Olá gente boa,
Entrei na Fundesc – Fundação Estadual de Cultura – em 1985, como sonoplasta e técnico de iluminação. Foi lá que conheci figuras fundamentais para a cultura sergipana. Entre essas personalidades, uma se destacava: Antônio Amaral Cavalcante, ou simplesmente Amaral Cavalcante.
O jornalista eu conheci pessoalmente nessa época, mas o poeta já fazia parte da minha vida desde cedo. Em casa, a poesia marginal de Amaral Cavalcante, Mário Jorge e Ilma Fontes era sempre assunto nas conversas. Assim que o vi de perto, entendi por que era tão elogiado – e também por que era tão criticado. Ele foi meu colega de trabalho, depois meu diretor, e mais tarde, presidente da Fundação. E, como era de se esperar, tivemos nossos embates, especialmente quando o governo ensaiou acabar com a Fundesc. Uma conquista tão suada dos artistas não poderia ser jogada no lixo sem luta.
Mas mesmo nas divergências, minha admiração pelo Amaral nunca diminuiu. Ele era brilhante como poeta e afiadíssimo como jornalista. Eu adorava ler o Folha da Praia, o melhor jornal alternativo de Sergipe. Textos inteligentes, modernos, que retratavam com precisão a cultura, a juventude e a sociedade do momento. Amaral não era apenas um grande jornalista – era um imã de gente talentosa. Ele sabia unir pessoas das mais diferentes tribos e tinha uma memória absurda. Era um desses caras que inspiram gerações, um poeta e visionário.
Nascido em Simão Dias, no dia 11 de julho de 1946, Amaral criou o Folha da Praia, que circulou por mais de 40 anos. O jornal foi um refúgio para o jornalismo marginal e uma vitrine para jovens em início de carreira. Além de agitar a cena cultural, o Folha era contestador, democrático e muito à frente do seu tempo. Um verdadeiro pesadelo para os milicos de farda engomada e os bajuladores da ditadura – aquela mesma que hoje uns imbecis dizem sentir saudade, mesmo sem terem vivido para saber o que foi. O jornal fez história, incomodou muita gente e, de quebra, ainda ajudava a garantir o vinho do Amaral, como disse Jozailton Lima, jornalista e amigo.
Desde sempre, Amaral foi um representante da contracultura, um militante estudantil, um agitador nato. Sua trajetória no cinema, na literatura, no teatro e na cultura popular é incontestável. Nos últimos anos, assumiu a edição da Revista Cumbuca, publicada pela Edise – outro grande projeto que ele ajudou a construir. E nos anos 70, causou impacto com Instante Amarelo, seu único livro de poesia lançado em vida. Um livro essencial para qualquer poeta que se preze.
Claro que seu jeito inconformado e sua língua afiada lhe custaram algumas oportunidades. Amaral era do tipo que dizia o que pensava, doa a quem doer. Isso fez com que fosse deixado de lado muitas vezes. Mas sua inteligência era seu escudo. Ele sempre dava a volta por cima. Prova disso foi sua posse na cadeira de número 39 da Academia Sergipana de Letras, um reconhecimento mais do que merecido.
Amaral tinha um humor ácido, um jeito rude de vez em quando, mas sabia reconhecer o talento. Sempre que podia, dava oportunidades a quem merecia. Foi ele quem me convidou a escrever na Revista Cumbuca. E na última entrevista que fiz com ele, soltou uma pergunta que me fez rir: “Como é que um artista conseguiu fazer tão bem a trajetória para a gestão?”. O “tão bem” eu considerei um elogio – e vindo dele, era coisa rara!
No poema Canção sem Amor, ele escreveu:
“É tempo de andarmos ombro a ombro,
uníssonos e graves,
cantando o mesmo canto,
vivendo a mesma estrada,
anunciando a mesma madrugada.”
E é isso. Não esqueço dos nossos. Não diminuo seus talentos. Foi necessário, foi importante, e foi um privilégio ter vivido tudo isso.
