Olá, gente boa.

Dizem que todo brasileiro é técnico de futebol. Confesso que também sempre dei meus pitacos.

Meu esporte preferido sempre foi o handebol, mas o futebol ocupou um lugar especial na minha vida. Joguei de lateral-esquerdo e meia-esquerda nas equipes do Salesiano e também no juvenil do Sergipe. Nunca fui um craque, mas era bom marcador, gostava de criar jogadas e tinha prazer em servir os companheiros com bons passes.

Minha paixão pelo futebol começou cedo.

No dia 9 de julho de 1969, meu pai me levou à inauguração do Batistão. Foi o primeiro jogo de futebol que assisti na vida. E que estreia! A Seleção Brasileira enfrentou a Seleção Sergipana e vi de perto Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Toninho Guerreiro, Pelé, Rildo, Edu… uma constelação de craques. A Seleção venceu por 8 a 2, mas o resultado era o menos importante. O espetáculo estava dentro de campo.

Naquele dia nasceu um torcedor apaixonado.

Passei a torcer pelo Sergipe, pelo Flamengo — herança do meu pai — e, principalmente, pela Seleção Brasileira.

Essa paixão ainda ganhou um ingrediente especial graças ao próprio meu pai, Irineu Fontes, conhecido por muitos como o “Sirineu da televisão sergipana”. Foi ele quem trouxe o primeiro sinal de televisão para Sergipe e idealizou a TV Sergipe S/A.

Às vésperas da Copa de 1970, toda a estrutura da emissora estava pronta, mas a autorização oficial do CONTEL ainda não havia sido concedida. Meu pai tomou uma decisão ousada: ligou os equipamentos, colocou a estação no ar, trancou as portas da repetidora no Morro da Piçarra e fez com que os sergipanos assistissem à conquista do tricampeonato mundial. Foi um ato de coragem que ajudou a escrever um capítulo importante da comunicação em Sergipe.

Talvez por isso eu tenha vivido cada Copa do Mundo como quem acompanha um pedaço da própria história.

Vi Pelé, Rivellino, Gérson, Jairzinho e Tostão tratarem a bola como poucos homens conseguiram tratar. Era futebol transformado em arte.

Em 1974 veio minha primeira grande decepção. Perdemos para a fantástica Holanda do chamado Carrossel Holandês. Doeu, mas fazia parte do jogo.

Em 1978 surgiu uma seleção renovada, comandada por Cláudio Coutinho. Leão, Toninho Baiano, Oscar, Amaral, Edinho, Batista, Toninho Cerezo, Dirceu, Gil, Zico, Roberto Dinamite e ainda Nelinho, Reinaldo e Jorge Mendonça. Um elenco fortíssimo que acabou marcado pela enorme polêmica envolvendo a goleada argentina sobre o Peru, resultado que até hoje desperta suspeitas e discussões entre os amantes do futebol.

Então chegou 1982.

Para mim, a maior seleção brasileira que vi jogar.

Telê Santana reuniu um time que encantava o mundo. Leandro, Oscar, Luizinho, Júnior, Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico, Éder e Serginho Chulapa representavam o futebol brasileiro em sua forma mais bonita: ofensivo, criativo e inteligente.

Perdemos para a Itália.

Curiosamente, nunca senti vergonha daquela derrota. Aquela equipe perdeu jogando o futebol que acreditava. Há derrotas que dignificam muito mais do que certas vitórias.

Em 1986 vieram os problemas físicos de Zico e Falcão, a ausência de Leandro e a eliminação nos pênaltis diante da França.

Em 1994 conquistamos o tetracampeonato. Era uma equipe muito diferente das anteriores. Menos brilhante, mais competitiva. Romário e Bebeto decidiram na frente, enquanto um meio-campo extremamente disciplinado garantia o equilíbrio necessário.

Em 1998 chegamos novamente à final. Ronaldo Fenômeno viveu um episódio dramático antes da decisão, e aquela partida contra a França pareceu estranha do início ao fim.

Em 2002 veio nosso último título mundial.

Felipão montou um time competitivo que tinha um diferencial extraordinário: Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. Os três “Rs” fizeram uma Copa inesquecível e devolveram ao Brasil o lugar mais alto do futebol mundial.

Depois disso, a impressão é de que algo se perdeu.

A Seleção deixou de parecer um projeto esportivo e passou, muitas vezes, a transmitir a sensação de ser administrada mais pelos interesses do mercado do que pelo mérito esportivo.

Os jogadores passaram a chegar das grandes ligas europeias com pouco tempo de treinamento coletivo. Os técnicos mudavam constantemente. A identidade desapareceu. A camisa, que antes parecia pesar de orgulho, passou a pesar de responsabilidade.

O resultado todos conhecemos.

Vieram eliminações sucessivas, culminando no doloroso 7 a 1 diante da Alemanha, em pleno Brasil.

Confesso que, depois daquele dia, nunca mais acompanhei a Seleção com o mesmo entusiasmo.

Continuo sendo brasileiro.

Continuo torcendo.

Mas hoje torço muito mais pela reconstrução do futebol brasileiro do que pelo resultado de uma partida.

O problema nunca foi perder.

O problema é perder sem identidade.

Perder sem alma. Perder sem coragem.

Futebol sempre foi mais do que onze jogadores correndo atrás de uma bola.

É organização. É planejamento. É liderança. É compromisso.

Quando essas virtudes desaparecem, nem a camisa mais pesada do mundo consegue vencer sozinha.

Talvez a maior lição que o futebol possa nos ensinar seja justamente esta: nenhuma instituição sobrevive apenas da sua história.

É preciso competência, responsabilidade e respeito para honrar aquilo que tantas gerações construíram.

Está na hora de acordarmos.

No futebol e na vida, tradição não ganha jogo.

Quem ganha é trabalho sério.

Não precisamos procurar os culpados dentro de campo.

Eles estão, muitas vezes, do lado de fora.

Enquanto não entendermos isso, continuaremos cobrando de quem joga aquilo que deveria ser exigido de quem dirige.

No futebol, como na vida, não basta saber cobrar.

É preciso saber escolher.

Quem vota mal quase sempre acaba reclamando da gestão que ajudou a colocar no comando.

A camisa pode mudar. A urna também.

Mas a responsabilidade de escolher bem será sempre nossa.