Olá, gente boa

O Programa Nacional Aldir Blanc veio para ficar. Diferente da lei emergencial, que salvou o setor cultural no auge da pandemia, o programa agora é permanente. E qual é o foco? Não é apenas transferir recursos financeiros. O objetivo é fazer a cultura girar, gerar empregos, renda e transformar criatividade em resultados concretos. Mas, para isso, é fundamental acertar o equilíbrio entre qualidade e inclusão.

O Programa não é um Bolsa Família; venho repetindo isso sempre. A política cultural não é assistência social. Não se trata apenas de distribuir dinheiro para quem está em situação de vulnerabilidade. Isso é essencial em outros programas, mas aqui a conversa é diferente: a ideia é fortalecer a cultura como indústria, fazendo com que ela tenha impacto. E isso não acontece se adotarmos os mesmos critérios usados para distribuição de renda.

Por outro lado, vivemos em um país desigual, em um estado que historicamente deu pouca atenção à cultura. Se não houver inclusão, o setor cultural continuará dominado por uma elite branca, masculina e privilegiada. Portanto, sim, é importante considerar a vulnerabilidade. Mas não pode ser só isso. Precisamos avaliar a qualidade dos projetos. E aqui não falo de promover uma cultura de massa sem critério.

A diversidade é fundamental; ela é uma força. Ela traz novas vozes, histórias e formas de criação. Mulheres, negros, indígenas, pessoas com deficiência – todos precisam ter espaço na cultura. Isso enriquece o resultado final. Sem diversidade, caímos na repetição e na mesmice. No entanto, diversidade sozinha não sustenta o setor. Estamos falando de um mercado. Se o produto cultural não tiver qualidade, ele não circula, não compete, e todos nós perdemos. Precisamos unir inclusão e competência técnica. Não é uma escolha entre um ou outro; é a combinação dos dois.

Tenho observado alguns editais que priorizam excessivamente cotas em detrimento do mérito técnico. Em muitos casos, os resultados parecem mais voltados para interesses políticos ou para agradar artistas específicos do que para promover o equilíbrio necessário e o crescimento da cultura.

Essa abordagem pode até funcionar em programas assistenciais, mas é inadequada para uma política cultural. O resultado? Projetos tecnicamente mais fortes ficam de fora, comprometendo a entrega, o impacto e até a credibilidade do programa.

Não podemos pensar em cultura apenas como caridade, mas também não podemos excluir aqueles que sempre foram marginalizados. O ideal é um sistema que valorize tanto a vulnerabilidade quanto a capacidade de realização. Sem isso, o setor não avança. Um exemplo positivo vem dos setores de grafite e hip-hop em Aracaju, que souberam aproveitar as Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo. Hoje, é notório o crescimento e reconhecimento desses movimentos.

O segredo está no equilíbrio, na condução de uma política de inclusão cultural que seja eficiente. Precisamos de projetos competitivos e diversos, que alcancem artistas, produtores e, principalmente, o público. Não podemos acreditar que apenas “os melhores” – geralmente os mais privilegiados – merecem acesso aos recursos. Ao mesmo tempo, não podemos ignorar a qualidade do que é produzido. O desafio é combinar inclusão e mérito de forma justa e inteligente.

Por isso, defendo mais formação, mais qualificação, apoio para a elaboração de projetos, profissionalização da gestão cultural e, acima de tudo, amor e competência na execução das políticas culturais. Já passou da hora de termos uma escola técnica de formação em cultura e arte no nosso estado. Essa seria uma iniciativa de grande impacto, que os governantes deveriam considerar seriamente.

O que o Programa Aldir Blanc precisa agora é de uma gestão mais eficiente. Critérios claros. Processos transparentes. E, sobretudo, sabedoria para elaborar editais que equilibrem inclusão e mérito. Além disso, é crucial investir na capacitação de quem está começando ou vem de contextos mais vulneráveis, para que possam competir em igualdade de condições.

Não acredito que os editais sejam a única salvação para a cultura, mas o Programa Aldir Blanc tem um enorme potencial para impulsionar o setor cultural. Para isso, precisamos sair do discurso e focar em resultados: diversidade e competitividade caminhando lado a lado. Só assim nossa cultura deixará de ser apenas resistência e se tornará impacto, potência e transformação.