Olá, gente boa,

Muitas vezes já contei por aqui como fui parar na gestão pública da cultura. Hoje, olhando pelo retrovisor da vida, tenho certeza de que era um caminho inevitável.

O processo não foi simples. Como artista, vivi muitas situações que me faziam acreditar que as coisas poderiam ser diferentes. Quando assumi meu primeiro cargo público, como Diretor Executivo da FUNDESC, no início dos anos 1990, precisei aprender a transformar sonhos em projetos, ideias em ações e convicções em políticas públicas.

A caminhada foi longa, intensa e, por vezes, sofrida. Sempre existia alguém desconfiado das minhas opiniões, propostas ou projetos. Muitos aconselhavam os gestores com quem trabalhei:

— Neu é artista, tenha cuidado. Você sabe como artista é sonhador.

Foi então que ouvi uma das lições mais importantes da minha vida, dita pelo meu mestre Luiz Antônio Barreto:

— Sua maior qualidade é ser um sonhador que luta para realizar os próprios sonhos.

Guardei essa frase para sempre. Talvez porque ela também definisse o próprio Luiz Antônio. E certamente define a mim.

Ao mesmo tempo, alguns colegas artistas viam minha ida para a gestão pública como uma forma de obter vantagens. Nunca me preocupei com isso. Antes mesmo do primeiro cargo público eu já fazia dezenas de shows por ano, gravava discos e produzia projetos culturais. Conhecia o palco, mas também conhecia os bastidores.

Estive muitas vezes do outro lado do balcão. Sei como os artistas são tratados. Sei das dificuldades de quem escolhe viver da cultura. Por isso, nunca enxerguei a gestão como poder. Sempre enxerguei como ferramenta de transformação.

Minha escolha profissional foi a cultura. Poderia ter seguido outros caminhos, mas escolhi essa estrada cheia de obstáculos, tristezas e alegrias. Uma estrada muitas vezes mal cuidada, mas adornada por flores, cheiros, sabores e afetos que deram sentido à minha caminhada.

Ao longo desses 46 anos tive a honra de ocupar cargos que me orgulham profundamente. Fui diretor do Teatro Atheneu, do Teatro Tobias Barreto e participei da construção da história do Complexo Cultural Gonzagão, espaço que vi nascer do sonho de um apaixonado pela música e pela cultura sergipana. Foi ali que, há trinta anos, estreava a Ópera do Milho, espetáculo que se transformaria em um dos maiores símbolos dos festejos juninos de Sergipe.

A convite da prefeita Ione Sobral, fui secretário Municipal de Cultura de Laranjeiras. Foram cinco anos fundamentais para minha formação como gestor. Naquela cidade construímos um dos primeiros Sistemas Municipais de Cultura do Brasil, referência para o próprio Ministério da Cultura. Criamos também a Lei Mestres dos Mestres, iniciativa pioneira que garantiu reconhecimento permanente aos mestres e mestras da cultura popular.

Mais tarde tive a honra de ser secretário de Estado da Cultura, tornando-me o primeiro servidor de carreira a assumir o principal cargo da cultura sergipana. Fui também presidente da Funcaju e tive a oportunidade de representar Sergipe nacionalmente como presidente do Fórum dos Dirigentes Estaduais de Cultura e vice-presidente dos Fóruns Nacionais das Capitais e dos Estados.

Tudo isso não aconteceu por acaso. Foi resultado de uma jornada construída com trabalho, diálogo e, principalmente, compromisso com a cultura.

Mas confesso que, depois de festivais, prêmios, medalhas, homenagens e títulos, fui surpreendido nesta semana por um reconhecimento que me emocionou profundamente.

Recebi o convite do Ministério da Cultura, por meio do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT), da Universidade Federal da Bahia, para participar de um importante projeto editorial que registrará a história do Ministério da Cultura, reunindo pesquisadores, gestores e personalidades que ajudaram a construir as políticas culturais brasileiras, foram escolhidos 40 personalidades da cultura brasileira.

Ao justificar o convite, os organizadores escreveram:

“Após amplo debate, a coordenação do projeto considerou seu nome imprescindível como uma relevante personalidade cultural a ser ouvida. Considerando a importância de sua atuação para o campo da cultura, entendemos que sua participação é fundamental para a construção deste registro.”

Não tenho palavras para agradecer essa lembrança.

Sempre compreendi o meu papel dentro desse processo. Mas sou filho de Sergipe, o menor estado da Federação, uma terra imensa em cultura, talento e criatividade. Por isso, recebo esse convite não apenas como um reconhecimento pessoal, mas como uma homenagem a todos os artistas, mestres, produtores, gestores e fazedores de cultura que ajudaram a construir a identidade cultural do nosso estado.

Nunca neguei fogo quando o assunto é defender a cultura. E não será agora.

Seguirei fazendo o que sempre fiz, tentando ser chama para iluminar os olhos e a estrada da cultura: sonhando, trabalhando e lutando para que a cultura brasileira ocupe o lugar que merece na construção de um país mais justo, democrático e humano.