Olá, gente boa!

Em pleno Carnaval, avistei uma senhorinha amiga da minha esposa. Ela é aposentada do serviço público e soube guardar e investir seus ganhos financeiros, conseguindo construir um patrimônio com casas e sítios. Uma sergipana de classe média alta que, com esforço e trabalho, incorporou o nosso sistema capitalista.

Entre uma conversa e outra, ela se virou para mim e perguntou: “Neu, você que anda por aí, acha que vamos virar um país comunista? Você viu que até aquele filme mentiroso sobre a Revolução Militar ganhou um Oscar com o apoio de Lula?”

Sinceramente, fiquei em choque, da mesma forma que, algum tempo atrás, um familiar me disse, indignado, que estava detestando andar de avião porque, segundo ele, “o aeroporto estava cheio de pobres”. A essa infeliz colocação, respondi de imediato: “Desde quando você pode comprar uma passagem aérea? Quem sempre comprou foi seu filho, que hoje está muito bem de vida, enquanto você continua pobre, como grande parte da população que sobrevive com até cinco salários mínimos por família”.

Mas com essa senhorinha, de quem gosto, fiquei sem saber o que dizer por um momento. Resolvi, então, apelar para a graça: “Minha amiga, num país que tem Carnaval, festejos juninos, micaretas e picaretas por todos os lados; um futebol onde um torcedor botafoguense, como seu esposo, chora feito bebê ao ganhar um título depois de trinta anos, vibrando como se tivesse conquistado a Copa do Mundo; e um cinema que, após muito esforço, qualidade e investimento, conquista um Oscar internacional é aplaudido e comemorado em pleno carnaval em todo o país.. é possível que seja comunista?”

Expliquei que o cinema brasileiro vem crescendo e ganhando reconhecimento internacional há muito tempo, primeiro graças à Lei Rouanet e, depois, ao Fundo Setorial do Audiovisual, que se fortaleceu no governo Lula, lá nos anos 2000. E ainda completei: “Cuidado com o que você ouve! Nas suas idas à igreja, procure prestar mais atenção na palavra do maior socialista de todos os tempos: Jesus”.

Um dos maiores desafios do Brasil é o baixo nível de cognição política da população, que muitas vezes prefere discursos prontos, simplistas e emocionais em vez de buscar conhecimento crítico e aprofundado. Isso cria um ambiente propício à manipulação, onde qualquer mentira bem contada vira verdade absoluta.

O medo do “comunismo” é alimentado por fake news e desinformação. Essa tática de espalhar pânico moral não tem base na realidade, mas encontra terreno fértil em uma população que não tem acesso a um ensino político sólido. O comunismo virou um espantalho genérico para demonizar qualquer ideia progressista. No Brasil, essa narrativa foi impulsionada durante a Guerra Fria, quando os Estados Unidos financiaram campanhas anticomunistas, associando a ideologia à perseguição religiosa, destruição da família e miséria absoluta.

Curiosamente, muitas das políticas sociais e econômicas classificadas como “comunistas” são comuns em países capitalistas avançados. Medidas como proteção ao trabalhador, investimento em saúde, educação e cultura são fundamentais para qualquer sociedade desenvolvida. Outro ponto interessante é o uso seletivo da história. Muitos comunistas históricos não defendiam pautas como os direitos LGBTQIA+, mas hoje essa questão é incorporada por grupos progressistas, que acabam sendo rotulados como “comunistas” simplesmente por defenderem direitos humanos básicos.

A cultura também é um alvo constante. Carnaval, festas juninas e tradicionais e outras manifestações populares são atacadas por aqueles que desconhecem sua importância histórica, econômica e social. Essas mesmas pessoas, porém, consomem produtos culturais estrangeiros sem questionar. Criticam os ritmos e expressões nacionais, mas aplaudem o que vem de fora.

O impacto do filme “Ainda Estou Aqui” e sua vitória no Oscar de Melhor Filme Internacional desmascaram a tentativa de reescrever a história da ditadura. Esse reconhecimento internacional mostra que a dor das vítimas da repressão ainda ressoa e que o Brasil precisa encarar seu passado para impedir que ele se repita.

O medo daqueles que atacam o filme é justamente esse: que a verdade seja contada e a memória seja preservada. Por isso, atacam a arte, a imprensa e qualquer manifestação cultural que confronte suas mentiras. Mas a verdade resiste. E “Ainda Estou Aqui” é a prova de que a história não pode ser apagada.

Educação, senso crítico e cobrança constante:

  • Político não é ídolo, é funcionário público.
  • Cultura não é só entretenimento, é identidade.
  • Informação não é aquilo que conforta nossas crenças, mas aquilo que nos desafia a pensar.