Olá gente boa,
Eu sou o chapéu que uso.
De palha, de feltro, de aba larga ou curta —
sou feito de tudo isso que me cobre a cabeça e guarda meus pensamentos do mundo.
Sou o abrigo e o abrigo-me.
Meu chapéu não é adorno.
É memória.
É marca.
É proteção contra o sol da ignorância e a tempestade da pressa.
É pausa. É presença.
Cada chapéu que coloco carrega um pouco dos meus ancestrais:
Meu avô Dede, os vaqueiros do agreste, os mestres do saber popular,
os poetas andarilhos, os pensadores que desafiaram o tempo.
Quando o visto, eles vêm comigo.
Andam comigo.
Cantam comigo.
No palco, ele me dá firmeza.
Na vida, me dá sentido.
É como se minha cabeça se organizasse melhor debaixo dele.
Meus pensamentos se aquietam.
Minha identidade se firma.
O chapéu que sou me acalanta quando o mundo grita,
me ergue quando o dia pesa,
me acompanha mesmo quando estou só.
E mesmo em silêncio, ele fala por mim.
Há quem tire o chapéu em sinal de respeito.
Eu o coloco — em respeito a tudo o que sou,
a quem veio antes,
aos que resistem com dignidade e beleza.
Porque há dias em que sou inteiro chapéu:
sombra e abrigo, forma e afeto,
tradição e invenção.
E quem me vê com ele, não está apenas vendo o que cubro —
mas o que descubro de mim.
