Olá, gente boa!
Cresci estudando em colégios católicos. Fiz o primário no Arquidiocesano e no Sagrado Coração de Jesus, e depois segui para o Colégio Salesiano. Minha mãe, católica fervorosa, sempre gostou de ir à missa, mas nunca nos obrigou a acompanhá-la. Era uma fé vivida no cotidiano, com terço na mão e fé no olhar.
Minhas primeiras cantorias aconteceram justamente nas missas e festas das escolas. Cheguei a ter uma música gravada por um frei, toquei em grupos cristãos e também frequentei terreiros — mais em busca de ritmos e cultura do que por devoção religiosa. Teve até uma fase em que achei que era espírita.
A vida foi me mostrando que Deus mora em muitos lugares — e principalmente dentro de cada um.
Aqui em casa, a religião é de cada uma, pois só tenho mulheres ao meu redor: três filhas e minha companheira, Cassia. A mais velha, Érica, é católica, muito influenciada por minha mãe. Tatiana, a do meio, está se encontrando entre o espiritismo e a umbanda. Já Tássia, minha filha mais nova, é umbandista convicta, cheia de axé e certeza. E Cassia… Ah, Cassia acredita em tudo, porque quer ver todos bem, em paz, felizes.
A cada passo, a cada canto, entendi que fé não se impõe — se sente. E o Deus que mora em mim não usa rótulos. Ele dança, silencia, canta, acolhe e sopra poesia.
A verdade é que nunca me senti verdadeiramente pertencente a nenhuma dessas crenças. Quando me perguntavam qual era minha religião, eu costumava brincar, como fazia meu avô Dedé Sombrinha: “Sou ateu, graças a Deus.” Alguns riam, outros se espantavam, e eu achava graça — porque quase ninguém se interessava em perguntar se eu acreditava em Deus.
E sim, acredito. Acredito em uma força maior que está na natureza e, principalmente, dentro de mim. Sempre fui em busca de alguma explicação que fizesse sentido, algo que eu pudesse entender e compartilhar.
Foi nesse caminho que, lendo pensamentos de homens e mulheres extraordinários, encontrei uma resposta que me tocou profundamente. Perguntaram a Einstein se ele acreditava em Deus, e ele respondeu: “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa em premiar ou castigar os homens.”
Essa frase me despertou curiosidade. Era tudo o que eu achava. Mas… quem foi Spinoza?
Baruch Spinoza — ou Bento de Espinosa — foi um filósofo racionalista holandês do século XVII, um dos pilares da filosofia moderna. Nascido em Amsterdã, em 1632, era descendente de judeus portugueses. Estudioso de teologia, línguas, política e filosofia, foi excomungado pela comunidade judaica em 1656 por defender ideias consideradas heréticas.
Mas Spinoza deixou um legado imenso, com pensamentos como:
– “Se os homens tivessem no silêncio a mesma capacidade que têm no falar, o mundo seria muito mais feliz.”
– “Não me esforço para rir dos atos humanos, nem para lamentá-los, mas para compreendê-los.”
Para Spinoza, Deus não está fora do mundo, mas é o próprio mundo em sua totalidade. É imanente, não transcendente.
Inspirado nessa visão, surgiu o belíssimo texto conhecido como “Deus segundo Spinoza”, que Einstein tanto apreciava — e eu também.
Reproduzo aqui esse texto, como uma oração possível para quem, como eu, busca um sentido maior na simplicidade da vida:
Deus segundo Spinoza
(Texto atribuído, inspirado na filosofia de Baruch Spinoza)
Pare de ficar rezando e batendo no peito!
O que quero que faça é que saia pelo mundo e desfrute a vida.
Quero que goze, cante, divirta-se e aproveite tudo o que fiz pra você.
Pare de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que você mesmo construiu e acredita ser a minha casa!
Minha casa são as montanhas, os bosques, os rios, os lagos, as praias, onde vivo e expresso amor por você.
Pare de me culpar pela sua vida miserável!
Eu nunca disse que há algo mau em você, que é um pecador ou que sua sexualidade seja ruim.
O sexo é um presente que lhe dei — uma expressão de amor, êxtase e alegria.
Pare de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo!
Se não pode me encontrar num amanhecer, numa paisagem, no olhar dos seus amigos ou nos olhos do seu filho, não me encontrará em livro algum.
Confie em mim.
Pare de me dirigir pedidos — você vai me ensinar como fazer meu trabalho?
Pare de ter medo de mim!
Eu não julgo, não critico, não me irrito, não castigo.
Eu sou puro amor.
Pare de me pedir perdão.
Não há nada a perdoar.
Se eu o fiz com todas as suas paixões, limitações, prazeres e incoerências, como posso culpá-lo por ser quem é?
Crê mesmo que eu criaria um lugar para queimar meus filhos por toda a eternidade?
Que Deus faria isso?
Respeite o próximo.
Não faça ao outro o que não quer para você.
Esta vida não é um teste, nem um ensaio, nem um degrau.
Esta vida é o que há — aqui e agora.
Eu o fiz absolutamente livre.
Não há prêmios, nem castigos.
Não há pecados, nem virtudes.
Você é livre para fazer da sua vida um céu ou um inferno.
Não posso garantir o que há depois da morte.
Mas posso lhe dizer: viva como se essa fosse sua única chance.
E, se houver algo depois, não perguntarei se você foi comportado.
Perguntarei se você gostou, se se divertiu, o que aprendeu.
Não creia em mim.
Sentir é mais importante do que acreditar.
Sinta-me em você, no beijo da pessoa amada, no abraço da filha, no carinho com seu cão, no banho de mar.
Pare de me louvar!
Que tipo de Deus ególatra você pensa que sou?
Sente-se grato? Cuide de si, das suas relações, do mundo.
Sinta-se maravilhado e expresse sua alegria. Isso é louvar.
A única certeza é que você está aqui, agora.
E isso já é um milagre.
Não me procure fora.
Eu estou dentro.
Em você.
E foi assim que encontrei um pouco de paz.
Pois não posso usar o nome de Deus para desejar o mal ou premiar. Esse é um desejo humano que nunca teve Deus dentro da gente.
Não na religião, mas na espiritualidade que me conecta com o que sou, com o que faço, com quem amo — e com o mundo que me cerca.
Sou Neu Fontes, e sigo pela estrada da sergipanidade, da cultura, da arte — e da busca sincera por sentido.
Essa é a minha verdade.
Não precisa ser a sua.
