Olá gente boa,
Quando falo que no meu tempo as coisas eram diferentes, minhas filhas logo dizem: “Para pai, você não é tão velho assim.” Já meus netos, mais modernos, brincam: “Iii, vovô, estamos em outros tempos.” Mas a verdade é que, ao escolher viver de música, arte e cultura, eu sabia que seria uma jornada árdua. Naquela época, praticamente não havia investimento nessa área, e o talento, o esforço e a dedicação eram as únicas ferramentas para quebrar paradigmas e superar as barreiras econômicas e sociais.
Construí minha carreira entendendo que, como em qualquer outra profissão, era fundamental ter conhecimento profundo do que eu estava fazendo. Fiz cursos de iluminação, sonoplastia, produção, administração de negócios, direitos autorais, distribuição e gestão de carreira. Sempre disse a meus amigos que o dinheiro, por si só, não resolveria os desafios de uma carreira artística.
Em 1991, fui convidado pela Professora Eugenia Teixeira, então Presidente da Fundesc – Fundação Estadual de Cultura, para assumir a Direção Técnica da Fundação. Em nossas conversas, o tema do dinheiro sempre surgia. Naquele momento, o mais importante era fomentar a cultura através da criação de encontros culturais, festivais e apresentações, abrindo espaço para que nossos artistas mostrassem seus talentos. Eugenia, habilidosa e esposa do Vice-Governador José Carlos Teixeira, conseguia a liberação de verbas suficientes para a realização desses projetos.
Apesar das realizações, já naquela época sentíamos a falta de recursos para investir na formação e qualificação do setor cultural. Tudo era feito com base no talento, no esforço e na boa vontade, sem um planejamento estratégico claro ou uma finalidade definida em benefício da população e do setor cultural. Mesmo assim, realizamos grandes projetos como o Festival Novo Canto, Nosso Canto, Gonzagão Forró e Arte, os Encontros Culturais de Estância, de Laranjeiras, Ribeirópolis e Propriá, Encontro Medieval, o Rodoviarte, o Seis e Meia, o Pano de Boca, o Projeto Bandas, o Pé na Estrada, o Prêmio Auxílio Montagem, além de oficinas e cursos de teatro, dança, música e artes plásticas em todo o estado. Esses projetos poderiam muito bem estar ativos até hoje.
Hoje, olhando para trás, percebo que estava certo em meu pensamento. A cultura, assim como a vida, não precisa apenas de dinheiro para resolver problemas imediatos, embora isso seja importante. Sem a formação e qualificação necessárias, a cultura não cria as metas nem o foco necessários para crescer e construir um caminho seguro e amplo para os fazedores dessa cultura, fortalecendo, ao mesmo tempo, nossa identidade com a população sergipana.
Atualmente, temos mais recursos do que nunca. A cultura no Brasil nunca teve tanto dinheiro em sua história, e Sergipe, com seu orçamento sempre limitado, nunca viu tantos milhões. Mais de 20 milhões da Lei Aldir Blanc já foram liberados, há mais de 30 milhões ainda sem destino da Lei Paulo Gustavo, outros 25 milhões já estão em caixa para o programa Aldir Blanc 2, e nos próximos anos, mais de 20 milhões anuais serão destinados ao setor cultural. Mas qual é o resultado disso?
Onde estão os projetos das instituições governamentais voltados para a formação e qualificação de gestores, fazedores, técnicos e artistas? Onde está o foco e o conceito de como utilizar esses recursos em benefício da sociedade como um todo? Alguns secretários ou dirigentes de cultura se orgulham em dizer que em suas cidades “já resolveram tudo”, “distribuíram os recursos e prestaram contas”, ou até agradecem a Deus por “se livrarem dos artistas que só fazem pedir”. Mas, na realidade, o que foi feito com esse dinheiro? O que teremos de volta para as cidades? Onde esses artistas e fazedores de cultura chegarão? Porque quem distribui algo no governo é o social; a cultura investe, a cultura constrói.
O que estamos realmente construindo? Será que estamos viciando os artistas ao simplesmente distribuir dinheiro? Ou será que chegou a hora de assumir a responsabilidade de gestão e iniciar um trabalho democrático de escuta, mas também de propostas concretas de Estado? Sergipe é um estado cheio de cores, sabores, sons, imagens, tradições, somos um povo criativo, diverso, estamos juntos, misturados, singular e plural, não precisamos de esmola como a Ministra Margareth Menezes disse: Financiar o fazer cultural e entregar resultados à sociedade nunca foi mamata. Se trata de “adubar”, de “aguar” e fazer “florescer.
Devemos aproveitar o momento do governo Lula para construir bases sólidas e profundas para a cultura, assim como foi feito para a educação, a saúde e o social. Precisamos garantir que nenhum aventureiro com ressentimento da nossa imensa capacidade de pensar, reagir e lutar tente acabar novamente com a nossa cultura.
