Sempre compreendi que as políticas culturais são essenciais para qualquer sociedade, permeando todos os setores e desempenhando um papel crucial na Educação, Saúde, Segurança, Meio Ambiente e, especialmente, no Turismo. Desconfio de gestores que tratam a cultura como um mero coadjuvante, com discursos longos e vazios, sem ações concretas, como minha bisavó Noemi diria: – Discurso para boi dormir. A cultura é e sempre será protagonista.

Marx destacava o papel central da cultura para a compreensão de qualquer tipo de desenvolvimento, principalmente o econômico. Devemos visualizar a cultura como um farol que ilumina o caminho para novas formas de expressão e convivência, a fim de construir soluções culturais baseadas no conhecimento disponível, tão necessárias para o nosso estado rico em diversidade cultural.

O 49º Encontro Cultural em Laranjeiras foi o resultado de uma semente plantada em 1973 por Ione Sobral e seu marido José Sobral. Inicialmente, uma Quermesse para arrecadar fundos evoluiu para a Festa da Cultura, tornando-se com Luiz Antônio Barreto no Encontro Cultural de Laranjeiras. O objetivo era transformar a cidade na Capital do Folclore do Brasil, um espaço de resistência na defesa do folclore, de seus mestres e brincantes.

A resistência, concebida pelos fazedores dessa cultura, tem sido a força motriz ao longo desses 49 anos. Nomes como Luiz Antônio Barreto, Aglaé Fontes, Beatriz Gois, Jackson da Silva Lima, Braulio do Nascimento, Theo Brandão, Severino Lucena, entre outros, contribuíram para construir essa ideia que transcende fronteiras, recebendo pesquisadores, escritores e folcloristas de todo o mundo.

Ao longo dessas décadas, o Encontro Cultural enfrentou desafios financeiros, de gestão e falta de interesse econômico, mas a resistência sempre esteve presente. A tentativa de transformar o evento com a inclusão de atrações midiáticas, primeiro da MPB e agora da MPM, teve resultados controversos, afastando pesquisadores e gerando críticas.

A atual mudança de tática, esvaziando o evento, é preocupante. O simpósio, outrora vibrante, agora conta com poucos apaixonados. Grupos importantes enfrentam dificuldades sem apoio, mudanças nos ritos influenciadas pelo poder religioso e competição pelo poder cultural da cidade. A academia, essencial para os estudos culturais, parece ausente nos dias do Encontro.

O ponto culminante das festividades, a coroação da Rainha das Taieiras, revelou-se um completo descaso. Os grupos enfrentaram dificuldades para reunir seus componentes, muitos dos quais optaram por comparecer aos shows, impossibilitando sua participação nas apresentações. A concorrência acirrada agravou ainda mais a situação. A gestão não providenciou acompanhantes para os grupos, deixando de oferecer a atenção e infraestrutura mínimas necessárias nas ruas da cidade.

A saudação dos grupos à beira do Rio Cotinguiba foi prejudicada pela presença de tapumes. Além disso, grupos alinhados à gestão realizaram louvação na Igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário antes da missa e da coroação. A missa, iniciada às 10:30 em meio a um calor intenso, ocorreu com uma notável ausência da população, que historicamente marcava forte presença. Muitas regras e ritos foram alterados de acordo com a conveniência do pastor, resultando em uma cerimônia longa e bela que, infelizmente, afastou e esvaziou ainda mais o reduzido público presente.

As ruas da cidade, que costumavam vibrar com a dança e o canto dos grupos, encontravam-se agora vazias, desprovidas da energia que caracterizava os eventos anteriores. A ausência dos grupos cantando e dançando pelas ruas de pedra, dos fotógrafos e turistas evidencia a perda do atrativo do evento para o público externo.

Este quadro lamentável reflete não apenas o descompromisso com a essência cultural do Encontro, mas também a negligência em preservar a tradição e a participação da comunidade. Urge uma reflexão profunda sobre as decisões que estão minando a vitalidade do evento e comprometendo sua autenticidade, tornando necessário repensar as práticas adotadas para garantir um futuro mais promissor para o Encontro Cultural de Laranjeiras. Apesar dos desafios, como disse Zangallo, “vocês vão ter que engolir”, pois a resistência persiste na rica tradição da Capital da Cultura Popular.