José Carlos Mendonça, desde criança, ouvi falar dele em casa. Na verdade, o que mais ouvia era o seu nome artístico, Pinga. Minha mãe era uma fã ardorosa de Roberto Carlos desde os tempos da Jovem Guarda, e um dia meu pai chegou em casa com uma novidade. Ele disse: “Susete, comprei dois ingressos para irmos ao show do Roberto Carlos no Charles Moritz. Quem está empresariado é o Pinga, aquele do programa de rádio.” Isso aconteceu em 1966, quando eu tinha apenas seis anos de idade.

A partir desse momento, eu ouvia falar muito sobre Pinga, e a cada show que ele organizava, todos comentavam: “Só o Pinga tem coragem de trazer esses artistas.” Ele trouxe nomes como Renato e Seus Blue Caps, Martinho da Vila, Nilton Cesar, Jerry Adriane, Luiz Gonzaga, entre tantos outros. Pinga ficou gravado na minha memória de criança como alguém muito importante.

Conheci sua família antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente. Sua irmã, Dona Maria José, e seu irmão, Bosco Mendonça, político que foi exilado e, com a queda do AI-5, retornou a Sergipe e se elegeu Deputado Estadual. Dona Maria tinha uma locadora de vídeos na Avenida Saneamento, e eu costumava alugar filmes lá.

Nos anos 80, a Fundesc (Fundação Estadual de Cultura), sob a liderança de Fernando Lins de Carvalho, adquiriu um ônibus com uma estrutura de palco, camarim e poltronas para viagens pelo estado, promovendo a cultura e seus artistas. A equipe da Fundesc, usou esse instrumento para criar o “Projeto Pé na Estrada,” que levava uma trupe de artistas composta pelo Grupo Cataluzes, Paulo Lobo, Cesar, Joésia Ramos, Amorosa e Chico Queiroga, com a coordenação de Sucupira. Eles começaram com um show em Aracaju, depois em Maceió, e foram subindo até chegar em Recife.

Eles costumavam montar o palco usando o ônibus como base em praças da cidade. Acompanhando a trupe, havia um caminhão com o sistema de som de Ricardo Sá. A divulgação era feita por meio de carros de som e rádios locais, e o show ocorria no final da tarde ou início da noite. Ao chegar em Recife, a produção que chegara à cidade antes do grupo informou que havia problemas com a prefeitura, que não tinha liberado a praça para o evento, e isso aconteceu um dia antes do show. Pela manhã, na Fundesc, já estávamos cientes da situação, quando surgiu uma ideia: “Vamos pedir apoio ao Pinga.” Assim fizemos, conseguimos o telefone dele com Dona Maria José e ligamos. Ele prontamente disse: “Mande os meninos aqui.” Em menos de 20 minutos, e pelo telefone, tudo já estava resolvido e liberado, e eles ainda receberam apoio da equipe do Pinga, além de desfrutarem de uma festa em sua propriedade na Aldeia.

Conheci pessoalmente Pinga nos anos 80, quando estava gravando nos estúdios Estação do Som de Tovinho, um músico e arranjador pernambucano, atualmente trabalhando com Alceu Valença. Ele ouviu minha voz e entrou no estúdio para falar com Tovinho. Ele ficou atento e Tovinho disse: “É seu conterrâneo.” Ele sorriu e acenou para mim, marcando o início de uma relação de aprendizado com um dos grandes produtores e empresários artísticos do país. Sempre que ia a Recife, visitava seu escritório em Boa Viagem, onde ficava impressionado com sua capacidade de trabalho e memória. Ele coordenava e organizava diversos shows simultaneamente em todo o Brasil, conhecendo de cabeça os números de reservas de voos, detalhes dos contratos e, principalmente, as peculiaridades e manias dos artistas, além de saber como resolver qualquer problema.

Nos anos 90, fui até ele para apresentar o projeto Ponta de Mar, um Festival grandioso e ousado, o primeiro em Sergipe, feito em parceria com Jorgival Porto e NossaAgencia. Ao mostrar o projeto, ele ficou entusiasmado e disse: “Gosto disso, mesmo que seja em cima da hora, não poderei entrar com vocês neste ano, mas no próximo serei um sócio do Festival.” Mesmo assim, ele contribuiu com o Festival ao trazer Zeze di Camargo e Luciano, no auge do sucesso com “É o Amor”. Com o passar dos anos, nossos encontros ficaram mais raros, e infelizmente, não tive a oportunidade de conversar e aprender com ele, ouvindo suas histórias incríveis e sábias.

José Carlos Mendonça, conhecido como Pinga, com mais de 50 anos de carreira artística, realizou mais de 15 mil shows ou espetáculos ao longo de sua trajetória. Como ele costumava dizer: “Eu fazia shows nos anos 60 e 70, hoje faço espetáculos.” Trabalhou com grandes nomes como Elba Ramalho, com mais de 400 shows, e Roberto Carlos, com mais de 250 shows, além de centenas de artistas nacionais e internacionais. Pinga deixa um legado de trabalho árduo, empreendedorismo, honestidade, criatividade, determinação, coragem, talento e alta qualidade na produção artística brasileira. Em Sergipe, ele se tornou mais um filho importante da terra, embora a maioria das pessoas talvez não o conheça. Como resposta, ele compôs essa marchinha de carnaval “Sergipano Bom” que diz: “Para ser bom sergipano, é preciso ser bacana, não dá bola para o azar. É torcer pelo Sergipe, bater papo lá no chic, ir à praia e farrear. Sergipano bom, sergipano legal, tem que gosta de praia, futebol e carnaval.” Vá em paz!