Olá, gente boa.
Uma das maiores dádivas da vida é continuar aprendendo. Conhecer pessoas, ideias, projetos e sonhos que nos fazem acreditar ainda mais na força criativa do nosso povo. E, confesso, poucas coisas me encantam tanto quanto encontrar alguém que transforma talento em propósito, arte em identidade e sensibilidade em ação.
Foi exatamente isso que senti ao conhecer melhor o trabalho de Naná Oliveira, apresentada a mim por Maria Gloria..
Naná é dessas pessoas raras que parecem ter nascido para criar. Sergipana, mãe de três filhos, multiartista, pesquisadora e artesã por vocação, ela carrega uma inquietação bonita: a de enxergar valor onde muitos passam sem perceber. Há mais de uma década dedica sua vida ao trabalho com comunidades tradicionais e periféricas, mergulhando em saberes populares, aprendendo com as pessoas e construindo caminhos onde cultura, memória e desenvolvimento caminham de mãos dadas.
Em tempos em que o mundo insiste em transformar tudo em produto descartável, Naná faz exatamente o contrário. Ela olha para as raízes. Olha para a terra. Olha para as pessoas.
Foi assim que nasceu a Casa de Marimbondo, um dos projetos mais belos e inteligentes que tive a oportunidade de conhecer nos últimos tempos. Depois de anos convivendo com as mulheres do povoado Tigre, em Pacatuba, no coração do nosso pantanal sergipano, Naná transformou pesquisa, convivência e afeto em um projeto que une design, artesanato, geração de renda e valorização da identidade cultural.
E que nome bonito.
Quem nasceu no interior do Nordeste certamente conhece os marimbondos. Conhece suas casas resistentes, construídas com paciência, técnica e sabedoria. A Casa de Marimbondo carrega exatamente esse espírito: criar abrigo, fortalecer laços e construir algo duradouro a partir daquilo que a própria natureza e a cultura oferecem.
Ao lado da arquiteta Giovanna Arruda, Naná desenvolveu móveis e objetos que dialogam com a vida do povo do Tigre. Peças feitas com taboa, fibra retirada das lagoas da região, trabalhada pelas mãos habilidosas das artesãs locais, combinada ao vergalhão de aço tão presente nos móveis simples do interior nordestino. O resultado é surpreendente: mobiliário contemporâneo sem abrir mão da alma popular.
Mas o que mais me chama atenção não é apenas a beleza das peças.
É o processo.
É entender que por trás de cada cadeira, poltrona ou objeto existe uma história. Existe uma mulher entrando na lagoa para colher a taboa. Existe um saber transmitido entre gerações. Existe uma comunidade que encontra novas possibilidades de renda sem abandonar sua identidade. Existe respeito.
E respeito, meus amigos, talvez seja a matéria-prima mais rara dos dias atuais.
A consagração desse trabalho veio de forma natural. A Poltrona Pacatuba, inspirada no puçá utilizado pelas mulheres marisqueiras da região, ganhou destaque na 14ª Bienal Brasileira de Design. Um reconhecimento merecido para um projeto que demonstra como tradição e inovação não são opostos, mas parceiros na construção do futuro.
O mais bonito é perceber que Naná não usa o design para impor uma estética sobre o território. Ela faz o contrário. Escuta o território. Aprende com ele. Permite que a paisagem, os costumes e os saberes locais conduzam o processo criativo.
Isso é arte.
Isso é cultura.
Isso é desenvolvimento sustentável de verdade.
Ao conhecer sua trajetória, fiquei com a sensação de que Naná Oliveira pertence a uma linhagem de criadores que compreendem algo fundamental: preservar não significa congelar o passado, mas permitir que ele continue vivo, dialogando com o presente e apontando caminhos para o futuro.
Sergipe possui muitos talentos. Alguns estão nos palcos, outros nos livros, nas oficinas, nos ateliês, nos terreiros, nas comunidades ribeirinhas e nos povoados mais distantes. Naná Oliveira é uma dessas artistas que nos lembram que a cultura não nasce nos gabinetes nem nos discursos. Ela nasce das pessoas.
E quando encontra alguém disposto a ouvi-las, ganha asas.
Que a Casa de Marimbondo continue crescendo. Que as mulheres do Tigre sigam transformando taboa em beleza, memória em renda e tradição em futuro. E que Naná continue fazendo aquilo que faz tão bem: revelando ao mundo a riqueza que sempre existiu aqui, muitas vezes escondida diante dos nossos próprios olhos.
Porque artistas como ela não produzem apenas objetos.
Produzem pertencimento.
E isso não tem preço.
