Olá, gente boa,

Na minha decisão de não acompanhar o que meus pais tinham planejado para minha vida e escolher a música como forma de viver e me sustentar, enfrentei muitas dificuldades nessa empreitada. Não era uma escolha segura, nem confortável. Era, acima de tudo, uma escolha de risco — e de paixão.

Casei logo depois, em 1981, dias após realizar meu primeiro show profissional, “Entre Amigos”, um espetáculo que ajudou a mudar o paradigma da produção musical em Sergipe. Ali, ainda jovem, compreendi que a arte podia ser um caminho. Mas também percebi, muito cedo, que esse caminho seria longo, duro e sem garantias.

Cantei, toquei, compus e ralei muito até entender que apenas cantar não garantiria à minha nova família — que começava com a chegada da minha primeira filha — a dignidade e o conforto que eu mesmo tive na vida. Era preciso ir além do palco, sem abandonar o palco.

Foi então que busquei soluções dentro da minha própria escolha. Eu queria, precisava e desejava trabalhar com arte e cultura, de preferência com a minha música. Não queria sair desse território simbólico que já tinha moldado quem eu era.

Vieram as primeiras oportunidades. Trabalhei com Jorge Lins compondo músicas infantis para o Grupo Raízes. Recebi dele o convite para assumir a sonoplastia do Teatro Atheneu. Passei a produzir espetáculos, colaborar em projetos culturais, coordenar festivais e participar de eventos em vários estados do Brasil.

Assim cheguei à FUNDESC. Primeiro como técnico de som e luz, depois como coordenador de eventos, assessor de projetos e, em 1991, Diretor Técnico da Fundação Estadual de Cultura.

Na música, gravei quatro discos, fiz shows por todo o estado e estados vizinhos, compus para diversos artistas, espetáculos, dirigi e produzi muita coisa. Mas foi na gestão cultural que, de fato, me encontrei.

Eu precisava pagar uma dívida à cultura.

Foi ela que me ensinou a estudar, a ler mais, a compreender o outro. Foi a cultura — e a música — que me deu felicidade, que ajudou a criar e sustentar minha família. Foi ela que me deu um caminho para trilhar essa vida terrena.

Na gestão cultural, comecei num momento especial: um tempo de liberdade e de reconstrução da vida democrática, quando o país se livrava de ditadores e fascistas que, por mais de vinte anos, impuseram censura, ódio, violência e a castração simbólica da sociedade brasileira.

Naquele tempo, nossa política cultural era palco, direta e objetiva: colocar o maior número possível de artistas para se apresentar.

Festivais de música, Festivais de teatro, Mostras de cinema, Concursos de poesia, Projetos em teatros, praças, rodoviárias e espaços públicos.

A lógica era simples e poderosa: artista no palco, público na plateia, cultura circulando.

Não havia planilhas complexas, indicadores sofisticados ou discursos rebuscados. Havia urgência, desejo e vontade de ocupar espaços com arte.

E aquilo fazia todo sentido. O Brasil precisava reaprender a falar, cantar, dançar e existir depois de tanto silêncio imposto.

Mesmo durante a ditadura, Sergipe produziu pensamento e resistência. Jovens como Luiz Antônio Barreto, João Augusto Gama, João Costa, Orlando Vieira, Francisco Varela, Professor Joaquim (com o Recital sem Opus), Lânia Duarte, Amaral Cavalcante, João de Barros, Wellington Mangueira, Mário Jorge, Félix Mendes, Alencar Filho, Tereza Prado, Aglaé D’Ávila Fontes, Ilma Fontes e a SCAS (Sociedade de Cultura Artistica), entre tantos outros e outras, abriram caminhos e formaram gerações.

Após a redemocratização, nomes como Alcides Melo, Jorge Lins, Clara Angélica, Antônio Amaral, Lu Spinelli, Sucupira, Irmão e muitos mais criaram e conduziram os primeiros projetos da nova era cultural em Sergipe: Rodoviarte, Pano de Boca, Festival Novo Canto, concursos de poesia falada, Seis e Meia, Fim de Tarde, entre tantos outros.

Projetos que simbolizavam uma ideia muito clara: mostrar o que foi proibido — a arte e os artistas.

Com o passar dos anos, a política cultural mudou — e não foi pouca coisa.

Passei por todas essas transformações. Fui diretor de espaços culturais como o Teatro Atheneu, Teatro Tobias Barreto e Espaço Gonzagão; diretor de edições e eventos; Secretário Municipal de Cultura de Laranjeiras; Secretário Adjunto; Secretário de Estado; Presidente da Funcaju; e hoje, Secretário Executivo de Estado.

Foi em Laranjeiras que vivi a virada mais profunda. Ali conheci, de perto, a política cultural construída a dezenas de mãos e coordenada por Gilberto Gil. A cultura deixava de ser figurante. Passava a ser protagonista do desenvolvimento.

A cultura deixou de ser vista apenas como espetáculo e passou a ser entendida como direito.

O Estado deixou de ser apenas produtor e passou a ser regulador, fomentador e planejador.

Entraram os editais, os planos, os conselhos, as conferências, os sistemas.

Vieram conquistas fundamentais: os Pontos de Cultura, a Cultura Viva, a Lei Rouanet, os fundos setoriais, os editais públicos, as conferências de cultura, os sistemas e os planos decenais.

Essas políticas ampliaram o campo cultural, deram visibilidade a territórios antes invisibilizados, criaram redes, formaram gestores, descentralizaram recursos e transformaram a cultura em política de Estado.

Sou a favor dessas conquistas. Participei delas. Ajudei a implementá-las. Defendo sua continuidade. Ganhamos estrutura;  Ganhamos discurso; Ganhamos abrangência.

Passamos a falar de identidade, território, diversidade, economia da cultura, cadeias produtivas, formação, permanência e continuidade. A cultura passou a ser entendida como desenvolvimento humano, social e econômico.

Mas toda política madura precisa saber quando ajustar a rota.

Se antes errávamos por falta de acesso à informação, hoje corremos o risco de errar pelo excesso de formalismo.

Se antes lutávamos contra a censura e a ignorância cultural, hoje lutamos contra a padronização burocrática da criação.

Vivemos um tempo em que há facilidade de informação como nunca houve. Cursos, manuais, tutoriais, oficinas, modelos prontos. E isso é bom.

O problema começa quando o centro da avaliação deixa de ser a qualidade artística, a capacidade criativa, o risco estético e a potência simbólica, e passa a ser apenas a boa escrita do projeto, o enquadramento perfeito no edital, o domínio da linguagem burocrática.

Muitas vezes, quem escreve melhor o projeto não é quem cria melhor a obra.
E, pior ainda, muitos editais são formulados por técnicos sem nenhuma vivência artística ou cultural — conhecem o procedimento, mas não o processo criativo.

A arte passa a caber no formulário.

Quando deveria ser o formulário a caber na arte.

A burocracia afastou artistas.

O excesso de formulários afastou fazedores.

O medo do erro substituiu o risco criativo.

Perdemos simplicidade.

Perdemos agilidade.

Perdemos, muitas vezes, o brilho imediato do palco cheio.

A burocracia afastou artistas.

O excesso de formulários afastou fazedores.

O medo do erro substituiu o risco criativo.

Defender a identidade cultural não é fechar fronteiras, nem repetir símbolos vazios.

É reconhecer que nossa cultura popular, nossa música, nosso teatro, nossas festas, nossos mestres e nossos territórios geram pertencimento, autoestima, renda e futuro.

Cultura não é gasto. Cultura é investimento humano. É economia viva. É cidadania em movimento.

Por isso, precisamos criar novos caminhos, sem desmontar o que foi conquistado:

  • Editais que valorizem trajetória, não só narrativa técnica;
  • Comissões com artistas e fazedores de verdade, ao lado dos gestores;
  • Reconhecimento de processos, não apenas de produtos finais;
  • Políticas que aceitem erro, risco e experimentação
  • Formação que dialogue com a criação, não apenas com a burocracia
  • A política cultural não pode premiar apenas quem sabe preencher formulários.
    Ela precisa proteger quem sabe inventar mundos.

Este não é um texto contra as políticas públicas estruturantes. Elas são necessárias, urgentes e fundamentais. É um manifesto contra o esquecimento do artista, do palco, do encontro, do aplauso, do erro e da emoção ao vivo.

Política cultural não pode ser só papel.

Nem só planilha; Nem só relatório; Cultura é gente; É corpo presente; É voz; É suor. É contradição.

O desafio do nosso tempo é reconciliar tudo isso:

O palco e o direito; O artista e o território; A emoção e a gestão; Sem nostalgia vazia. Sem tecnocracia fria.

Porque quem viveu a cultura antes, durante e depois da redemocratização sabe: sem arte em cena, o povo até sobrevive — mas não vive por inteiro.

E eu, sigo aqui.

Cantando; Produzindo; Gestando; E acreditando.

Porque foi a cultura que me trouxe até aqui.

E é por ela que sigo pagando essa dívida — todos os dias.