Olá gente boa,
Num palco embalado pela sinfonia dos Festivais de Música, minha jornada teve início, onde ergui troféus e aplausos ao vencer o Festival do Salesiano com a canção “Vida no Refrão”, uma criação nascida da parceria com Alexi Pinheiro. Estes festivais, forjados nos anos de ferro, tornaram-se o epicentro de divulgação de nossa música, ecoando por todo o Brasil.
Os Festivais de Música Popular, como filhos de uma era de mudanças, floresceram e alcançaram o zênite de sua popularidade nos anos 60. Concebidos para dar voz ao novo momento musical, prosperaram nos palcos da TV Excelsior e Record. Surgiram então composições de Sérgio Ricardo, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Geraldo Vandré, e tantos outros. Foi uma época dourada em que a música se transformava em poesia, e a poesia, em revolução.
Aqui, em nossas terras, observamos todas essas metamorfoses. Na segunda metade dos anos 60, testemunhamos o surgimento da nova música aracajuana. Marcos Antônio, conhecido popularmente como Marcos Chulé, ergueu um hino da música local com “Cruzada”, vencedora do Festival de 1968, Tonho Baixinho, ao seu lado. Artistas como Ariquitiba, Luiz Antônio Barreto, Marcos Melo, Dão, Antônio Vilela, autor do clássico “Atalaia”, Antônio Teles, Hunald de Alencar, Alcides Melo, e tantos outros, moldaram o cenário musical sergipano para as décadas seguintes.
Na cidade de Estância, brotou o Festival Estanciano da Canção, uma ideia que floresceu pelas mãos do radialista, jornalista e estudante Francisco Teixeira da Silva Filho, mais conhecido como Chiquinho o caminho. Na década de 70, Alcides Melo iluminou nossos corações ao vencer o I Festival Estudantil da Canção, em 1971, com a comovente “Retirante”.
Mas foi na efervescente década de 80 que testemunhamos o surgimento do Festival Estudantil da Canção mais relevante, aquele que catapultou os grandes nomes da música sergipana para as décadas seguintes: “Novo Canto”.
Em 1984, Jorge Lins o criador e sua equipe, Américo Leite (Sucupira), Antônio Alves do Amaral e Acássia Barreto, todos da equipe da Fundesc sob a presidência de Fernando Lins de Carvalho, deram à luz esse festival que se estenderia até os anos 2000 ultrapassando o novo século. O “Novo Canto” não apenas abriu portas para a esperança de nossa música, mas também buscou nas escolas os novos talentos, revelando à sociedade a grandeza da juventude sergipana.
Em 1984, tive a honra de ser jurado na final do Festival, realizado no imponente auditório do Lourival Batista, teatro que se erguia na fronteira do Arribé, com capacidade para mais de 700 almas sedentas por música. O palco fervilhava com uma profusão de novos talentos, a disputa acirrada e os quatro vencedores, além de erguerem troféus e prêmios em dinheiro, gravaram um compacto duplo imortalizando suas vozes. Entre eles, Antônio Passos com “Canto à Esperança”, interpretado por Jule, Samba de Utopia de Rubens Lisboa com a voz de Maria Quaranta. Fim de Primavera, de Chico Queiroga e Lume, Edelson de Jesus Pinto – Pantera. Ao lado de dezenas de outros artistas, eles selaram o Festival como um marco na história da música sergipana, um sucesso aclamado tanto pelo público quanto pela crítica, ecoando pelos microfones da Rádio Liberdade.
Na segunda edição, em 1985, testemunhamos novamente o fervor das escolas e alunos ávidos por mostrar seus talentos. Foi o ano em que Chico Queiroga, com seu “Trem do Destino” que dizia: – Lá vem o trem do tempo, trazendo o destino… Lá vem o trem do tempo trazendo o futuro. Consolidou-se como cantor e compositor, mas também foi o ano em que conhecemos outro grande compositor, Marcos Aurêlio, cuja canção “Navalha no Pescoço” ecoava versos como “A minha mente é tão forte, move morros, e tem força de leão. Pensamento desembestado, dispara o coração”. Novamente, quatro vencedores foram coroados e seus cânticos imortalizados em compacto: Navalha no Pescoço por Marcos Aurêlio, Trem do Destino por Chico Queiroga, Parceiro do Tempo por Emerson Marden em parceria com Selma Maria, e O Ser e a Natureza por José Antônio, Ednaldo Silva, Clese Maria. Marcos Aurêlio, com sua poesia contundente, emergiu como o maior ganhador do Festival nos anos seguintes.
A cada ano, o Festival trazia consigo novidades, revelando novos nomes: Nino Karvan, Doca Furtado, Kleber Melo, Gilberto Nunes, Zelda Leite, os irmãos Joaby e Joalbo Gomes, Band’Auê, Luiz Eduardo, Mercinho, Marcos Odara, Sergival, Cris Emmel, Antônio Rogério, Décio Nunes, André Vinicius, Mario Chagas, Charles Henry, Byer, Geovan Pinto, Leopoldo Francisco, Thiago Ribeiro, Casé Uchoa, George Martins, Guilherme Maia Rebouças, Antônio Marcio Rocha, Jadson Moreno, Kranio, Malba, Sergio Luiz, Cledivan Lobo, Fabio Dórea, Jarbas Moreno, Kleber Melo, André Vinicius, Marilda Silva, Sandra Moreno, Ivan Reis, Alex Santana, Marcio de Dona Litinha, Perla Bulhões, Rivando Gois e Gena Karla. Centenas de compositores e cantores deram vida às inúmeras edições, alimentando assim a essência da música em Sergipe, e nutrindo as esperanças dos alunos do estado. Como bem disse Thiago Ribeiro em sua canção: “Um coração na mão e na outra o violão.
Assim era o cerne da proposta deste festival: inspirar sonhos, incitar desejos, e evidenciar que o talento pulsa intensamente em nosso meio. Bastava abrir espaço para que a nova música sergipana emergisse, como uma Overdose de Liberdade, ecoando os versos de Gena Karla.
Tive o privilégio de produzir e coordenar alguns desses talentos, uma experiência enriquecedora que infelizmente não se repete com a mesma frequência nas escolas e na gestão cultural do nosso estado. O Novo Canto atravessou décadas, com edições, nos anos 80 até 91, ininterrupto. Algumas edições ainda nos anos 90 e início dos anos e 2000, contribuindo assim para o aparecimento de novos talentos da nossa música sergipana. “Um outro projeto se destaca nesse sentido o Festival Sescanção”, mais é história para outro dia. Entretanto, é somente através do engajamento ativo desses jovens que verdadeiramente mudaremos o curso da história de nossa terra. Com suas participações, a música enriquece a cultura e fortalece os laços da nossa comunidade, proporcionando uma libertação que se reflete em toda a sociedade.
