e democracia. Lá, só havia uma regra: não se sentava sem pedir uma cerveja ou uma maniçoba. O palco era dividido entre artistas locais e nacionais, como Xangai, Elomar, Vital Farias, Doca Furtado, César, Chico Queiroga, Sena, Sergival, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz e Ismar Barreto.

As mesas eram cenários de intensos debates sobre política, sociedade, cultura e, claro, sexo, drogas e rock and roll. Era comum ver Jackson Barreto e a cúpula do MDB articulando estratégias, enquanto Ismael Silva buscava votos. Figuras como Zé Eduardo Dutra, Céu, Marcilio Bomfim, Chico Buxinho, Wellington Paixão, Renato Brandão, Marcelo Ribeiro, Márcio Macedo, Amaral Cavalcante, Cleomar Brand, Eugenio Nascimento, Ofélia, Bel, Suzy e Romualdo circulavam entre as mesas. Nomes de peso da política sergipana, como Valadares, Carlos Alberto Menezes, César Brito, Almeida Lima, Wellington Mangueira e Carlos Pina, passavam por lá. E, vez ou outra, encontrávamos Luiz Inácio Lula da Silva, Vicentinho, José Dirceu e até Gilberto Freire. O empresário Raimundo Juliano, além de frequentador assíduo, era também fornecedor do bar.

O Gosto Gostoso era um espaço de respeito à diversidade e à liberdade. Quem não suportava a igualdade e a democracia simplesmente não se sentia à vontade ali. Os infiltrados eram rapidamente identificados e, por conta própria, se afastavam, temendo se “contaminar” com a energia vibrante de liberdade que emanava daquele pequeno grande espaço.

O bar foi um refúgio e uma trincheira para muitos de nós. Sem o Gosto Gostoso, talvez nossa caminhada tivesse sido mais difícil e dolorosa. Mas lá, recarregávamos nossas forças com maniçoba, caldinho de feijão e, acima de tudo, com boas conversas e aprendizados.

Por isso, estamos buscando essa memória, registrando-a para as futuras gerações, para que saibam que foi importante e saudável participar ativamente das decisões do país. Mais do que conversas digitais, é fundamental defender a democracia, a liberdade e a soberania no corpo a corpo, com presença e ação.

Quem viveu, participou, aprendeu ou tem histórias para contar sobre o Gosto Gostoso, compartilhe conosco! Teremos imenso prazer em registrar essas memórias no livro “O Gostoso do Gosto Gostoso”. Vamos juntos preservar essa história de resistência e celebração da liberdade!

Contato: (kabaveio6@,Gmail.com) ou (irineufontes@gmail.com)