Olá, gente boa,
Já comentei por aqui que não sou escritor, nem nunca tive a pretensão de ser. Muito menos professor ou crítico da obra alheia. O que faço é registrar memórias, vivências e reflexões de quem viveu — e ainda vive — a arte e a cultura na pele, no palco e fora dele.
Sou fruto dessa terra. Nasci, cresci e construí meu caminho em Sergipe. E mesmo com o passar dos anos, sigo firme, talvez mais devagar, mas com a mesma paixão e determinação. Não falo de fantasia, falo de realidade — dura, nua e crua. Porque fui eu que escolhi a arte e nunca desistir dela. E essa escolha cobra. Sempre cobrou.
Por isso, defendo a cultura com unhas e dentes. Doa a quem doer.
Lembro dos meus tempos de estrada, de shows, de gravações. Gravei quatro discos, fiz mais de noventa apresentações por ano, mesmo sendo rotulado como “artista da terra” — expressão que nunca engoli. Artista da terra é minhoca. Eu sou artista sergipano. E com muito orgulho. Nunca aceitei ser colocado em nível inferior a ninguém, seja daqui ou de fora.
E é justamente nesse ponto que chegamos ao debate atual: os cachês.
Hoje vemos discussões no Ministério Público, nos Tribunais de Contas e nas Procuradorias, sempre sem a presença efetiva de quem faz cultura. Técnicos tratam cultura como serviço, quando na verdade ela é fomento, é investimento, é identidade.
Muitos dizem que o valor artístico é subjetivo. Sempre discordei. Subjetiva pode ser a interpretação da minha música. Mas o meu trabalho nunca foi.
Para subir num palco, existe um processo objetivo:
Compor, escrever, criar, arranjar, ensaiar, montar banda, produzir, contratar estúdio, gravar, distribuir, pensar figurino, luz, som, cenário, equipe técnica, divulgação, logística… e só depois disso, realizar o show.
Tudo isso tem custo. Tudo isso é trabalho. Tudo isso precisa estar no cachê.
Sempre fiz minhas planilhas. Sempre soube quanto custava o meu espetáculo. A partir desse valor real, acrescentava minha trajetória, meu público, minha relevância, o contexto da apresentação. Apresentava currículo, histórico, números, resultados.
Aí sim entrava o valor subjetivo — o valor de quem construiu uma vida na arte. Porque artista não é mercadoria. E não existe outro igual.
O contratante pode não ter recurso. Isso é compreensível. O que não é aceitável é alguém querer impor o valor da minha arte. Isso é ultrapassar o limite do respeito.
E aqui está o grande erro que estamos vivendo hoje:
Confundir gestão pública com lógica de mercado.
O empresário quer lucro. O poder público deve fomentar. São papéis completamente diferentes.
O que vemos é um mercado distorcido, onde poucos concentram valores absurdos, enquanto a maioria — os artistas locais — sobrevivem sem espaço, sem mídia e sem oportunidade. E o pior: sustentados por um sistema que muitas vezes estimula práticas equivocadas, como a compra de notas fiscais e a intermediação predatória.
Enquanto isso, a população consome grandes eventos pontuais, e depois volta à realidade de sempre, sem acesso contínuo à cultura. Não há equilíbrio. Não há razoabilidade.
Agora surgem as ações do Ministério Público e dos Tribunais de Contas, tentando conter abusos. É legítimo. Os números assustam. Gastos que saltam de centenas de milhões em um ano.
Alguns estados criaram tetos. Outros condicionaram gastos à saúde fiscal dos municípios.
Mas pergunto:
Onde está a política para os artistas locais?
Onde está o olhar para a identidade cultural de cada território?
Resolver a conta sem resolver o sistema não resolve nada.
Por isso, insisto em caminhos que já defendi aqui e que podem, sim, ajudar a equilibrar esse cenário:
- Criação de um “Barema técnico de valorização artística”, com critérios claros: tempo de carreira, produção, circulação, relevância cultural, porte do espetáculo.
- Definição de categorias de cachê (A, B, C, D) com tetos realistas, respeitando trajetórias diferentes.
- Obrigatoriedade de percentual “máximo” de contratação de artistas locais em eventos públicos.
- Uso do Mapa Cultural como base de validação, evitando distorções e “valores inflados”.
- Fim da exigência distorcida de notas fiscais como único parâmetro de valor de mercado, combatendo fraudes.
- Separação clara entre contratação artística e lógica de licitação tradicional, aplicando corretamente o marco do fomento cultural.
- Planejamento anual de programação cultural, garantindo continuidade como o estado vem tentando fazer, e não apenas eventos pontuais.
- Isso tudo com razoabilidade, critérios técnicos, conceitos e legalidade.
Não se trata de limitar a arte.
Se trata de dar dignidade a quem constrói a cultura todos os dias.
Se trata de equilibrar o jogo.
Se trata de respeitar a nossa identidade.
Porque do jeito que está, resolvemos a conta, sem cuidar da cultura,
Assim, vamos matar a nossa identidade.
E como diria meu avô, com a sabedoria simples que carregava:
“Eita, tá difícil de entender, meu neto…”
