Olá, gente boa!
Nós somos, por natureza, seres políticos. Participamos, a cada dia, da construção do país, do estado e da cidade em que vivemos. Não dá mais para fingir neutralidade diante de tudo o que temos visto — aqui e lá fora. Não posso, como artista, cidadão e homem livre, me calar diante do avanço da ignorância travestida de moral, da violência justificada pelo medo e da destruição da democracia promovida por aqueles que deveriam protegê-la.
Parte da imprensa brasileira, aliada a um esquema perverso da extrema-direita antipatriota e minoritária, ajudou — e ainda ajuda — a alimentar o caos. Um caos que favorece interesses econômicos externos e entrega nossas riquezas nas mãos de um exército de lobos travestidos de cordeiros. Fizeram isso no passado com tanques e censura. Hoje, fazem com fake news, algoritmos e líderes que carregam o ódio como bandeira.
Durante o golpe militar de 1964 até o AI-5 de 1968, a imprensa hegemônica foi cúmplice ativa. Espalhou o medo com narrativas anticomunistas, criou o “inimigo interno” e justificou prisões, torturas e desaparecimentos. Boa parte dos donos de jornais, rádios e TVs estava do lado dos generais e dos ricos — uma minoria que sempre governou como se fosse maioria.
Na cultura, seguiram a cartilha da Doutrina de Segurança Nacional, inspirada em modelos fascistas e nazistas, com o claro objetivo de eliminar vozes críticas. O Decreto-Lei 314/68 dizia: “Controlar a cultura é o melhor meio para alcançar e manter os objetivos nacionais.” O que se viu foi a marginalização da arte que questionava, do pensamento que libertava e da música que resistia. A contracultura foi tratada como ameaça. O diferente virou crime.
Os editoriais bajulavam os Estados Unidos e seus presidentes, enquanto artistas brasileiros, pensadores, jovens e operários eram presos ou mortos. Muitos até hoje não foram encontrados. Foi esse o ambiente em que o tal “capitão de favor” aprendeu a ser o que é: um repetidor de frases prontas, herdeiro ideológico de Ustra, Geisel, Castelo Branco e outros generais que achavam que o país era um quartel.
E agora, em pleno século XXI, somos obrigados a assistir, todos os dias, a enxurradas de insanidades nas redes sociais e nos jornais — muitos ainda com a mesma postura subserviente e canalha. Uma família que virou símbolo de tudo que há de mais podre: machismo, homofobia, racismo, mentira, corrupção e ódio. Um gay que odeia gays. Uma mulher que ataca mulheres. Filhos que se acham heróis de gibi, mas fogem na hora da verdade. Um pai que ri da dor de mais de 700 mil brasileiros mortos na pandemia que ele debochou até o fim.
A cultura, mais uma vez, virou alvo. Acabaram com o Ministério da Cultura como se fosse lixo. Atacaram a Lei Rouanet com a mesma ignorância de sempre, chamando artistas de vagabundos, de ladrões — quando os verdadeiros ladrões, eles protegem. Usaram a Bíblia como escudo, mesmo sem nunca terem lido de verdade suas palavras. Se há um Deus que pune os hipócritas, ele há de cobrar caro.
O que me dói, mais do que os canalhas no poder, é ver o povo idolatrando essa gente. Tornaram um sujeito desprezível num “mito”. Muitos, que antes pareciam normais, se revelaram psicopatas — desejando a morte de seus irmãos em nome de Deus. Um absurdo! O fanatismo virou religião. E a mentira, método de governo.
Não discuto mais com bolsonaristas. Tenho amigos entre eles — uns por ignorância, outros por frustração. Sinto pena, raiva e vergonha. Mas não vou me calar. Essa terra é de Zumbi, de Maria Quitéria, de Lampião, de Marighella, de Ulisses, de Zuzu Angel, de Darcy Ribeiro, de Deda, de Vandré, de Henfil, de José Carlos Teixeira, de Nubia Marques, de Alcides, de Chico, Caetano e Gil, de Jackson, Gama, Mangueira, Varela, Paixão e Bonfim, de Milson, Careca, Alcides, Farofa, Edvaldo, Buchinho, Deomeldes, Doria, Milton, Manoel Alves, Lucindo, Ilma, e Therezinha Viana de Assis. É também de tantas e tantos sergipanos e brasileiros que deram suor e sangue pela liberdade.
Nós lutamos para ser uma nação livre e democrática. E somos tão democráticos que permitimos que os inimigos da democracia falem — mesmo que o queiram é destruí-la. Mas a liberdade também exige coragem. E memória. Não esqueçamos dos que fugiram, dos que choraram na porta dos quartéis, dos que tentaram golpes disfarçados de patriotismo. Eles não merecem anistia. Não merecem perdão.
Quanto ao topetudo americano, pode cancelar meu visto se quiser, tô nem ai. A resposta virá do próprio povo americano, que também precisa acordar. Ninguém é melhor do que ninguém. Todo império um dia cai. Todo mentiroso, um dia, é desmascarado. E todo canalha, por mais blindado que pareça, um dia sangra.
Enquanto isso, a arte continua sendo nossa arma.
A palavra, nosso escudo.
E a verdade, o nosso caminho.
