Olá gente boa,
Vivemos um tempo em que as redes sociais e a Inteligência Artificial criam, a cada segundo, novos pensadores, intelectuais e especialistas em tudo. Como diria Chacal, são “rápidos e rasteiros”.
Tenho um amigo que, até pra zombar de mim, quando vai falar alguma coisa diz: “agora vou falar como Neu Fontes…”, e começa com “minha avó falava…”. Todo mundo ri. Eu também. Mas sei que, no fundo, ele entende o peso de uma vida inteira dedicada à arte e à cultura — coisa que não se aprende em manual nem em vídeo de um minuto.
Nunca fui vendedor, nem corretor, muito menos bancário ou empresário. Profissões dignas, importantes, que respeito profundamente. Mas escolhi ser artista. Escolhi viver da arte e com a cultura. E isso não foi ontem, nem por acaso.
Não cheguei agora, não caí de paraquedas, não fiz cursinho para virar gestor cultural. Aprendi foi na lida. Com mestres e mestras do tamanho de Luiz Antônio Barreto, Aglaé Fontes, Lindolfo Amaral, Elber Batalha, Jackson Barreto, Jorge Carvalho, João Augusto Gama, Núbia Marques, Fabiano Oliveira, entre tantos outros. Cada um me ensinou mais com a vida do que qualquer livro.
Sou chamado de chato, de encrenqueiro… porque nunca baixei a guarda e nunca mudei o rumo.
E dessa vez não foi minha avó não… foi minha mãe mesmo, que sempre diz: “meu filho é inteligente”. E por causa disso fui estudar, me especializar, entender a gestão cultural por dentro e alinhar com a administração pública.
Desde 2008 venho contribuindo: nas conferências, nos fóruns, nos seminários, na construção do Sistema Nacional de Cultura, nas discussões com gente do tamanho de Gilberto Gil, Juca Ferreira, Roberto Peixe, Isaura Botelho, Paulo Miguez, Silvana Meireles e tantos outros.
Estive no Congresso Nacional brigando por essa pauta junto com Marta Suplicy. Ajudei a construir o Sistema Municipal de Cultura de Laranjeiras — com Plano, Fundo e Conselho — um dos primeiros do Brasil com o “CPF da cultura” completo, aprovado em lei e modelo para o MinC. Infelizmente, hoje abandonado.
Participei também da construção da primeira Lei dos Mestres da Cultura em nível municipal do país, garantindo dois salários mínimos vitalícios. E depois, no estado, da Lei dos Mestres que hoje reconhece 15 mestres e mestras da cultura sergipana — gente que carrega nossa identidade viva.
E aqui faço um registro justo: o governador Fábio Mitidieri entra pra história como um dos que mais avançaram na valorização da cultura em Sergipe, não só sancionando, mas cobrando que a política aconteça de verdade.
Sempre defendi uma coisa simples:
Cultura não é cimento.
Cultura não é papel higiênico.
Cultura é fomento.
Cultura é criação.
Cultura é vida.
E agora, depois de anos de estrada, debates e construção coletiva — uma grande vitória.
E teve que ser no dia 31 de março… pra gente ressignificar a data.
Trocar o medo pela construção.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto da Política Nacional das Artes — a PNA.
E o que é isso?
Vou dizer direto:
A arte agora tem política própria.
Não é sobra.
Não é puxadinho.
É política de Estado.
Mas o mais importante não é só isso.
A PNA é estratégia. Ela deixa claro que a cultura não anda mais sozinha.
Cultura dialoga com:
Educação.
Justiça.
Turismo.
Trabalho.
Economia.
E quem não entender isso… vai ficar pra trás.
O maior erro agora é continuar pensando cultura só dentro da cultura.
Quem ficar esperando só edital… vai diminuir.
É hora de virar a chave.
Cultura não é só show. É formação. Não é só evento. É política pública. Nunca foi gasto. É investimento.
Ela Combate violência. Diminui evasão escolar. Gera emprego e renda
E abre portas.
Na Justiça: cultura como prevenção, território e pertencimento.
Na Educação: arte dentro da escola, formação contínua.
No Turismo: identidade virando renda.
Projeto bom hoje é projeto misturado:
Cultura + Educação
Cultura + Turismo
Cultura + Social
Cultura + Trabalho
Cultura + Justiça
Quem entender isso primeiro, sai na frente.
Mas talvez o mais bonito disso tudo seja outra coisa…
Outro dia, um jovem disse que eu só pensava em cultura popular.
Respondi simples:
Tudo é importante. Mas tudo começa em algum lugar. E quase sempre… começa no povo.
Da cultura alemã à cultura da Aguada…
tudo nasce do povo. E a PNA reconhece isso:
O mestre popular é artista
O saber tradicional é conhecimento
A cultura do povo é escola
A PNA não vem sozinha. Ela se soma ao Plano Nacional de Cultura, à Lei Aldir Blanc, ao sistema que ajudamos a construir. Planejamento, Recurso, Política. O tripé começa a se completar.
Mas atenção:
A PNA não resolve tudo. Ela abre caminho. Agora é responsabilidade nossa.
Organizar.
Estruturar.
Valorizar.
Criar critérios.
Aqui em Sergipe, isso não é novidade, é só pesquisar.
Somos referência. Somos modelo:
Criamos Conselho cedo.
Lei de incentivo cedo.
Novo Canto, Festival Estudantil revelando artistas que estão até hoje em atividade. Cultura na escola antes de virar discurso. Leis dos Mestres. Só precisamos abandonar o complexo de vira lata.
A PNA chega dizendo:
Neu, você não estava errado. E isso não é vaidade. É responsabilidade.
E como dizia minha avó Noemi Brandão:
Pisa maneiro, pisa maneiro
Quem não pode com a formiga
Não assanha o formigueiro
E eu sigo…
Com a mesma teimosia, com o mesmo amor, sem arredar o pé.
Porque no fim das contas, gente boa.
Não é Favor, é Arte
