Olá gente boa,

Já mencionei meu tio José Calasans, um grande homem da cultura, historiador e um dos maiores incentivadores e professores da minha vida. Um dos legados dele foi me apresentar ao mestre Luiz Antônio Barreto, a quem meu tio considerava um filho na intelectualidade. Por sua vez, Luiz via em meu tio uma figura paterna. Como sobrinho, fiquei numa posição privilegiada entre esses dois grandes mestres.

Conheci Luiz ainda jovem, acompanhando meu tio a eventos culturais. No entanto, foi em 1995, durante o primeiro governo de Albano Franco, que Luiz me convidou para integrar a equipe que ele estava montando para a nova Secretaria de Estado da Cultura. Essa secretaria foi idealizada com uma estrutura que lhe conferia o status de uma das grandes pastas do governo. Luiz não apenas pensou no presente, mas também planejou o futuro da cultura como política de Estado, antecipando ideias que seriam popularizadas por Gilberto Gil no Ministério da Cultura, como a famosa frase “Cultura tem que ser igual a arroz com feijão”. Luiz dizia: “A cultura tem que ser forte e permanente”, e completava: “Quero ver agora quem terá coragem de acabar com essa estrutura”.

Ele dividiu a cultura em institutos, cada um com uma área específica de atuação: memória, fomento, arte-educação, comunicação e edição. Foi uma verdadeira revolução na gestão pública da cultura. Trabalhei em diversos espaços e áreas, aprendendo os meandros, caminhos, desvios e soluções para os desafios da gestão cultural. Fui diretor de eventos, Diretor do Gonzagão e do Teatro Atheneu, coordenador de edições, criei projetos e realizamos muitos outros juntos. Nossa relação de trabalho evoluiu para uma amizade de confiança mútua. Luiz foi um professor, um amigo e um mestre que me faz muita falta. Sei que ele teria orgulho do profissional que me tornei, muito em função do apoio e ensinamentos que recebi dele.

Luiz Antônio Barreto nasceu na cidade de Lagarto, no dia 10 de fevereiro de 1944, filho de João Muniz Barreto e Josefa Alves Barreto. Jornalista, historiador e sociólogo, Luiz estudou Direito em Aracaju e no Rio de Janeiro, onde também cursou a Escola Nacional de Música. Ele atuou nas áreas de educação, cultura, história, comunicação, literatura e folclore, ocupando diversos cargos em instituições públicas e privadas. Sua dedicação resultou em uma contribuição intelectual impressionante.

Luiz, exerceu funções como chefe da Assessoria Cultural da Secretaria de Educação e Cultura de Sergipe, Secretário de Educação e Cultura, e superintendente de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. Foi diretor da Fundação Cultural Augusto Franco e assessor da Presidência da Confederação Nacional da Indústria. Atuou também em Portugal, como diretor do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. Presidiu a Academia Sergipana de Letras, ocupando a cadeira nº 28, e foi membro e orador do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Entre seus legados mais importantes, destacam-se a criação do Encontro Cultural de Laranjeiras, do Encontro Medieval e do Colóquio Antero de Quental. Editor e escreveu grandes obras como toda as obras de Tobias Barretos, artigos e estudos sobre a sergipanidade. Na área museológica, contribuiu para a implantação do Palácio Museu Olímpio Campos, do Museu Afro-Brasileiro de Sergipe, do Memorial do Judiciário e do Museu da Gente Sergipana.

Meu amigo Luiz Antônio Barreto, era um mestre em contar histórias do povo sergipano. Ele tinha o dom de transformar as tradições em algo vivo e pulsante, que encantava e fazia as pessoas entenderem de onde vieram e por que isso era tão importante. Para ele, cultura popular não era apenas festa ou folclore, mas uma forma de comunicação que une e cria identidade. Nos reisados, no samba de pareia ou nas noites de São João, Luiz enxergava uma expressão autêntica do povo narrando sua própria história.

Luiz Antônio não ficou apenas nas ideias; ele agiu. Escreveu, pesquisou, divulgou e defendeu as raízes sergipanas com paixão. Ele mostrou que os comunicantes populares — como o vaqueiro com seu aboio ou a rezadeira com suas bênçãos — traduzem o que somos com simplicidade e verdade

Seu legado é imenso. Graças a ele, muito do que poderia ter se perdido está vivo, sendo contado e recontado. Ele nos deixou um lembrete: valorizar nossas raízes é a melhor forma de garantir que elas nunca morram. Luiz Antônio Barreto foi um verdadeiro guardião da cultura e da comunicação popular, um exemplo de como o poder de contar histórias pode mudar o mundo. Um homem que jamais será esquecido e que merece ser muito mais reconhecido em todas as áreas culturais e de conhecimento de Sergipe. Proponho o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe — fica a sugestão.