Olá, gente boa,

Ganhei minha primeira máquina fotográfica ainda nos anos 1970. Acho que foi ali que começou uma paixão que nunca mais me abandonou: a fotografia.

Ao longo da vida, tive o privilégio de conhecer e admirar fotógrafos extraordinários. Fernando Souza, um craque do preto e branco; Lineu Lins, um gênio do olhar; Jairo, César, Osmar, Valmir, Marcel Nouer e tantos outros. Mais recentemente, acompanho trabalhos de gente como Joel Luiz e Alejandro Zambrana, entre muitos novos olhares que continuam registrando Sergipe.

E descobri, não faz muito tempo, que talvez esse meu encantamento venha de muito mais longe.

Meu tataravô, pai da minha bisavó e filósofa de plantão Noemi Brandão, era o estanciano Benjamim Francisco Brandão, um dos primeiros fotógrafos profissionais de Sergipe. Talvez esteja aí alguma explicação.

Fotografar é aprisionar, por uma fração de segundo, um instante que nunca mais voltará a existir exatamente daquela maneira. É guardar luz, expressão, paisagem, memória. Isso sempre me emocionou.

E da fotografia para a vontade de colocar a imagem em movimento foi um caminho quase natural na história da humanidade.

Sergipe, como tantas vezes aconteceu em nossa trajetória cultural, também produziu gente criativa, inovadora e, sobretudo, desbravadora. É o caso de outro estanciano, Clemente Freitas, pioneiro da arte cinematográfica sergipana nos anos 1950.

Na minha juventude, acompanhei também aquela inquietação de uma geração que andava com uma câmera Super-8 debaixo do braço, filmava, discutia cinema e criava cineclubes. Lembro-me de Marcelo Déda nesse movimento.

Aprendi a admirar nomes como Ivan Valença e Djaldino Mota Moreno, além de tantos profissionais sergipanos que ajudaram a construir essa história e fizeram o cinema produzido por gente da nossa terra ultrapassar fronteiras.

O audiovisual nasceu desse desejo humano de guardar a vida e, ao mesmo tempo, reinventá-la.

Hoje, ele reúne imagem, som, música, roteiro, interpretação, fotografia, montagem, tecnologia e sensibilidade. Vai muito além de uma simples gravação. O audiovisual constrói memória, fortalece identidades, provoca reflexão e produz empatia.

E talvez por isso fascine tanto as novas gerações.

Com o fortalecimento dos editais, fundos, leis de incentivo, fóruns, políticas públicas, Ancine e a ampliação das possibilidades de formação acadêmica e profissional, uma nova geração encontrou instrumentos para transformar talento em profissão e criatividade em produção cultural.

O resultado é um setor cada vez mais organizado, produtivo e importante para a economia criativa brasileira e sergipana.

Em Sergipe, são muitos os nomes que vêm construindo essa história: Gabriela Caldas, Jade Moraes, Moema Pascoini, Luciana Oliveira, Manoela Veloso Passos, Lú Silva, Baruch Blumberg, Alana Aynore, Cacilda de Jesus, Caroline Mendonça e tantos outros que certamente merecem ser lembrados e reconhecidos.

Mas, entre tantos personagens, hoje quero falar especialmente de dois.

A primeira vem da Caixa D’Água.

E aqui a história, para mim, ganha também um componente afetivo.

Everlane Moraes é sobrinha de um dos meus grandes amigos e parceiros, Wellington dos Santos, o querido Irmão — economista, músico, compositor, cantor e personagem importante na organização da cultura sergipana. É filha de Ewerton dos Santos, outro talento das artes plásticas. Ou seja: Everlane nasceu num verdadeiro canteiro de artes.

Nascida em Cachoeira, na Bahia, mudou-se ainda criança, aos quatro anos, para a terra de seu pai e de seu tio: a Caixa D’Água, em Aracaju, território de intensa riqueza cultural e afetiva, onde arte, ancestralidade, convivência e resistência fazem parte da vida cotidiana.

Foi nesse ambiente que cresceu uma menina que faria do cinema uma de suas grandes paixões.

Graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Sergipe e especializada em Direção de Documentário pela Escuela Internacional de Cine y Televisión, em Cuba, Everlane construiu uma trajetória marcada pela inquietação artística e pelo compromisso com as questões sociais, filosóficas e espirituais relacionadas à diáspora negra.

Sua obra fala de ancestralidade. Fala de memória. Fala de identidade e resistência.

Sua trajetória no audiovisual começa a ganhar corpo em 2007, quando foi selecionada para trabalhar em um filme relacionado à obra de Arthur Bispo do Rosário. A partir dali, vieram experiências, filmes, viagens, festivais, encontros e reconhecimento.

Em 2012 realiza uma de suas obras mais emblemáticas: Caixa D’Água: Qui-Lombo é Esse?, voltando sua câmera justamente para o território onde cresceu e ajudando a revelar uma das comunidades mais criativas e culturalmente potentes de Aracaju.

Sua filmografia reúne trabalhos como As Aventuras de Seu Euclides: Parafusos, Conflitos e Abismos: A Expressão da Condição Humana, Monga, Retrato de Café, Pattaki e A Gente Acaba Aqui, entre outras produções.

Com participações, prêmios e reconhecimentos em mostras e festivais brasileiros e internacionais, Everlane levou seu cinema e, junto com ele, um pouco de Sergipe para o mundo.

É uma artista talentosa, criativa, inquieta e guerreira. Sua câmera não serve apenas para registrar. Ela questiona, investiga, provoca e reconstrói memórias.

Everlane Moraes ocupa hoje um lugar de destaque na história contemporânea do audiovisual sergipano, sobretudo por construir uma obra profundamente ligada às suas origens sem jamais limitar-se geograficamente a elas.

Quanto mais profundamente mergulha em suas raízes, mais universal seu cinema se torna.

Na outra ponta dessa história está outro apaixonado pelo cinema, pelo documentário e pela memória: Sergio dos Santos Borges.

Suas raízes familiares estão em Laranjeiras. E quem conhece Laranjeiras sabe que é difícil passar por aquela cidade sem carregar alguma coisa consigo.

São sons, cheiros, cores, personagens, igrejas, terreiros, ruas, festas, grupos populares, histórias e memórias. Sergio carrega muito disso em seu olhar.

Graduado em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe, com mestrado em Geografia Agrária pela mesma instituição, construiu boa parte de sua trajetória profissional na educação, como professor das redes pública e particular de ensino, desenvolvendo também trabalhos relacionados à Geografia, ao turismo e ao cinema.

Mas a paixão pelo audiovisual encontrou seu espaço. E Sergio fez uma coisa muito interessante: levou para o cinema o olhar do professor, do pesquisador e do geógrafo. Passou a observar não apenas os lugares, mas principalmente as pessoas que dão sentido a esses lugares.

Seus documentários nascem muitas vezes do cotidiano, das histórias aparentemente simples e de personagens que ajudaram a construir a cultura e a sociedade sergipanas.

Sergio Borges é, antes de tudo, um estudioso do ser humano, de suas ações, de suas memórias e das marcas que cada pessoa deixa na história.

Em Silva Lima, por exemplo, recupera a trajetória de um personagem fundamental da comunicação e da cultura sergipana: o radialista que ajudou a divulgar jazz, blues, teatro e cinema e marcou gerações com programas como o histórico Informativo Cinzano.

E esse desejo de preservar personagens e histórias aparece também em obras como Viramundos, Você Conhece La Conga?, Jacinta Passos, Chica Chaves, Poesia e Corredores, Aurora: Memórias de Uma Rua e Benedito.

Há algo bonito nessa trajetória.

Sergio nos mostra que a paixão não precisa ter idade, profissão determinada ou hora marcada para acontecer.

Da sala de aula para as salas de exibição, ele transformou conhecimento em imagem e pesquisa em memória audiovisual. Seu cinema olha para Sergipe e pergunta:

Quem foram essas pessoas?

O que fizeram?

O que deixaram?

E por que não podemos esquecê-las?

Talvez seja exatamente essa uma das maiores funções do audiovisual. Não deixar esquecer.

Everlane Moraes e Sergio Borges trabalham com linguagens, universos e olhares diferentes. Mas existe algo que aproxima os dois: a compreensão de que cinema também é memória.

Everlane mergulha na ancestralidade, na diáspora, na espiritualidade, na identidade e na resistência.

Sergio percorre personagens, territórios, histórias e acontecimentos que ajudaram a formar nossa sociedade.

Dois olhares. Duas trajetórias. Duas maneiras de contar Sergipe.

E é justamente essa diversidade que demonstra a força do nosso audiovisual.