Olá gente boa,
Quereu, quereu — é escolha,
Não é grito sem razão,
É o povo dizendo alto
Que não larga sua mão.
Tradição não pede licença,
Exige respeito e chão.
Se não quereu, guenta eu,
Que a cultura vai passar,
Com Mestre, canto e terreiro,
Sem pedir pra se explicar.
Quem tenta calar a raiz
Vai ouvir ela gritar.
O caminho é compromisso,
Não discurso de ocasião:
Ou se governa com o povo
Ou se enfrenta a tradição.
Quereu, quereu — seguimos.
Se não quereu… guenta eu.
Assim encerramos mais uma edição do Simpósio do Encontro Cultural de Laranjeiras — e alguém logo pergunta: “Oxé, mas o Encontro não vai até domingo?” Vai, deveria ir. Mas enquanto a Igreja e a falta de diálogo e interesse da gestão municipal não devolverem a coroação das Taieiras para o domingo — o último dia do Encontro —, seguimos encerrando o Encontro no sábado. É preciso lembrar aos desavisados: o Encontro começa pelo Simpósio. Em suas 51 edições, o Simpósio e o Folclore são o coração do Encontro. Todo o resto foi sendo incorporado ao longo do tempo, de forma justa e necessária. O que não é justo — e é profundamente irresponsável — é querer acabar com a tradição. Infelizmente, há gestões que sabem fazer isso muito bem.
Com mesas temáticas fundamentais, reunindo Mestres da Cultura Popular, agentes culturais, pesquisadores, folcloristas e os maiores especialistas em Folkcomunicação do Brasil, realizamos o 51º Simpósio do Encontro Cultural de Laranjeiras, com a realização da Secretaria Especial de Estado da Cultura, Conselho Estadual de Cultura, Funcap, Seduc e Secom.
A comissão organizadora foi formada por Fernando Aguia, José Rivaldavio, Luiza Nascimento, Daniele dos Anjos, Aglaé Fontes, Sueli Pereira, Leomax Célio e Neu Fontes na coordenação. O resultado foi um sucesso de organização e realização, reconhecido por quem esteve presente.
É impossível falar desse êxito sem destacar que a presença firme e participativa do Secretário de Estado da Cultura, Valadares Filho, foi crucial para consolidar a confiança nas ações do Simpósio. Sua postura, escuta e compromisso institucional deram segurança política e administrativa à equipe, aos conselheiros, aos pesquisadores e, sobretudo, aos Mestres e brincantes — reafirmando que o Governo do Estado trata o Encontro com a seriedade e o respeito que ele merece.
Um Simpósio dessa dimensão não se faz sozinho. A participação ativa do Conselho Estadual de Cultura, sob a presidência de Pascoal Maynard, com o vice-presidente Fernando Aguia e todos os conselheiros, foi decisiva. Soma-se a isso uma equipe eficiente e experiente, acostumada a tarefas árduas e estressantes. Nosso reconhecimento a Helber Matheus, Grazzi Coutinho, Barbara Babi, Ellen, Caritas, Ângelo, Vandico, Stefani, à equipe do gabinete do secretário e a toda a equipe da Secult e da Funcap, e os amigos Negão e Fernandinho.
Nesta edição, demos passos importantes na renovação. Trouxemos jovens capazes, com disposição e preparo para sustentar essa empreitada em defesa da Cultura de Sergipe, especialmente da Cultura Popular e do Folclore. Eles dividiram as mesas com referências nacionais e internacionais como Osvaldo Trigueiro, Severino Lucena, Aglaé Fontes, Isa Trigo, Marlei Sigrist (presidente da Comissão Nacional de Folclore), Beatriz Góis Dantas, Fernando Aguia, Eliomar Mazoco e Lindolfo Amaral. Entre os jovens que já se mostram fundamentais para a continuidade do Simpósio, destacam-se Cecília Cavalcante, Nino Karvan, Hot Black, Andiolli Costa, Vagner Ribeiro e o grande artista Ciel, entre tantos outros que contribuíram de forma brilhante.
Os Mestres e brincantes, razão de existir do Simpósio, estiveram presentes com força e protagonismo: a especial e competente Mestra Bárbara; José Rolinha, hoje um dos mais importantes Mestres do Brasil; Maria Ione, com sua reconhecida capacidade de gerir e comandar os grupos de Lagarto; Dona Josefa, do Samba de Roda, que deu um verdadeiro show de fala e canto, Mestra respeitada de Simão Dias; e foi também no Encontro que se revelou Mestre Neilton, do São Gonçalo, que surge como nova liderança do Folclore Sergipano. Sabemos: ele vai longe e será ponto de articulação, negociação e organização da nossa cultura popular.
Desde a criação do Encontro, o consenso sempre foi construído com conversa, embate e respeito. A cada ano, precisamos avançar mais: trazer a juventude, novos pesquisadores, folcloristas e amantes da cultura popular. Mas é igualmente essencial dar ainda mais protagonismo aos Mestres e fazedores dessa cultura milenar, aproximando estudantes e professores, para que a escola — com sua força cotidiana — nos ajude a promover e difundir nossa identidade. Em tempos de gestões autocratas e imbeciloides, que insistem em transformar cidades em arenas de cultura midiática e economicamente viável apenas para alguns, é preciso dizer: isso até pode coexistir, desde que não destrua nossa identidade.
Com o tema de 2027 — “Renovando a Tradição: Se Não Voltar Esse Ano, Para o Ano Eu Vou Voltar” —, o Simpósio propõe colocar em pauta a Cultura Popular, os Mestres e os caminhos da tradição no tempo presente, para que no futuro não precisemos discutir apenas o que ficou na memória. Vamos homenagear Mestre Deca e o Grupo Cacumbi, exemplo de quem soube aproveitar políticas públicas, se organizar e conquistar autonomia. Estão no horizonte debates sobre ancestralidade, protagonismo dos Mestres e brincantes, gestão cultural como aliada da tradição e sustentabilidade dos grupos e das cidades.
Quereu, quereu. Se não quereu, aguente eu.
Por mais 50 anos.
Eu cheguei primeiro — e vou ficar quando você passar.
Pois nasci antes da moda — e não morrei com ela.
Viva o Encontro Cultural de Laranjeiras!
