Olá, gente boa!
Essa semana revisitei um compilado de fanzines escritos pelo itabaianense Adelvan Kenobi, publicados no blog Escarro Napalm. Adelvan sempre foi um profundo conhecedor da cultura alternativa, um verdadeiro especialista em fanzines, rock e blues. Seus textos reavivaram lembranças importantes sobre a produção musical alternativa em Sergipe, principalmente nas décadas de 80 e 90.
Essa leitura me fez mergulhar de volta nas minhas próprias vivências com a música. Estudei violão clássico no Conservatório de Música de Sergipe com o professor João Pires Argolo — o mais rigoroso e respeitado mestre do instrumento na nossa terra. Só aceitava o erudito nas aulas, mas no fundo era apaixonado por uma boa seresta.
Eu, aos 10 anos, já cantava e tocava além de Villa-Lobos, também Roberto Carlos, Bob Dylan, Ivan Lins, Simon & Garfunkel… e, mais adiante, Beatles. Era um caldeirão musical, onde a MPB sempre teve mais peso, mesmo com amigos do rock dizendo que eu tinha uma voz de rockeiro. Cantava em tons altos, e por um tempo fui considerado contratenor ou mezzo-soprano — isso, claro, quando a juventude ainda estava no meu gogó.
Nos anos 70, acompanhei de perto a cena das bandas de baile, como Unidos em Ritmo, Os Vikings, Brasa 10, Los Guaranis, Comanches, The Tops, Nino e seu Conjunto… E como comecei a compor ainda nessa época, me envolvi mais profundamente com a MPB, com a Bossa Nova, o Samba Canção, o Tropicalismo e, principalmente, com as canções de protesto contra a ditadura — essa mesma que tantos insistem em negar que existiu.
Participei de festivais, shows e movimentos pela redemocratização, sempre defendendo o profissionalismo artístico e cultural. Foi nesse espírito que nasceu o grupo Entre Amigos, com o qual produzimos espetáculos como Entre Amigos e Brasil Conversa de Fome — dois marcos na música sergipana e na resistência cultural da época.
O rock que eu me aproximava era o de Freddie Mercury, que sempre considerei o maior cantor do mundo. Aqui em Sergipe, houve por muito tempo um certo descompasso entre a turma da MPB e a do Rock — uma besteira, na minha opinião. Música é música. Mas os shows de rock da época, majoritariamente masculinos, e a rigidez das tribos me afastavam um pouco daquele circuito.
No meio dos anos 80, junto ao genial Jorge Lins, criamos o Circo Amoras e Amores e, nos domingos, promovíamos matinês lotadas com sessões de rock e pop rock — na onda de Legião Urbana, RPM, Capital Inicial… A banda residente era a H2O, com um guitarrista afiado, que logo sugeriu a inclusão de outras bandas locais no nosso palco.
Foi assim que conheci a Karne Krua, primeira banda hardcore punk de Sergipe, liderada pelo incansável Silvio Campos — punk, anarquista, idealizador, compositor e produtor. Ao lado de Tony Almada (bateria), Marcelo Gaspar (baixo) e Vicente Coda (guitarra), Silvio criou um som visceral e autêntico. Hoje, aos 61 anos, ele segue firme com a banda, mantendo vivo um legado que já é parte da história do rock nordestino.
Na mesma tarde, conheci Luiz Eduardo Oliveira, vocalista e guitarrista da Crove Horrorshow — também professor de literatura inglesa da UFS. Comecei então a acompanhar, mesmo de longe, o que se tornaria a cena sólida e criativa do rock sergipano.
Outras bandas surgiram com força: Crove Horrorshow: rock com influências dos anos 70, pós-punk e soul; E.O.A.S.N. (de Itabaiana), Liprofenia, Lektospinoise, Putrefação Humana, Manicômio, Forças Armadas, Condenados, Logorréia (punk/hardcore); Passos Blues Band: blues de raiz, Lulu Viçosa, Exceção, Desvio Padrão: explorando o new wave com autenticidade.
E a cena cresceu. Vieram Snooze, Plástico Lunar, Zeitgeist, Mamutes, Urublues, Cidade Dormitório, Tchandala, Taco de Golfe, Ferdinando Blues Trio, Homeless Bird, Arthur Matos, Heloá, Jorge Duccy, Reação… A diversidade sonora tomou conta!
The Baggios, por exemplo, misturam rock, blues e psicodelia com raízes da cultura popular sergipana, e chegaram ao Grammy Latino. Formada inicialmente como um duo (Julio Andrade e Gabriel Perninha), é um orgulho para nosso estado.
Outros nomes como Karranka (mangue beat e maracatu), Rockassetes (indie), Toddys Trouble Band (rockabilly e blues) e Sandyalê (dub, reggae e música africana) mostram o quanto nossa cena é viva e plural.O rock sergipano é um patrimônio cultural que precisa ser respeitado, reconhecido e incentivado. O que já foi feito é de altíssima qualidade, fruto de resistência, criatividade e paixão de gerações inteiras. Mas sem apoio, muitos talentos podem se perder no silêncio.
A cena está viva — precisa de cuidado, de políticas públicas e de respeito. Sergipe tem artistas incríveis em todas as vertentes do rock. Cabe a nós, gestores, produtores, músicos e amantes da cultura, garantir que essa história continue pulsando forte, em alto e bom som.
Porque, no fundo, o rock é isso: coragem, liberdade e verdade. Sigo firme na estrada da música, da cultura e da sergipanidade.
