Olá gente boa,
A primeira vez que subi em um palco foi em 1970. Eu tinha apenas 10 anos de idade. Era o auditório Villa-Lobos, no Conservatório de Música de Sergipe, em uma apresentação de fim de ano. Lembro como se fosse agora. Toquei um estudo que o professor João Argolo me confiou de última hora, substituindo um aluno que não pôde se apresentar. Enquanto as outras performances aconteciam, eu estudava ali mesmo, em silêncio, concentrado, quase alheio ao mundo.
Curiosamente, todo o nervosismo de uma criança desapareceu no instante em que pisei no palco. Sentei na cadeira, ajustei o apoio do violão — o nosso velho e inseparável “banquinho de pé” — e comecei a dedilhar. Naquele momento, sem que eu soubesse, algo definitivo nascia em mim. Desde então, cada vez que subo ao palco é para realizar algo profundamente importante, não apenas para mim, mas com a responsabilidade e o desejo sincero de entregar o melhor ao outro.
E foi exatamente assim na noite desta quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026, no palco do Teatro Tobias Barreto. Um teatro lotado, tomado por um público generoso, sensível e acolhedor, que saiu de casa em plena semana de carnaval para viver um concerto inesquecível da Nova e brilhante Orquestra do Brasil Nordestino — um projeto grandioso do maestro e músico Felipe Harder, que busca a valorização e divulgação da ótima música nordestina, do erudito ao popular, um sonho de criança virou orquestra — ao lado de Késia Rodrigues, Andressa Souto, Lucas Campelo e este cantador que vos escreve.
O que sinto é gratidão. Gratidão profunda. A realização de um sonho antigo: cantar com uma orquestra sinfônica. Já havia experimentado essa emoção em outro momento especial com a Orquestra Sinfônica de Sergipe, mas, desta vez, foi diferente. Felipe, com sua sensibilidade rara, visão artística e generosidade, transformou a segunda parte do concerto em um instante único e inesquecível para mim.
Foram sete canções escolhidas por ele, percorrendo 45 anos da minha caminhada na música. Cantei desde “Gênese”, minha terceira canção, em parceria com meu compadre Alexi Pinheiro, até “Xote Quero Beijo”. Passei por “Solitude”, “Canção do Bem Querer”, “Caribe Carinho Amor” e “Pecado de Pássaro”, minha música mais regravada. Canções que carregam a alma e a assinatura dos meus três grandes parceiros de vida e criação: Rubens Lisboa, Jorge Lins e Alexi Pinheiro.
Foi uma noite luminosa. Daquelas que não passam — ficam. Daquelas que se transformam em memória permanente, como ficou um dia a emoção de ouvir Elis Regina lá pelos anos de 1975, quando compreendi, ainda jovem, que o palco seria sempre o meu lugar mais confortável, mais verdadeiro, mais meu.
No palco não sinto medo. Não sinto nervosismo. Não sinto peso. Sinto pertencimento. Felicidade. Emoção viva. É como se a vida inteira eu soubesse: é ali que minha voz respira, é ali que minha alma fala, é ali que o meu canto encontra casa. Não sinto saudade, mais sempre que volto fico mais feliz.
Meu muito obrigado a todos que estiveram no Teatro Tobias Barreto, compartilhando esse momento tão especial. Obrigado, Felipe Harder, pela grandeza humana e artística. Obrigado aos mais de 60 músicos extraordinários da Orquestra do Brasil Nordestino.
Foi uma noite feliz. Eterna.
