Olá, gente boa,

Tem espetáculo que nasce para cumprir temporada. Outros nascem para atravessar gerações. A Ópera do Milho pertence a esse segundo grupo. Ela não é apenas uma peça junina, um musical popular ou uma grande montagem teatral. Ela é memória viva. É identidade. É Sergipanidade em estado bruto. É o povo sergipano vendo a si mesmo no palco, cantando suas dores, seus medos, sua fé e sua alegria.

Quando olho para trás e vejo que já se passaram 30 anos desde aquela estreia no Gonzagão, em 1996, confesso que me bate um orgulho danado. Não só pela obra em si, mas por tudo que ela representa para a cultura de Sergipe. Porque a Ópera do Milho não nasceu pronta. Ela nasceu da inquietação, da coragem e da vontade de fazer algo grande sem deixar de ser popular.

Naquele tempo eu trabalhava na Secretaria de Estado da Cultura, sob o comando do inesquecível Luiz Antônio Barreto, um homem que entendia a cultura não como enfeite de governo, mas como ferramenta de pertencimento. Foi ele quem nos ensinou que Sergipe precisava olhar para si mesmo e reconhecer sua própria grandeza. E talvez a Ópera do Milho seja uma das maiores traduções desse pensamento.

A ideia inicial era montar um grande espetáculo junino inspirado em tradições nordestinas. Vieram dramaturgos espanhóis e portugueses, oficinas, experiências cênicas, máscaras, danças e toda uma atmosfera de criação coletiva no Centro de Criatividade. Foi aí que entraram artistas fundamentais para que a Ópera do Milho encontrasse sua estética e sua alma: o dramaturgo e diretor espanhol Moncho Rodríguez, a também dramaturga, diretora e atriz Antonia Bueno e a genial artista plástica Cristina Cunha, além dos ensinamentos e talento da Professora Aglaé Fontes.

Moncho trouxe um olhar contemporâneo, inquieto e profundamente humano para o espetáculo. Transformou o palco num território entre o popular e o poético, conduzindo atores, músicos e brincantes numa linguagem ousada para aquele tempo. Cristina Cunha, com sua sensibilidade única, criou máscaras que se tornaram um dos símbolos da obra. Máscaras inspiradas no teatro grego, mas moldadas com a emoção e o barro do Nordeste, capazes de traduzir dor, alegria, sarcasmo, religiosidade e encantamento. Juntos, ajudaram a construir uma estética absolutamente original para a cena cultural sergipana.

Mas algo ainda me inquietava profundamente: como falar de Sergipanidade sem mergulhar verdadeiramente na alma do povo sergipano?

Foi ali, vendo os atores ensaiarem, acompanhando os movimentos criados por Moncho e ouvindo as inquietações de Aglaé D’Ávila Fontes, que comecei a tocar um violão quase sem perceber. E daquele improviso nasceu a primeira música do espetáculo. Nascia também, sem que ninguém entendesse ainda a dimensão, a alma musical da Ópera do Milho.

Chamei meu irmão de estrada Rubens Lisboa e, em dois dias, compusemos dezesseis canções. Dezesseis cenas cantadas. Dezesseis retratos da nossa gente. Era uma ópera popular nordestina, feita com cheiro de milho assado, fumaça de fogueira, suor de quadrilha junina e lágrimas escondidas atrás do riso.

A história de Mariazinha parecia simples: uma jovem grávida, um noivo fujão, a pressão da família, o falatório da cidade e os santos juninos observando tudo entre milagres e castigos. Mas ali existia muito mais. Existia a denúncia de uma sociedade que sempre julgou mais a mulher do que o homem. Existia a crítica ao peso da honra sobre os ombros femininos. Existia a fé popular como abrigo diante da crueldade do mundo.

E talvez seja exatamente por isso que a Ópera do Milho continua viva trinta anos depois.

Porque infelizmente o Brasil avançou muito pouco em algumas questões. Ainda vemos mulheres sendo julgadas, condenadas moralmente, violentadas emocionalmente e responsabilizadas sozinhas pelas tragédias que vivem. A peça continua atual porque o preconceito também continua atual.

Mas a Ópera do Milho nunca foi apenas denúncia. Ela também é celebração. Celebração da nossa música, do nosso teatro, das nossas tradições e do poder transformador da arte popular.

Ali estavam atores profissionais, estudantes, costureiras, músicos, brincantes, quadrilhas juninas e artistas do povo. Mais de cem pessoas construindo juntas um espetáculo que muitos consideravam impossível. Enquanto alguns queriam transformar aquilo numa ópera clássica europeia, nós insistíamos em colocar zabumba, sanfona, voz popular e cheiro de Nordeste. E foi essa mistura que deu verdade ao espetáculo.

A Ópera do Milho provou que não precisamos copiar ninguém para sermos grandiosos.

 

Ela mostrou que Sergipe pode produzir arte de excelência sem abrir mão da sua identidade. Mostrou que cultura popular não é menor, não é atrasada e não é folclore decorativo para turista fotografar. Cultura popular é linguagem de resistência. É patrimônio vivo. É economia. É pertencimento.

E digo sem medo de errar: a Ópera do Milho é uma das maiores obras já produzidas na história cultural de Sergipe.

Não por vaidade minha ou de qualquer pessoa envolvida. Mas porque ela conseguiu algo raro: transformar tradição em contemporaneidade sem perder a essência. O público de hoje continua rindo, chorando, cantando e se emocionando exatamente como aconteceu em 1996. Isso não é acaso. Isso é força artística verdadeira.

Hoje, aos 30 anos, a Ópera do Milho retorna ainda mais madura e pulsante. O espetáculo ganhou novos arranjos, novas leituras musicais e novas possibilidades cênicas, sem perder a essência popular que sempre foi sua maior força. A direção artística segue nas mãos talentosas de Lindolfo Amaral, que ajudou a consolidar a obra ao longo da sua trajetória. A produção é do histórico Grupo Imbuaça, um dos maiores patrimônios do teatro sergipano, e eu sigo com a direção musical dessa ópera popular que ajudou a moldar minha própria caminhada artística.

A remontagem de 2023 já havia provado isso. Depois de quase duas décadas fora de cena, o espetáculo voltou maior, mais maduro e ainda mais necessário. Plateias lotadas. Jovens descobrindo a obra pela primeira vez. Gente simples se reconhecendo no palco. Crianças cantando músicas compostas há quase trinta anos. Isso é patrimônio cultural vivo. Isso foi percebido pela então presidente da FUNCAMP, Amorosa e pelo Governador Fabio Mitidieri e pelo atual presidente Gustavo Paixão.

E talvez tenha chegado a hora de entender que a Ópera do Milho já ultrapassou o limite de um espetáculo junino.

Ela precisa voar mais alto.

Precisa circular pelo Brasil. Precisa ser registrada, documentada, preservada e transformada em política permanente de Estado. Precisa ganhar audiovisual, publicação, acervo, escola de formação, intercâmbio internacional e reconhecimento nacional. Porque enquanto muitos estados importam atrações milionárias para parecer modernos, Sergipe já possui uma obra original, popular e profundamente brasileira pronta para dialogar com o mundo.

A grande pergunta é: nós teremos coragem de compreender o tamanho do que criamos?

A cultura sergipana não pode continuar vivendo apenas de memória afetiva e aplauso passageiro. Precisamos parar de tratar nossos grandes patrimônios como eventos temporários. A Ópera do Milho não pertence apenas aos festejos juninos. Ela pertence à história cultural do Brasil.

E se hoje o País do Forró tem uma obra capaz de unir teatro, música, tradição popular, crítica social e identidade nordestina em um único espetáculo, então está mais do que na hora de pararmos de pedir licença.

A Ópera do Milho já nasceu grande.

Agora precisa apenas abrir as asas.