Olá, gente boa,

Dias desses fui recebido em um evento de cultura popular no Rio de Janeiro e alguém disse: “ainda bem que chegou um folclorista”. Confesso que fiquei surpreso. Nunca me considerei um folclorista — esses são estudiosos, pesquisadores que fazem da vida a defesa dessa rica e complexa tradição popular, nossa verdadeira identidade cultural.

Sou, sim, um apaixonado pela cultura popular e pelo folclore da minha terra. Essa paixão é herança do meu tio-avô José Calazans Brandão da Silva e foi alimentada pelos ensinamentos de mestres como Luiz Antônio Barreto, Aglaé Fontes, Beatriz Góes, Jackson da Silva Lima, entre tantos outros que cruzaram meu caminho e me ensinaram o valor da tradição e do saber popular.

Desde os meus 15 anos acompanhei o tio Calazans — nas reuniões da Comissão Sergipana e Nacional de Folclore, nos Congressos Brasileiros do Folclore e nos bastidores do Encontro Cultural de Laranjeiras. Vi, ouvi e aprendi com grandes mestres e folcloristas; testemunhei a escrita de cartas, manifestos e documentos que lutavam por salvaguardar o patrimônio imaterial do nosso povo.

Na minha passagem pela Secretaria Municipal de Cultura de Laranjeiras, a pedido da prefeita Ione Sobral, criamos a primeira Lei Municipal do País em favor dos Mestres da Cultura Popular — a “Lei Mestres dos Mestres”.

Uma lei que não ficou no discurso: reconheceu, homenageou e garantiu uma bolsa vitalícia de dois salários mínimos para cada mestre premiado por edital, de caráter obrigatoriamente anual. Infelizmente, desde 2014, essa lei vem sendo ignorada, ferida em seu espírito e desonrada por gestões que tratam a cultura como enfeite de festa e não como a alma viva do povo.

Essa lei deu dignidade, sobrevida e orgulho a mestres e grupos culturais. Mestre Deca, Mestre Sales, Mestre Ranulfo, Mestra Efigênia — nomes que ecoam na história de Laranjeiras — puderam viver melhor e continuar transmitindo saberes aos seus. Hoje, o legado deles segue com filhos e netos, resistindo onde o poder público falha.

No Estado, propusemos e aprovamos, no Conselho Estadual de Cultura, a Lei da Cultura Viva e a Lei dos Mestres da Cultura Popular, que dormiram nas gavetas por quatro anos até a chegada do governador Fábio Mitidieri, que, antes mesmo de assumir, pediu ao então governador Belivaldo Chagas o envio imediato à Assembleia. A lei foi aprovada e, já nos primeiros atos do novo governo, sancionada. Resultado: dez mestres premiados e mais cinco em edital aberto — um passo concreto na valorização da sabedoria popular.

Mas, enquanto o Estado avança, há municípios que andam na contramão. O que vem acontecendo com o folclore sergipano e seus mestres é de arrepiar e revoltar.

O desrespeito, o improviso e a ignorância se disfarçam de modernidade. Gestores que deveriam ser guardiões da tradição tornam-se seus algozes — seja por vaidade, por descuido ou por pura incapacidade de compreender a grandeza do que herdamos.

Vivemos uma época perigosa. A cultura popular sofre, não apenas pela falta de políticas públicas, mas pela ação dos “larápios culturais” — gente que, sem talento e sem raiz, tenta roubar o lugar de fala dos mestres, acreditando que visibilidade em rede social é sinônimo de saber.
São os novos oportunistas, que confundem “projeto cultural” com “negócio fácil” e acham que o Google e a Inteligência Artificial podem substituir a experiência viva, a oralidade, o suor e o toque do tambor.

Em Laranjeiras, berço da cultura popular, vemos o absurdo de uma gestão que proibiu judicialmente a saída de mestres e grupos tradicionais, criando de forma artificial uma “nova cultura da Capital da Cultura Popular”. Um governo que, mesmo sendo filho da terra, parece ter perdido o amor e o respeito pela sua própria história.

E agora, em Lagarto, o vexame: o Grupo Parafuso, único no Brasil com esse formato e reconhecido oficialmente, foi desrespeitado de forma cruel. Em uma apresentação fora do Estado, a prefeitura levou um grupo falso, apresentando-o como se fosse o verdadeiro. Enquanto isso, os verdadeiros brincantes ficaram em casa, aguardando uma resposta do secretário e do prefeito que nunca veio.

É o cúmulo da irresponsabilidade e da falta de ética — um crime cultural contra o povo de Lagarto e contra a história do nosso folclore.

Vivemos um governo que aposta na cultura como vetor de desenvolvimento, com programas como o Viva-SE, com obras, editais e interiorização. Um governo jovem, que enxerga na cultura um setor produtivo e transformador. Por isso, é inadmissível que gestores municipais continuem agindo com descaso, se escondendo atrás da desculpa da burocracia ou da ignorância.

A Cultura Popular não é brinquedo, não é palco de vaidade.
Ela é o reflexo da alma do povo, a voz dos que vieram antes e a esperança dos que virão depois. Ela vive, resiste e cobra respeito.

Porque os maus gestores passam, mas os mestres ficam.
E quando a história for contada, a cultura lembrará quem esteve do lado dela — e quem a traiu.